14/02/2025
𝐂𝐨𝐧𝐟𝐢𝐬𝐬𝐚̃𝐨 (𝐝𝐞 𝐒.𝐕𝐚𝐥𝐞𝐧𝐭𝐢𝐦)
Depois de seres doutro, acordei finalmente do meu letargo.
Amara-te sempre com um platonismo rude, com um respeito de devoto, e nunca te disse. Eras a minha religião, a Nossa Senhora da Minha Alma.
Rezei baixinho as palavras que te devia ter dito sinceramente, abertamente, como a justo que se confessa à Deusa da sua Fé, e nunca o fiz.
Talvez tenha receio de te rires de mim... Temia que derrubasses esta paixão com um sorriso de indiferença, e eu não queria...
Procurava prolongar esta ilusão, como o condenado deseja ver adiado o dia da sua morte. Que louco fui... Mais dias que passaram com sonhos cor de rosa, para afinal seres possuída por um homem como eu.
Desconheço o meu rival. Mas certamente é belo e esbelto como Apolo, másculo e destemido como Marte.
Serás feliz. A tua alma, que eu leio nesses olhos negros, é pura, amorosa, concisa... Casas-te por amor, vou jura-lo. Tu não o farias se assim não fosse.
É pobre talvez; portanto, gentil, caricioso, amante... Os ricos são grotescos e ridículos e tu odeias o ridículo certamente.
O teu corpo belo talhado primorosamente, não procurou, decerto, um corpo disforme. Não é assim?..
Vou resignar-me. Viverei sempre para ti e só te peço, que esqueças o que tão tarde te digo.
Não penses que tens apaixonados, para não te envaideceres. A susceptibilidade da traição começa por se desenvolver no dia em que a mulher se pensa desejada. E então... O desejo baralha-se com o pudor e geralmente o segundo é vencido. Apaga, pois, do cérebro, todos os vestígios desta carta, e rasgando-a mentalmente, atira-a ao vento. Passados alguns dias será folha morta.
Não quero que te venhas entregar, nem foi esse o meu intento. Nunca desejaria ver-te apontada como adúltera, se o teu marido mereceu essa união que tanto desejei. Afasta de ti esta confissão. Arremessa-a para o monturo das perversidades, embora eu sofra.
Sê tu feliz, isso me bastará para eu viver.
Não posso mais. Estou exausto. A pena tem corrido esfalfada e recusa-se a escrever o que lhe dito. Do cérebro irrompem palavras que não te devo dizer. Toda a minha alma se enche da lava incandescente e rubra, que me sai do cérebro. Este facho imenso de fogo, vai tragar me o espírito e talvez o corpo.
Não me quero consumir mais. Dentro de alguns dias vou recomeçar esta carta, para te dizer tudo o que sinto, tudo, absolutamente tudo, para que esta confissão, embora tardia, me livre do peso enorme que tenho na alma e com o qual não poderei sofrer.
Vi hoje o teu esposo. Achei lhe graça. Embora não quisesse, tive de rir. Ri abertamente.
E pergunto-te: O meu rival é aquela massa humana, disforme e repugnante, que ouvi falar em operações de Bolsa, de olhos cubiçosos e avaros, parecendo querer açambarcar o mundo?...
O teu marido é aquela figura de barraca de fenômenos, que se bamboleia como os aleijados das feiras, mostrando o dinheiro, como os outros mostram os aleijões?...
Pobre de ti. Nos esgares das minhas gargalhadas, foi todo o amor que te tinha. Não quero por rival um homem que as bacantes repelem fisicamente, Bacantes!... E que és tu? Uma mulher que se vende. O preço varia de mulher para mulher.
Tu entregas-te por todo o ouro dum opulento, por toda uma fortuna amassada com sangue e lágrimas dos infelizes que trabalham.
As perdidas vendem-se por algumas moedas que lhe dão pela troca, entre vielas sujas em que a devassidão impera. Tu vendes-te na alta sociedade, entre sêdas e veludos, onde o champagne substitui o vinho e o casamento a prostituição.
Que diferença fazes da Rosa Engeitada. essa rapariga que se entregou ao primeiro que lhe apareceu, só porque o homem lhe comprou umas chinelinhas bordadas a cores, que há muito desejava?
Nenhuma!... Substituis a brandurra por um piano, como se a lama não fosse a mesma...
Não entras nas baiucas, mas frequentas assiduamente os chás-dancings o julgas que a podridão não é igual. Perdida!... Mercadoria vil... É esta a última confissão que te faço. Tudo o que por ti sentia, desapareceu.
Julguei que pairavas mais alto, na região dos sonhos e vejo te tombar na arena do circo, como todas as outras.
Que o teu papel de malabarista de corações, não te traga mais dissabores. Continua recebendo aplausos da multidão e divide-os pelo fenómeno. Mostra-nos essa figura que te ridicularizou, comprando-te, enquanto eu, como o palhaço, enterrarei o coração no meio da arena, rindo, rindo, sempre.
𝐴𝑙𝑣𝑒𝑠 𝑅𝑒𝑑𝑜𝑙
14 𝑑𝑒 𝐹𝑒𝑣𝑒𝑟𝑒𝑖𝑟𝑜 𝑑𝑒 1930