Vila Franca de Antigamente

Vila Franca de Antigamente Arquivo fotografico de Vila Franca de Xira e arredores

Há 74 anos…Inauguração da ponte sobre o Tejo em Vila Franca de Xira, a 30 de dezembro de 1951. "Velha aspiração tornada ...
30/12/2025

Há 74 anos…
Inauguração da ponte sobre o Tejo em Vila Franca de Xira, a 30 de dezembro de 1951. "Velha aspiração tornada realidade", titulava o DN do dia seguinte. "A ponte de Vila Franca f**a sendo uma das grandes obras do Estado Novo". Em destaque no texto, podia ainda ler-se que a povoação "viveu o dia maior da sua história".
Fonte: DN

Auto-Estrada do Norte (A1), na zona de Vila Franca de Xira (1970).
25/10/2025

Auto-Estrada do Norte (A1), na zona de Vila Franca de Xira (1970).

𝐎 𝐂𝐚𝐢𝐬 𝐝𝐚 𝐒𝐚𝐫𝐝𝐢𝐧𝐡𝐚Uns chamam-lhe «Cais Velho», outros «Cais da Sardinha». É aquêle cais que, passada a linha do Caminho ...
23/10/2025

𝐎 𝐂𝐚𝐢𝐬 𝐝𝐚 𝐒𝐚𝐫𝐝𝐢𝐧𝐡𝐚

Uns chamam-lhe «Cais Velho», outros «Cais da Sardinha». É aquêle cais que, passada a linha do Caminho de Ferro, f**a no prolongamento da rua Almirante Cândido dos Reis.
O tráfego que por êle se exerce é importantíssimo. Cais de carga e descarga ele é utilizado por toda a exportação e importação da região de Vila Franca.

E com êste último período cremos ter dito tudo, quanto em abono da sua enorme importância se poderia dizer. Com este cais está a passar-se um facto deveras curioso e prejudicial, digno de prudente atenção por parte das autoridades competentes.

É o caso que em algumas zonas -ou por falta de consistência dos terrenos subjacentes, ou por esmagamento dos materiais de alicerce, ou por quaisquer outras e variadíssimas razões- pode observar-se no Cais da Sardinha um considerável desnivelamento (rebaixamento) que em alguns pontos é superior a meio metro.

As contrariedades, os prejuízos que deste facto poderão advir são enormes e não precisamos enumerá-los e encarecê-los, porque são bem patentes e claros aos olhos de todos.

Queremos somente lembrar -a quem de direito- que é necessário e urgente enviar ali técnico competente que a tal possa providenciar.

𝑉𝑖𝑑𝑎 𝑅𝑖𝑏𝑎𝑡𝑒𝑗𝑎𝑛𝑎 𝑛º1075, 3 𝑑𝑒 𝐽𝑎𝑛𝑒𝑖𝑟𝑜 𝑑𝑒 1943
𝐼𝑚𝑎𝑔𝑒𝑚: 𝑀𝑜𝑛𝑢𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜 𝐶𝑎𝑖𝑠 𝑑𝑎 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎 | 𝑀𝑢𝑠𝑒𝑢 𝑀𝑢𝑛𝑖𝑐𝑖𝑝𝑎𝑙 𝑉𝑖𝑙𝑎 𝐹𝑟𝑎𝑛𝑐𝑎 𝑑𝑒 𝑋𝑖𝑟𝑎

𝐔𝐦 𝐄𝐩𝐢𝐬𝐨́𝐝𝐢𝐨 𝐧𝐚 𝐋𝐞𝐳𝐢́𝐫𝐢𝐚O mais pacato e menos prevenido citadino aficionado à Festa de Toiros não pode supor a magnificê...
09/10/2025

