Click by Isabel Gageiro

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🌿A caminhada que pareceu acordar devagarHá caminhadas que começam com pressa.  E há outras que começam assim — a caminha...
20/05/2026

🌿A caminhada que pareceu acordar devagar

Há caminhadas que começam com pressa.
E há outras que começam assim — a caminhada que pareceu acordar devagar, envolta numa névoa teimosa e num silêncio de domingo que ainda não decidiu se quer ser dia.

Partimos às 9h45, dois caminheiros, com as pernas ainda a tentar lembrar-se do que era andar.
O Parque Olímpio Duarte Alves foi o ponto de partida e de chegada — uma espécie de abraço circular que nos recebeu antes e depois.

O tempo estava nublado, 15°, aquela temperatura que não incomoda mas também não entusiasma.
Mas pelas 11h, a névoa levantou-se como uma cortina de teatro, e o dia aqueceu só o suficiente para nos lembrar que a primavera ainda estava por perto.

O percurso levou-nos por entre a malha urbana e a rural — uma mistura curiosa de casas, campos, hortas, caminhos e memórias.
Pelo caminho cruzámo-nos com outra caminhada que estava a acontecer na localidade.
Sorrisos, “bom dia”, passos cruzados.
Aquela comunhão bonita de quem anda porque sim.

Da ponte de ferro sobre o rio Liz até às termas, o percurso tornou-se… digamos… monótono.
Muitas canas.
Muitas.
Mesmo muitas.
O tipo de muitas que nos faz pensar que as canas têm um plano secreto para dominar o mundo.

O som das rãs e dos pássaros acompanhou-nos como banda sonora improvisada.
As moscas e os mosquitos também — esses com entusiasmo a mais.
De quando em vez, a brisa trazia um cheiro menos simpático, daqueles que nos fazem acelerar o passo sem discutir.

Ao longe, ouviram-se foguetes — porque em Portugal há sempre uma festa algures, mesmo quando não sabemos onde.
E ao longo do caminho, descobrimos condomínios inteiros de caracolitos, tão organizados que quase mereciam código postal.

Passaram por nós alguns ciclistas em sentido contrário, rápidos e silenciosos, como se fossem personagens secundárias num filme que não é deles.

Entre as papoilas, os fetos e as muitas árvores arrancadas pelas intempéries, o caminho foi-se desenrolando até completar os 8,5 km.
O suficiente para esticar as pernas, limpar a cabeça e — como eu costumo dizer — não ganhar ferrugem nas dobradiças.

No fim, ficou aquela sensação boa de missão cumprida.
Nada épico, nada dramático — apenas um pedaço de manhã vivido com calma, humor e passos.

E às vezes, é isso que basta.

Isabel Gageiro🥾

**Àlbum**: PR2 LRA - Termas D'el Rei
**Data**: 26 de Abril de 2026

🌙Entre Céus, Mares e Cidades: a viagem que me encheu o peitoAntes de entrar no avião, senti uma paz inesperada pousar em...
12/05/2026

🌙Entre Céus, Mares e Cidades: a viagem que me encheu o peito

Antes de entrar no avião, senti uma paz inesperada pousar em mim. Não era euforia, não era nervosismo — era só aquela serenidade boa que aparece quando o corpo sabe que está exatamente onde devia estar. Ia curiosa, leve, aberta ao que viesse. E logo ali, ainda no chão, o primeiro sorriso: o comandante tinha uma voz tão sexy que parecia saída de um anúncio de perfume. Pensei: “Se o voo for tão agradável quanto esta voz, estou feita.”

Depois, já no ar, a verdade é que a viagem foi… uma seca. O céu estava bonito, mas a monotonia também tem o seu talento. Até que adormeci e acordei com uma turbulência tão breve que, por um instante, juro que pensei estar num autocarro a passar numa lomba. Ri-me sozinha. E percebi ali que afinal voar não custa nada. Que venham muitas mais — para recuperar o tempo perdido.

Quando os meus pés voltaram a tocar terra, senti que a viagem ainda nem tinha começado. Havia qualquer coisa no ar — talvez expectativa, talvez liberdade — que me empurrava para o próximo capítulo. E foi então que o navio se apresentou, não com grandiosidade, mas com familiaridade. Era mais pequeno que o anterior, mas tão semelhante que parecia reencontro. Nada me impressionou… e, curiosamente, isso trouxe-me conforto.

