14/07/2026
🌳A primeira edição da Rota das Quintas começou cedo — mais cedo do que o previsto. A concentração estava marcada para as 9h na Casa do Povo de Campelos, mas a vaga de calor decidiu meter‑se na organização e obrigou a antecipar tudo em uma hora. Às 8h estávamos a começar, cerca de cinco dezenas de caminheir@s, ainda com aquela frescura da manhã que dura pouco, mas com vontade de caminhar. O percurso começou ali mesmo, em alcatrão, na Casa do Povo.
Passo a passo, fomos avançando pelas primeiras ruas, encontrando de tudo: casas, muros, sombras, pedaços de sol, flores que pareciam acenar à nossa passagem — um cenário simples, mas vivo, como são sempre as manhãs de caminhada. Seguimos até à Junta, onde a feira ainda estava na fase de montagem: bancas a serem alinhadas, gente a chegar, movimento a crescer devagar. E, já depois de passarmos por ali, cruzámo‑nos com dois gatos iguais, preguiçosos, deitados num muro, indiferentes ao calor e ao movimento — aqueles observadores silenciosos que parecem sempre saber mais do que mostram. Registei esse momento não porque fosse parte da caminhada, mas porque fazia parte da manhã, daquele retrato que nos acompanhou antes de entrarmos totalmente no ritmo do percurso.
A caminhada tinha um propósito bonito: angariar fundos para a Banda de Música de Campelos. Não havia instrumentos a afinar — havia comunidade, passos sincronizados e aquela energia boa de quem caminha por uma causa. E assim seguimos, deixando a Junta para trás e avançando pelo percurso circular que nos levaria de volta à Casa do Povo, mas nunca com a mesma versão de nós.
A primeira paragem chegou aos dois quilómetros, no Moinho de Campelos — o Moinho do Tio Pedro. Havia água, sumo e bolinhos secos, as famosas ferraduras, que sabem sempre bem quando o corpo já começa a aquecer. Visitámos o moinho, entrámos, vimos engrenagens antigas e sentimos aquele encanto simples dos lugares que guardam tempo dentro deles.
Seguimos por terra batida e, mais à frente, por gravinha. Depois, o trilho abriu‑se para terrenos agrícolas: canas, eucaliptos, sobreiros, folhas secas no chão — o crac‑crac das passadas a marcar o ritmo, conversas cruzadas a preencher o ar e pinheiros a desenhar sombra como quem nos protege discretamente.
Ao passarmos pela Quinta das Albergarias, três cães receberam‑nos com entusiasmo. Um deles decidiu que também era caminheiro e acompanhou‑nos durante grande parte do percurso. Só mais tarde, já a custo — porque ele não queria, resistiu, protestou — o meteram na carrinha de apoio para o levar de volta a casa. A caminhada tem sempre estas personagens secundárias que roubam a cena.
A percurso seguiu por vinhas e pomares, e aos seis quilómetros chegou o segundo abastecimento: fruta, pão com chouriço, água, sumo e bolinhos secos. O ponto estava à sombra, um alívio breve mas muito bem‑vindo. Foi ali que tirámos a foto de grupo, uma mancha de t-shirts brancas reunidas à sombra, naquele momento de pausa que sabe sempre bem antes de voltarmos ao alcatrão. Uma brisa passageira fez‑nos acreditar que o calor ia abrandar, mas foi só ilusão. Pelos dez quilómetros aqueceu à séria, daqueles calores que fazem o corpo pensar “quem me mandou vir”.
O trilho começou a ganhar profundidade: peras penduradas sobre o caminho, o verde denso das árvores, o grupo a avançar em fila, o contraste entre sombra e sol, e aquele campo enorme de cultivo que parecia não ter fim. Plumas, ervas altas, linhas de plantação, horizonte largo — a paisagem a respirar como se também estivesse a caminhar connosco.
O Rio Grande ainda nos acompanhou por instantes.
Passámos pelo Casal Moinho, por plantações de abóboras umas atrás das outras. Vimos um cavalo a observar‑nos como quem avalia o nosso esforço. E quase aos onze quilómetros, o terceiro abastecimento — a última trégua antes do trecho mais duro que nos esperava.
Mais à frente, chegou a subida desafiante — não daquelas de tirar o fôlego, mas suficiente para lembrar que o corpo ainda tinha trabalho a fazer. Seguiu-se o almoço: as pessoas agarravam num tabuleiro, recebiam a sopa e o resto da refeição, e seguiam para as mesas compridas. Sopa da pedra, grelhada mista, bebidas para todos os gostos, café e várias sobremesas — parecia festa: gelatina, pudim caseiro, gelado e arroz doce. As mesas compridas encheram‑se de gente, de conversa e de sorrisos. Depois do calor, da terra batida, das subidas e dos abastecimentos, veio a recompensa — comer e descansar.
No total, treze quilómetros — aqueles dez quilómetros previstos, mas com IVA incluído.
Treze quilómetros de calor, terra, sombra, conversa, cães, gatos, flores, fruta, paisagem, reforços e aquela sensação boa de missão cumprida.
A primeira Rota das Quintas ficou feita — e bem feita.
Isabel Gageiro 🥾
**Álbum**: 1a Caminhada Rota das Quintas
**Data**: 05 de Julho de 2026