𝐔𝐦 𝐄𝐩𝐢𝐬𝐨́𝐝𝐢𝐨 𝐧𝐚 𝐋𝐞𝐳𝐢́𝐫𝐢𝐚
O mais pacato e menos prevenido citadino aficionado à Festa de Toiros não pode supor a magnificência de uma lezíria, toda oiro de palha seca após as ceifas, ou da forragem, gotada de papoilas rubras, que a torna campo de esmeralda, nem calcula o que seja contemplar dezenas de toiros de lida no seu éden, vistos a olhos de ver nas poses mais soberbas e de uma fotogenia surpreendente, comendo ou brincando, encampanados com o vulto novo que os mira ou calmos e alheios a tudo, deitados a remoer a erva na paz seráf**a, ou correndo em galopada frenética na cola de uma «faca» ligeira, belos, verdadeiras estampas heráldicas e eles próprios peças de negro esmalte em campo de metal que é oiro na cor e no preço.

Por uma tarde eu estava conversando de toiros e coisas da Festa, junto de amigos, em Vila Franca, quando fui inesperadamente convidado para assistir, no Juncal Tapado, onde estão os toiros de Palha e de Oliveira & Irmãos, à compra de uma corrida. Devo à gentileza de Manuel Faia, o antigo e grande forcado de Tomar, a impressão indelével de uma tarde nos campos de Vila Franca.

Mais de trinta toiros de lide, soberbos, de cornos acaramelados, dos ganaderos de Samora, pastavam, nessa tarde, no plaino virgiliano da lezíria ribatejana e, num carro, um frágil monte de lata mecânico, um nada perante a força anímica da matéria sublimada, demos volta a umas quantas corridas. Já antes vira, no carro dos ganaderos, num guarda-lamas, uma enorme escara no aço, de quase nove centímetros de diâmetro. O senhor João Oliveira falou-me na proeza recente do toiro «Nublador» mas... vamos adiante e com temple.

Indo no frágil automóvel do nosso amigo Jorge Da-mas João Oliveira, Manuel Faia, seu filho, eu e o proprietário, ver um toiro que se afastara da piara surgiu-nos outro, o «Pintassilgo», excitado por um tratamento recente, em que sofreu a anestesia por meio de tiro.

Arrancou-se à nossa esquerda e, com o pitón esquerdo, rasgou até ao estofo, passando o vidro, a porta do automóvel.

Foi a mais estranha sensação da minha vida de aficionado! Seria a última de todos nós talvez, se Jorge Damas, num reflexo de bom «volante», não mete uma primeira, dando ao carro todo o andamento possível na passagem poeirenta, com o bom melro do «Pintassilgo» recargando à garupa metálica do nosso puro sangue de marca alemă.

Passado o susto, mas a custo tirando dos estofos o pó de vidro a que «Pintassilgo» reduzira a janela do 𝑉𝑜𝑙𝑘𝑠, foi escolhida a corrida dos oito soberbos Oliveiras, que Luís Miguel da Veiga, José João Zolo, Μário Coelho e Oscar Rosmano enfrentarão, em Tomar, na noite de 31 de Agosto.

𝐅. 𝐋𝐎𝐔𝐑𝐄𝐈𝐑𝐎
𝐕𝐢𝐝𝐚 𝐑𝐢𝐛𝐚𝐭𝐞𝐣𝐚𝐧𝐚 𝐧º𝟐𝟖𝟏𝟐
17 𝐴𝑔𝑜𝑠𝑡𝑜 𝑑𝑒 1974

𝐏𝐚𝐝𝐫𝐚̃𝐨 𝐝𝐚 𝐏𝐚́𝐭𝐫𝐢𝐚 𝐞 𝐝𝐚 𝐅𝐞́  (𝟏𝟗𝟒𝟎)Constituiu um acontecimento grandioso, de rara e impressionante beleza, a inauguração...
16/07/2025

𝐏𝐚𝐝𝐫𝐚̃𝐨 𝐝𝐚 𝐏𝐚́𝐭𝐫𝐢𝐚 𝐞 𝐝𝐚 𝐅𝐞́ (𝟏𝟗𝟒𝟎)