A felicidade veio de mansinho, sem espetáculo. Criei um ritual: todos os dias, às 19h, sentava-me na sala de espetáculos para ver o show da noite. Era o meu momento de pausa, de brilho, de deixar o corpo quieto e a alma dançar. E depois havia as partidas dos portos — sempre mágicas, sempre com aquele arrepio de “lá vamos nós outra vez”.

Nos primeiros dias, o navio brincou comigo. Eu queria ir para um lado e acabava no oposto, como se estivesse num labirinto flutuante. Mas o que ficou mesmo na pele foram as aulas de dança. O corpo a mexer, a música a entrar, a alma a abrir espaço. Ali senti-me viva, presente, inteira.

E então vieram as cidades, abrindo-se diante de mim como páginas iluminadas de um livro que eu sempre quis ler.
Foram quilómetros e quilómetros percorridos a pé, roteiro na mão, trabalho de casa feito. E valeu cada passo.

Dubrovnik, a pérola do Adriático, recebeu-me com ruas estreitinhas, escadarias altas e pedras clarinhas com ar de lavado. Sorri com um rooftop que usava cestas de v***a para subir e descer iguarias — parecia cena de filme. E encantei-me com as escadarias íngremes que revelavam, lá do alto, corredores de pedra, plantas verdes e telhados quentes. Um postal vivo.

Corfu, a grande senhora do Jónico, multicultural, histórica, verde. Perdi-me nas ruas e ruelas cheias de lojas — como eu gosto. E ao olhar o mar, pensei: “Que cores terás tu quando o sol te visita?”

Kotor, a cidade dos gatos, onde estes patudinhos são reis e senhores. Registei um postal perfeito: um gatinho tartaruga a alagartar no topo da muralha, com o cruzeiro ao fundo. A cidade medieval, encaixada entre montanhas e águas calmas, é um labirinto encantado. A subida de 1300 e tal degraus até San Giovanni foi desafiante, mas a vista… deslumbrante. A descida, embalada, foi leveza pura. Quase poesia.

Brindisi recebeu-me com vento frio e sacos de lixo à porta — não me encantou. Mas guardo com ternura o gato preto e branco do posto de turismo, pachorrento, dono do lugar. Derreteu-me o coração. Nem tudo é monumento; às vezes é só um gato.

Split vibra. Respira mar, história e energia. A cidade habitada dentro do palácio fascinou-me. Cada canto transformado em cafés, wine bars, lojas. E eu, curiosa, a explorar pátios como quem procura pequenos tesouros escondidos.

Veneza… ah, Veneza. Única, romântica, misteriosa. Rica, bela, cheia de vida. Alguns canais deixaram as minhas narinas mal-humoradas, mas nada que estragasse o encanto. Fiquei em choque com a quantidade de gente — parecia que o mundo inteiro tinha decidido visitar Veneza naquele dia. E ainda houve tempo para conversa com o vendedor do quiosque, que ao saber que éramos de Portugal, sorriu e disse: “Cristiano Ronaldo!” Fã assumido.
Quero voltar. Ficou tanto por ver, fotografar e sentir.

E depois de tantos céus, tantos mares, tantas ruas diferentes, percebi algo simples e bonito:
a vida é para ser vivida ao máximo, apreciada e experienciada.

Esta viagem mudou em mim a vontade de viajar.
Trouxe-me cansaço físico, sim — mas trouxe-me também o coração cheio.
Absorvi tudo o que consegui.
E hoje digo, com verdade:

Feliz e grata. Sempre.

Isabel Gageiro 🥾

**Àlbum** : Entre Céus e Mares
**Data** : De 12 a 19 de Abril de 2026

🌿 Entre o Vento, a Lama e o Mar — MagoitoO dia começou frio, cinzento e ventoso — daqueles que fazem o nariz pingar e o ...
07/05/2026

🌿 Entre o Vento, a Lama e o Mar — Magoito

O dia começou frio, cinzento e ventoso — daqueles que fazem o nariz pingar e o pensamento resmungar. Éramos dez caminheiros e uma cãominheira, todos a tentar convencer o corpo de que isto era uma boa ideia. Às 9h, na Praia do Magoito, iniciámos o percurso circular, descendo pelos passadiços que nos entregaram a um trilho de areia. O meu primeiro comentário saiu sem filtro: “Alguém que feche a porta, por favor.” O vento estava com ideias próprias.