Constituiu um acontecimento grandioso, de rara e impressionante beleza, a inauguração e bênção litúrgica do Cruzeiro da Independência, no Alto do Senhor da Boa Morte. Local sagrado, em que as pedras nos falam de épocas remotas e brilhantes, onde a tradição anda de mãos dadas com o surpreendente panorama que de lá se avista, foi muito bem escolhido para nele se erguer tão honroso padrão, que f**a a assinalar a crença em Deus e o patriotismo das gentes dêste canto abençoado do Ribatejo que têm a felicidade de viver neste ano áureo de 1940, para sempre ligado e da maneira mais bela às mais lindas páginas da História dos Portugueses.

Milhares de pessoas acorreram, no dia 15, ao monte do Senhor da Boa Morte e, comovidamente, presenciaram ou tomaram parte nas solenidades da inauguração daquela cruz simbólica do nosso patriotismo secularmente enraïzado, e do nosso amor a Cristo, ao filho de Deus que morreu na Cruz para nossa salvação e para Sua glória. Não temos palavras nem o merecimento bastante para descrever tão brilhante apoteose ao Céu e à Pátria. Vivemos momentos de profundo misticismo, a alma entregue inteiramente a Deus, a fronte curvada perante aquele símbolo cristão que acompanhou sempre os portugueses nos seus feitos gloriosos, e nas suas horas de desalento, de sofrimento e de dôr. Como nos falava à alma aquela cruz de pedra, tão grande na sua pequenez, tão formosa na sua simplicidade, mas refulgindo ao sol de tão lindo dia como se de oiro fôsse!

Ao lançar a benção, o rev.º Antunes Abranches estava comovidíssimo e a sua comoção logo se comunicou aos milhares de crentes e até aos descrentes que subiram ao Alto do Senhor da Boa Morte. Depois, falou. Falou aos corações de todos no meio de um silêncio empolgante. O nome de Deus andava ligado ao da Pátria. Foi uma lição arrebatadora o seu belo discurso. O capitão sr. José Maria Guedes dirigiu-se aos jovens, e o seu discurso constituiu outra lição de fé e de patriotismo.

Ouvem-se lindos hinos e cânticos; as bandas do Ateneu e da União Musical atroam os ares com os seus hinos patrióticos e o menino Toscano Pessoa recita, com alma, um lindo soneto. Subiu, depois, aos degraus do Cruzeiro, a insinuante figura de ribatejano que é o sr. José Van Zeller Palha. Falou de Deus, da nossa fé, da fé e do patriotismo da gente do concelho a cujos destinos preside e, por duas vezes, encimou as suas belas frases com o nome tantas vezes glorioso de Portugal, que milhares de bôcas saudaram em reconhecimento.

Crianças das escolas, da Sagrada Eucaristia e da Catequese elevaram as suas vozes, dirigidas pelo rev.º Antunes Abranches, em novos hinos e cânticos a Deus e a Portugal. E êste espectáculo inolvidável arrebatou, outra vez, a enorme assistência. Versos sublimes do rev.º Padre Moreira das Neves foram cantados com o calor e a sinceridade que o poeta pôs nas suas encantadoras estrofes.

Já o sol caía no poente quando o rev.º Antunes Abranches fez nova saudação à Cruz e encaminhou a assistência a beijá-la, o que fez embevecida, juncando, ao mesmo tempo, de ramos, de centenas de ramos, a base do pequeno, humilde mas radioso monumento que f**ará eternamente a perpetuar a nossa gratidão a Deus e aos Mártires. Santos, Poetas e Heróis que fizeram a nossa querida Pátria, que a engrandeceram e para sempre lhe deram a liberdade.

Ramos votivos, êles são bem a expressão de quanto o povo da nossa freguesia é bom e compreendeu o alto signif**ado daquelas pedras: Uma cruz para dizer, na História, o que é Portugal!

𝑉𝑖𝑑𝑎 𝑅𝑖𝑏𝑎𝑡𝑒𝑗𝑎𝑛𝑎 𝐸𝑠𝑝𝑒𝑐𝑖𝑎𝑙 1940 (𝐴𝑑𝑎𝑝𝑡𝑎𝑑𝑜)

𝐂𝐨𝐧𝐟𝐢𝐬𝐬𝐚̃𝐨 (𝐝𝐞 𝐒.𝐕𝐚𝐥𝐞𝐧𝐭𝐢𝐦)Depois de seres doutro, acordei finalmente do meu letargo.Amara-te sempre com um platonismo ru...
14/02/2025

𝐂𝐨𝐧𝐟𝐢𝐬𝐬𝐚̃𝐨 (𝐝𝐞 𝐒.𝐕𝐚𝐥𝐞𝐧𝐭𝐢𝐦)
Depois de seres doutro, acordei finalmente do meu letargo.
Amara-te sempre com um platonismo rude, com um respeito de devoto, e nunca te disse. Eras a minha religião, a Nossa Senhora da Minha Alma.

Rezei baixinho as palavras que te devia ter dito sinceramente, abertamente, como a justo que se confessa à Deusa da sua Fé, e nunca o fiz.

Talvez tenha receio de te rires de mim... Temia que derrubasses esta paixão com um sorriso de indiferença, e eu não queria...

Procurava prolongar esta ilusão, como o condenado deseja ver adiado o dia da sua morte. Que louco fui... Mais dias que passaram com sonhos cor de rosa, para afinal seres possuída por um homem como eu.

Desconheço o meu rival. Mas certamente é belo e esbelto como Apolo, másculo e destemido como Marte.

Serás feliz. A tua alma, que eu leio nesses olhos negros, é pura, amorosa, concisa... Casas-te por amor, vou jura-lo. Tu não o farias se assim não fosse.

É pobre talvez; portanto, gentil, caricioso, amante... Os ricos são grotescos e ridículos e tu odeias o ridículo certamente.
O teu corpo belo talhado primorosamente, não procurou, decerto, um corpo disforme. Não é assim?..

Vou resignar-me. Viverei sempre para ti e só te peço, que esqueças o que tão tarde te digo.

Não penses que tens apaixonados, para não te envaideceres. A susceptibilidade da traição começa por se desenvolver no dia em que a mulher se pensa desejada. E então... O desejo baralha-se com o pudor e geralmente o segundo é vencido. Apaga, pois, do cérebro, todos os vestígios desta carta, e rasgando-a mentalmente, atira-a ao vento. Passados alguns dias será folha morta.
Não quero que te venhas entregar, nem foi esse o meu intento. Nunca desejaria ver-te apontada como adúltera, se o teu marido mereceu essa união que tanto desejei. Afasta de ti esta confissão. Arremessa-a para o monturo das perversidades, embora eu sofra.

Sê tu feliz, isso me bastará para eu viver.
Não posso mais. Estou exausto. A pena tem corrido esfalfada e recusa-se a escrever o que lhe dito. Do cérebro irrompem palavras que não te devo dizer. Toda a minha alma se enche da lava incandescente e rubra, que me sai do cérebro. Este facho imenso de fogo, vai tragar me o espírito e talvez o corpo.

Não me quero consumir mais. Dentro de alguns dias vou recomeçar esta carta, para te dizer tudo o que sinto, tudo, absolutamente tudo, para que esta confissão, embora tardia, me livre do peso enorme que tenho na alma e com o qual não poderei sofrer.

Vi hoje o teu esposo. Achei lhe graça. Embora não quisesse, tive de rir. Ri abertamente.