Entre chorões, canas, pinhas e caruma espalhadas pelo chão, fomos avançando. Pinheiros, fetos, e logo ali ao lado, a Ribeira da Mata de Magoito a correr baixinho, como quem nos acompanha sem se meter na conversa. O som da água seguiu connosco durante um bom pedaço — uma companhia suave, quase maternal.

Entrámos num trilho em túnel, húmido e bonito, até chegarmos à queda de água do Magoito, ainda na primeira parte do percurso. A chuva miudinha apareceu como nuvem passageira, só para marcar presença. Uns metros de alcatrão devolveram-nos ao trilho, entre oliveiras e um cheirinho agradável que não consegui identif**ar — mas que ficou ali, guardado na memória.

A saga da lama continuava, firme e fiel. Mais à frente, a chuva engrossou, veio com vontade e trouxe vento à mistura. Outra nuvem mal‑disposta. Mas também trouxe beleza: orquídea piramidal, madressilva e terrenos agrícolas a perder de vista. Voltámos ao alcatrão, mais vento, mais chuviscos, alguns grossos. A manhã estava empenhada em testar-nos.

A meio da manhã fizemos uma pausa para reforço. O frio não largava — frio, frio e mais frio. Seguimos depois pelo Arco da Esperança, nome perfeito para quem já estava a precisar de um incentivo. Passámos pela Capela de S. Lourenço e seguimos rumo às Azenhas do Mar, onde o vento decidiu mostrar quem mandava. Houve um momento em que pensei que levantava voo — e não fui a única.

O trilho pelas falésias era fácil no mapa, mas desafiante na vida real. Eu queria avançar, o vento queria empurrar-me para trás. Uma dança teimosa, cada um a puxar para seu lado. Partes muito giras, outras nem tanto — como a vida. Grande parte do percurso já o tinha feito, mas nunca assim, nunca com este temperamento meteorológico.

Foram 14 km de luta, riso, vento, lama, beleza e persistência. No final, o piquenique no parque de merendas do Magoito soube a vitória — e a aconchego.

Um dia frio, cinzento e ventoso.
Mas daqueles que aquecem por dentro.

Isabel Gageiro 🥾

**Álbum** : Eu Vou....Magoito
**Data** : 11 de Abril de 2026

🌾Um Dia Inteiro Entre Levadas, História e DevoçãoO despertador tocou quando ainda era madrugada e o mundo estava a meio ...
04/05/2026

🌾Um Dia Inteiro Entre Levadas, História e Devoção

O despertador tocou quando ainda era madrugada e o mundo estava a meio caminho entre o silêncio e o primeiro café. Saímos de Arruda com o frio da manhã a acompanhar-nos, rumo à saída da A8 onde esperámos o autocarro para um dia que prometia ser longo — e bom. Fomos recolhendo caminheiros em várias paragens, enquanto o nevoeiro teimava em esconder o caminho. Mais tarde, o céu abriu-se num azul impecável, como se alguém tivesse mudado o cenário a meio. Entre conversas, leituras e pequenos sonos, a viagem fez-se tranquila, apesar das marcas ainda visíveis das intempéries na zona de Leiria. Pelo caminho, houve bolinhos ( Esses e Beijinhos) e uma paragem estratégica para café — miminhos que fazem sempre diferença.

Chegados ao Largo do Assento, em Jugueiros, iniciámos o percurso já a meio da manhã. Caminhada circular, 55 caminheiros, temperatura perfeita, céu azul e uma brisa simpática — tudo alinhado para um trilho bonito. Começámos por entre casas e paralelipípedos, que nos levaram ao estradão e depois às levadas. E ali começou o festival botânico: erva‑do‑fígado, botão‑de‑ouro, búgula, aguileña, fetos, eucaliptos, silvas, bétulas, choupo negro, urtiga, azedinha, vinhas e terrenos agrícolas. O cheirinho a eucalipto era constante, quase assinatura do percurso. As folhas secas faziam crac‑crac sob os pés, os passarinhos chilreavam num ondular perfeito e o rio Bugio corria alegre, cheio de histórias líquidas.