E pergunto-te: O meu rival é aquela massa humana, disforme e repugnante, que ouvi falar em operações de Bolsa, de olhos cubiçosos e avaros, parecendo querer açambarcar o mundo?...
O teu marido é aquela figura de barraca de fenômenos, que se bamboleia como os aleijados das feiras, mostrando o dinheiro, como os outros mostram os aleijões?...

Pobre de ti. Nos esgares das minhas gargalhadas, foi todo o amor que te tinha. Não quero por rival um homem que as bacantes repelem fisicamente, Bacantes!... E que és tu? Uma mulher que se vende. O preço varia de mulher para mulher.

Tu entregas-te por todo o ouro dum opulento, por toda uma fortuna amassada com sangue e lágrimas dos infelizes que trabalham.

As perdidas vendem-se por algumas moedas que lhe dão pela troca, entre vielas sujas em que a devassidão impera. Tu vendes-te na alta sociedade, entre sêdas e veludos, onde o champagne substitui o vinho e o casamento a prostituição.

Que diferença fazes da Rosa Engeitada. essa rapariga que se entregou ao primeiro que lhe apareceu, só porque o homem lhe comprou umas chinelinhas bordadas a cores, que há muito desejava?

Nenhuma!... Substituis a brandurra por um piano, como se a lama não fosse a mesma...

Não entras nas baiucas, mas frequentas assiduamente os chás-dancings o julgas que a podridão não é igual. Perdida!... Mercadoria vil... É esta a última confissão que te faço. Tudo o que por ti sentia, desapareceu.

Julguei que pairavas mais alto, na região dos sonhos e vejo te tombar na arena do circo, como todas as outras.
Que o teu papel de malabarista de corações, não te traga mais dissabores. Continua recebendo aplausos da multidão e divide-os pelo fenómeno. Mostra-nos essa figura que te ridicularizou, comprando-te, enquanto eu, como o palhaço, enterrarei o coração no meio da arena, rindo, rindo, sempre.

𝐴𝑙𝑣𝑒𝑠 𝑅𝑒𝑑𝑜𝑙
14 𝑑𝑒 𝐹𝑒𝑣𝑒𝑟𝑒𝑖𝑟𝑜 𝑑𝑒 1930

𝐀 𝐭𝐫𝐚𝐠𝐞́𝐝𝐢𝐚 𝐝𝐞 𝐮𝐦𝐚 𝐠𝐚𝐭𝐚 𝐛𝐫𝐚𝐧𝐜𝐚 Nas casas onde os ratos assentam arraiais não permitindo que nada escape à sua voracidade...
26/01/2025

𝐀 𝐭𝐫𝐚𝐠𝐞́𝐝𝐢𝐚 𝐝𝐞 𝐮𝐦𝐚 𝐠𝐚𝐭𝐚 𝐛𝐫𝐚𝐧𝐜𝐚
Nas casas onde os ratos assentam arraiais não permitindo que nada escape à sua voracidade de roedores, os gatos são ainda uns dos mais profícuos meios de destruição. Por isso, o 𝑇𝑎𝑟𝑒𝑐𝑜 e a 𝐶𝑎𝑚𝑒́𝑙𝑖𝑎 eram tratados com toda a solicitude a que teem direito aqueles sêres que nos prestam serviços importantes.

Brancos, duma alvura de arminho, sempre gordos e asseados, causavam inveja aos gatos da vizinhança. O extermínio da rataria foi completa e o 𝑇𝑎𝑟𝑒𝑐𝑜 não tendo mais nada a que dar caça decidiu entreter-se a pescar todos os peixes que eu periodicamente lançava para um aquario.

Um dia, a vítima foi um peixe rubro, sanguineo, que enchia de refulgencias vermelhas a água do aquário como uma mulher bonita enche de beleza qualquer lugar em que se encontre.