Passámos por quedas de água, pelas levadas de Jugueiros e de Lourido, pela queda natural das Barrias — um postal vivo. Um trilho essencialmente verde, onde se respira ar puro e a alma abre espaço. As glicínias estavam em plena floração, perfumadas e exageradas, como a primavera gosta de ser. Voltámos à estrada de paralelipípedos que nos levou à ponte medieval de Travassós e ao rio Ferro. Depois, novamente trilho, onde o Bugio se encontra com o Ferro, e nós seguimos pela margem, embalados pela água. Já com as barriguinhas a dar horas, fizemos o belo piquenique: mesas, muros, relva — cada um procurou o seu lugar à sombra.

A meio da tarde seguimos para o Mosteiro de Pombeiro. A visita foi guiada, uma verdadeira e maravilhosa aula de história — daquelas que dá gosto ouvir e nos fazem sentir pequenos e grandes ao mesmo tempo. Depois rumámos a Braga, onde tivemos algum tempo livre para passear antes da Procissão do Enterro do Senhor. Quando a noite caiu e a procissão saiu da Sé, a cidade encheu-se de silêncio, respeito e tradição. Uma multidão inteira a viver o mesmo momento — e nós ali, parte dele.

Já noite dentro, regressámos ao autocarro. A viagem de volta fez-se a dormir, como manda a lei dos dias longos e bem vividos. Chegámos a Arruda já depois da meia-noite, cansados, sim — mas com o coração cheio e a alma ainda a caminhar.

Isabel Gageiro 🥾

**Álbum** : Levadas dos Jugueiros e Braga
**Data** : 03 de Abril de 2026

🌿 PR8 ACB – Rota da Água da Benedita+ PR9 ACB - CLD – Rota da Biodiversidade - BeneditaNo passado dia 29 de Março, saí p...
09/04/2026

🌿 PR8 ACB – Rota da Água da Benedita

+ PR9 ACB - CLD – Rota da Biodiversidade - Benedita

No passado dia 29 de Março, saí para caminhar com aquela vontade de respirar fundo e abrandar o mundo.
Precisava de verde, de água, de silêncio — e de me alinhar por dentro.

Partimos da Praça Dr. José Damasceno Campos, com céu azul, fresco matinal e dezassete caminheiros ainda a meio caminho entre o sono e a aventura.
Antes de arrancar, claro, houve café.
Ainda vinha meio ensonada, mas com aquela curiosidade boa de quem não sabe o que o trilho lhe vai oferecer.

Iniciámos às 9h50 e, para variar, começámos a descer.
Uau.
Um luxo.
Uns metros de alcatrão levaram-nos ao trilho, onde a gravilha começou a contar a história do dia.

O percurso foi um misto do PR8 e do PR9 — dois capítulos diferentes da mesma paisagem.
E a verdade é que o trilho é muito bonito, cheio de vida, de água, de sombra e de detalhes que merecem ser vistos devagar.
Mas também é verdade que podia estar mais bem cuidado.
Há zonas fechadas, trechos esquecidos e pequenos sinais de abandono que contrastam com a beleza natural.
Uma pena — porque o potencial é enorme.

O caminho abriu-se com eucaliptos, salgueiros, canas, salsaparrilha e o som da água a correr — música natural que nos acompanhou durante boa parte do percurso.
A Ribeira da Senhora corria ao nosso lado como quem nos contava uma história antiga — daquelas que só se ouvem quando se caminha devagar.

A biodiversidade fez questão de marcar presença:
urzes vigilantes, tojo armado em guarda-costas, amora-preta ainda tímida, vegetação rasteira, pinheiros, sobreiros, erva‑doce, oliveiras, marmeleiros em flor, cardo‑leiteiro, cidreira e a elegante árvore‑da‑seda‑persa.
E, como cereja botânica no topo do bolo, as prímulas — também chamadas primaveras ou flores da Páscoa — a lembrar-nos que a estação não sabe ser discreta.

A veigela, com as suas flores em forma de trompete, prometeu espetáculo para daqui a umas semanas.

E claro, lama.
Porque trilho sem lama é como bolo sem açúcar: possível, mas sem graça.

As silvas estavam inspiradas. Hoje queriam mesmo participar.
E conseguiram.
O trilho era estreito e, num daqueles segundos em que o pé falha, uma caminheira escorregou para baixo, para uma zona onde não havia nada — só silvas, uma espécie de ribanceira verde e espinhosa.
Foram segundos rápidos, mas daqueles que esticam o coração.
E depois, as mãos estendidas, o cuidado, o “estás bem?”.
O grupo a funcionar como grupo.
Felizmente, sem consequências de maior.

Houve partes do trilho mais fechadas, outras mais abertas, sempre com aquele cheirinho a eucalipto que parece limpar a alma.
E assim, entre conversas, risos e natureza em modo generoso, completámos oito quilómetros.

Depois da caminhada, demos uma voltinha pelo Mercado de Santana.
Eu ainda tentei gastar uns euritos — esforço não me faltou — mas nada me piscou o olho.
Seguimos depois para o almoço na Churrasqueira Lana.
Tivemos de esperar — o restaurante estava cheio e não havia mãos a medir — mas a espera fez-se bem, entre conversas, gargalhadas e aquela sensação boa de missão cumprida.

Eu deliciei-me com a minha sobremesa (uma autêntica bomba calórica) e com as histórias que vinham daqui e dali.
Adoro ouvir histórias.
É nelas que a caminhada continua.

Voltei para casa com terra nos sapatos, histórias no bolso e aquela leveza que só a natureza sabe oferecer.

Isabel Gageiro🥾

**Àlbum**: Bora lá... Benedita
**Data**: 29 de Março de 2026

🌿 PR5 – Rota de Santa QuitériaHá caminhadas que começam com um céu azul tão limpo que até parece que alguém o passou a f...
06/04/2026

🌿 PR5 – Rota de Santa Quitéria

Há caminhadas que começam com um céu
azul tão limpo que até parece que alguém o passou a ferro.
E esta começou assim: azul, ventinho simpático
e a Basílica de Santa Quitéria de Meca a servir
de ponto de partida e de chegada, imponente e tranquila.

Éramos onze caminheiros e uma cãominheira — a Bela, especialista em poças de água e em espalhar alegria.
Iniciámos às 9h30, com aquele entusiasmo misturado com preguiça que só as manhãs de caminhada conhecem.

A primavera estava em modo exibicionista:
marmeleiros em flor, azedas amarelinhas, oliveiras antigas, erva‑doce a perfumar o ar, carvalhos de Monchique a vigiar o caminho e passarinhos a chilrear como se tivessem ensaiado um concerto só para nós.
É oficial: a primavera não sabe ser discreta.

E depois… começámos a subir.
Socorro.
Já não tenho idade para estas coisas — pensei eu — mas lá fui, com dignidade duvidosa e teimosia impecável.

Entre terrenos agrícolas, lama (não havia necessidade…), vinhas, sobreiros e mais carvalhos, fomos avançando por caminhos rurais onde o verde, o castanho, o amarelo e o azul do céu pintavam o percurso.

As plantas silvestres estavam no seu auge:
– erva‑do‑gato (ou “salta‑para‑o‑caminho”, que é um nome muito mais honesto)
– orquídeas selvagens, as famosas “homem‑nu”, isoladas ou em condomínio
– saganho‑mouro (esteva branca)
– dente‑de‑leão
– valeriana
– e, mais à frente, a elegante orquídea moscardo fusco — a lembrar que a primavera gosta de surpresas.

A água corria pela vala de Ossa, a cantar alegremente no seu leito — e nós ali, a ouvi-la como quem escuta uma história antiga.

Passámos por Meca, Catém, Casal da Raposa, Bogarréus e chegámos ao Cabeço do Catém, o ponto mais elevado do percurso.