Não me pude conter e a eloquência duma chibata meteu o 𝑇𝑎𝑟𝑒𝑐𝑜 na ordem. Aproveitou bem a lição; tornou-se um gato serio, incapaz de fazer uma partida menos agradavel. Chegou o mês de Janeiro e o 𝑇𝑎𝑟𝑒𝑐𝑜, ao contrário dos outros gatos, não foi correr sobre os telhados, nem fazer serenatas ao luar.

Era um gato reflectido, coubera-lhe a infelicidade de pensar, de ter juizo. A 𝐶𝑎𝑚𝑒́𝑙𝑖𝑎 não, era uma gatinha adoravelmente irrequieta, ladina. Queria que o 𝑇𝑎𝑟𝑒𝑐𝑜 andasse constantemente brincando com ela, que lhe fizesse multas caricias. Porém aquele esplêndido marido não sabia ser amante; amava com altivez, intimamente, desdenhando às exteriorizações ridículas, cinicamente apalhaçadas.

Só exteriorizam muito os que sentem pouco. Para que tomar atitudes dum convencionalismo grotesco se ele a amava tanto! pensava aquele gato austero como se as gatas tivessem obrigação de ser inteligentes.

Apareceu por ali a fazer a corte à 𝐶𝑎𝑚𝑒́𝑙𝑖𝑎, um gato negro como azeviche, fidalgo, favorito do abastado senhor dum solar das proximidades. Era um gato néscio mas com ademanes de conquistador e ligado a gente rica, é claro que a 𝐶𝑎𝑚𝑒́𝑙𝑖𝑎 gostou dele.

O 𝑇𝑎𝑟𝑒𝑐𝑜 perfeito modelo de lealdade só suspeitou da traição quando, uma manhã, a imprudente esposa se recusou a aceitar-lhe uma pobre cabeça de carapau para ir banquetear-se com um pedaço de bife que o gato preto talvez fosse o diabo disfarçado!-- segurava entre os dentes.

Ante o olhar atónito do marido atraiçoado, o gato negro encrespou-se, arqueou o lombo e passou a sua cauda sedosa, voluptuosamente acariciante, pelo focinhito rosado da 𝐶𝑎𝑚𝑒́𝑙𝑖𝑎. Como resistir àquele contacto tão terno, tão apaixonado?! E a 𝐶𝑎𝑚𝑒́𝑙𝑖𝑎 não resistiu...

No cérebro do 𝑇𝑎𝑟𝑒𝑐𝑜, marulharam ondas de vingança, vagas frementes de ódio; precipitou-se sobre os canalhas, porém eles eram mais ágeis, fugiram, saltaram lépidos uma fresta da casa do fidalgo, pondo-se ao abrigo da justa côlera do esposo infamado.

Não desistiu; tambem ele quis trepar aquela fresta, desforrar-se da sua ignominia arrancando a vida to infame seductor. la talvez realisar o seu odiento desejo, quando sentiu já perto, dirigindo-se para ele, dois enormes cães.

Não fugiu; as ‘pessôas’ de bem não fogem, preferem afogar-se em sangue a que as atinja o mais pequeno salpico de lama. Lutou ferozmente, com a energia formidavel dos que querem a todo o transe vencer; no entanto a luta era desigual e, momentos depois, tornado um farrapo branco ensanguentado, era apenas uma massa inerme, horrendamente esfacelada, nas bocarras hiantes dos molossos.

Passaram-se semanas e a 𝐶𝑎𝑚𝑒́𝑙𝑖𝑎 não mais voltou ao lar donde tão criminosamente desertára. Uma noite, ouvi uns gemidos lancinantes, duma tortura quasi humana. A claridade argentea do luar a 𝐶𝑎𝑚𝑒́𝑙𝑖𝑎 corria alucinada em torno do palacio do seu amante.

Compreendi tudo; haviam-na escorraçado apoz terem morto os seus filhitos, brancos uns, negros outros. Momentos depois apareceu através das grades da fresta a cabeça hediondamente antipática do gato-conquistador. Miou e o seu miar sarcastico parecia dizer á infeliz: "Nesta casa não ha lugar para a desonestidade; contenta-te com a rua."

O marôto decerto se esquecia de que estava lá dentro. Dai por diante eu ouvi todas as noites a 𝐶𝑎𝑚𝑒́𝑙𝑖𝑎 soluçar, desoladamente a sua cruciante tragédia. Pobre 𝐶𝑎𝑚𝑒́𝑙𝑖𝑎! Sem marido, sem filhos, sem amante!

Minhas senhoras... a tragédia daquela gata branca., é a tragédia de todas as mulheres frívolas que teem a desgraça de desposar um homem inteligente mas incapaz de compreender certas exigências femininas.

Cascata, 23-6-1926
Vida Ribatejana nº212

𝐌𝐮𝐬𝐞𝐮 𝐍𝐚𝐜𝐢𝐨𝐧𝐚𝐥 𝐝𝐞 𝐀𝐫𝐪𝐮𝐞𝐨𝐥𝐨𝐠𝐢𝐚: 𝐎 𝐒𝐚𝐫𝐜𝐨́𝐟𝐚𝐠𝐨 𝐝𝐚𝐬 𝐕𝐢𝐧𝐝𝐢𝐦𝐚𝐬O sarcófago das vindimas foi descoberto por Mesquita de Figueire...
25/01/2025

𝐌𝐮𝐬𝐞𝐮 𝐍𝐚𝐜𝐢𝐨𝐧𝐚𝐥 𝐝𝐞 𝐀𝐫𝐪𝐮𝐞𝐨𝐥𝐨𝐠𝐢𝐚: 𝐎 𝐒𝐚𝐫𝐜𝐨́𝐟𝐚𝐠𝐨 𝐝𝐚𝐬 𝐕𝐢𝐧𝐝𝐢𝐦𝐚𝐬
O sarcófago das vindimas foi descoberto por Mesquita de Figueiredo, no dia 10 de Junho de 1944, na varanda de uma casa particular na Rua Serpa Pinto, em Vila Franca de Xira, onde servia como tanque de amanhar peixe. Foi adquirido por Manuel Heleno, em 1945, para integrar a coleção de escultura clássica.

Pensa-se que esta peça funerária esteve guardada durante séculos num convento de Castanheira do Ribatejo – não se sabe se no Convento de Santo António ou no Convento de Nossa Senhora de Subserra -, onde servia como decoração, tendo passado mais tarde a ser posse de um particular de Vila Franca de Xira. Não se sabe em que circunstâncias o artefacto foi retirado deste local mas pensa-se ter sido no inicio do século XX.

É um sarcófago romano de pequeno tamanho uma vez que destinava-se a uma criança. Tem a forma geral de uma cuba de vinif**ação (lénos), mais largo na parte superior do que na base, as suas extremidades são arredondadas e apresenta-se sem tampa. No centro da composição encontra-se um clípeo (clypeus), com um rebordo inferior que dá a ideia de co**ha, que serve de moldura a um busto de uma jovem. O seu rosto está reapresentado de frente, em posição simétrica, as suas feições são adoçadas, e a íris e pupilas estão marcadas, o que lhe dá expressividade. A sua testa é larga, os lábios estão fechados e o cabelo, representado de forma esquemática, está puxado e apanhado para trás, caindo-lhe sobre a nuca, em tubos. Apresenta-se vestida com um “colobium”, uma túnica pregueada, sem mangas.

O “Sarcófago das Vindimas” apresenta características que são raras no Ocidente, e mais vulgares na Síria, de onde possivelmente proveio. Presume-se, portanto, que este sarcófago tenha sido elaborado em oficinas do oriente mediterrânico e que tenha sido importado com o medalhão por acabar, tendo sido apenas esculpido no final da viagem. Isto explica o porquê de o retrato apresentar-se esteticamente menos conseguido do que o restante conjunto escultórico que, por sua vez, apresenta uma dinâmica volumetria e um claro domínio das técnicas de polimento. Sendo assim, conclui-se que o busto da jovem não foi lavrado na oficina de origem e que foi apenas esculpido no local de destino, procurando corresponder às feições da jovem.

Segundo Justino Marciel, a possibilidade deste artefacto ter sido importado da Síria justif**a-se devido à tipologia decorativa (elementos decorativos sobrecarregadas de vegetação), à tipologia da lénos, e ao enquadramento da decoração arquitectónica.1 Contudo, no catálogo da Exposição Religiões da Lusitânia, o arqueólogo José Cardim Ribeiro afirma que esta peça, tradicionalmente considerada uma produção escultórica do oriente mediterrânico, tenha sido concebida numa oficina de Roma, com o retrato ainda por esculpir, destinada assim a entrar no mercado livre.

𝐎 𝐜𝐨𝐢𝐨 Ha ali para os lados da rua Serpa Pinto um antro disfarçado de tabernas ou casa d'hospedes que ha muito tempo est...
24/01/2025

𝐎 𝐜𝐨𝐢𝐨
Ha ali para os lados da rua Serpa Pinto um antro disfarçado de tabernas ou casa d'hospedes que ha muito tempo está a pedir a atenção das auctoridades.

Em pleno coração de Vila Franca não se deve admitir a vergonha desse antro abjecto, onde se praticam infamias e onde mulheres perdidas, nojentas e desavergonhadas fazem estação...

Julgamos não ser preciso dizer mais para que a digna auctoridade administrativa nos comprehenda.

O coio deve desaparecer d'ali. As desordens lá sucedem-se. Ele representa uma vergonha para todos que amam a nossa terra.

E depois de ter d'ali desaparecido o coio não se esqueça também a digna auctoridade de mandar desinfectar a casa, porque a imundicie por lá deve ser de arripiar cabelos…

𝑽𝒊𝒅𝒂 𝑹𝒊𝒃𝒂𝒕𝒆𝒋𝒂𝒏𝒂 𝒏º304, 𝒑𝒂́𝒈𝒊𝒏𝒂𝒔 3, 𝑫𝒐𝒎𝒊𝒏𝒈𝒐, 29 𝒅𝒆 𝑱𝒖𝒍𝒉𝒐 𝒅𝒆 1928
𝑐𝑜𝑖𝑜 1 𝐴𝑑𝑗. || (𝐺𝑎𝑖𝑎) 𝑟𝑒𝑙𝑒𝑠, 𝑜𝑟𝑑𝑖𝑛𝑎́𝑟𝑖𝑜, 𝑞𝑢𝑒 𝑛𝑎̃𝑜 𝑝𝑟𝑒𝑠𝑡𝑎.
𝑐𝑜𝑖𝑜 2 𝑠. 𝑚. || (𝑇𝑟𝑎́𝑠-𝑀.) 𝑐𝑎𝑙ℎ𝑎𝑢, 𝑝𝑒𝑑𝑟𝑎, 𝑠𝑒𝑖𝑥𝑜 𝑟𝑜𝑙𝑎𝑑𝑜.

Que casa seria esta? E qual a história da peça em questão?
14/01/2025

Que casa seria esta? E qual a história da peça em questão?

MNA: 130 ANOS EM VIAGEM [1945]
O sarcófago das vindimas foi descoberto por Mesquita de Figueiredo, no dia 10 de Junho de 1944, na varanda de uma casa particular na Rua Serpa Pinto, em Vila Franca de Xira, onde servia como tanque de amanhar peixe.
Foi adquirido por Manuel Heleno, em 1945, para integrar a coleção de escultura clássica.

[MNA 21523]

A viagem continua aqui:
https://www.museunacionalarqueologia.gov.pt/?p=12174

Endereço

Vila Franca De Xira

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