Às 11h30 foi banana time — ritual sagrado.
E ao meio‑dia, um pouco mais à frente, fizemos uma pequena pausa na Quinta de Vale Mourisco para uma prova de vinhos.
Só uma prova, claro… que a caminhada ainda não tinha terminado.

Depois seguimos caminho, embalados pelo néctar dos deuses e pelo cheirinho a eucalipto, por São Brás, Canados, Casal Monteiro e por uma explosão de glicínias em flor — cachos lilases pendentes, perfumados, a lembrar que a primavera gosta de exagerar quando quer.

Terminados os 13 km, regressámos à quinta para o nosso piquenique, já com o corpo cansado e a alma satisfeita.
Nada como comer com a sensação de missão cumprida e um percurso de vistas desafogadas na memória.

Foi uma caminhada cheia de cor, botânica, conversas, sorrisos, Bela nas poças e aquela sensação boa de que o corpo cansa mas a alma expande.

Isabel Gageiro 🥾

**Álbum**: Eu Vou...Meca
**Data**: 28 de Março de 2026


🌿 PR8 – Rota dos Envendos: Entre Subidas, Silvas e Invenções pelo CaminhoIniciámos às 9h15, na Praça da República, em En...
04/04/2026

🌿 PR8 – Rota dos Envendos: Entre Subidas, Silvas e Invenções pelo Caminho

Iniciámos às 9h15, na Praça da República, em Envendos. Dez caminheiros, cada um com o seu humor matinal, e eu… eu comecei apreensiva. Tinha dormido pouco, estava cansada, constipada, indisposta e com aquela sensação de que o corpo ia demorar a arrancar. Mas lá fomos.

A chuva miudinha recebeu-nos logo à partida, acompanhada de um céu nublado que parecia ainda a decidir se queria colaborar. O chão brilhava com as gotículas persistentes, o terreno estava fofo da água, e as folhas reluziam como se tivessem sido polidas durante a noite. A natureza tem destas vaidades.

Quase no início, uma subida longa e íngreme — daquelas que fazem o coração lembrar-nos que existe. Entre fetos verdes e secos, pinheiros e eucaliptos, lá fomos avançando, cada um ao seu ritmo, com a respiração a tentar acompanhar o desnível. Eu, com a constipação, sentia o ar a entrar a meio-gás. Mas continuei.

A rota era circular, mas a verdade é que, pelo caminho, houve muita invenção. Passámos pelo miradouro da Serra de Aivados e por uma magnif**a vista sobre a barragem e a albufeira de Pracana, no rio Ocreza. A paisagem era um misto de cinza, castanho, verde, amarelo e roxo — uma paleta inesperada, quase dramática, mas deslumbrante.

Os primeiros 7 km foram desafiantes: subida atrás de subida, vegetação densa, pedras e rochas escorregadias. Pelo meio, encontrámos pútegas — que os javalis adoram — e haquea picante, uma planta invasora que não tem vergonha de se espalhar. Também vimos carqueja, zimbro e aderno de folhas estreitas, ou lentisco bastardo, que tem nome de personagem de romance antigo.

Às 11h30 fizemos o reforço alimentar. Nada como uma pausa para lembrar que o corpo também precisa de mimo. Depois do miradouro, ainda houve mais uns quilómetros de “invenção”: desbravar caminho, abrir passagem, sempre de olhos bem abertos. Não foi suficiente para evitar algumas quedas — nada de grave, só o orgulho ligeiramente arranhado.

Havia lama, gravinha, silvas… tudo aquilo que faz parte de uma boa caminhada. No total, 16,5 km. E, apesar do esforço, a paisagem compensava tudo: cores vivas, contrastes fortes, aquela beleza bruta que só se revela a quem insiste em avançar.

O piquenique partilhado soube a recompensa. No final, já com dor nas plantas dos pés, comi uma laranjinha colhida no momento — fresquinha, docinha, perfeita. Soube que nem ginjas. E ainda houve bolo de aniversário, surpresa para o guia, que tinha feito anos dois dias antes. Pequenos gestos que aquecem mais do que qualquer chá.

Terminei cansada, mas leve.
Apreensiva no início, agradecida no fim.
É sempre assim: a natureza puxa por nós, mas devolve em dobro.

Isabel Gageiro🥾

**Álbum**: Eu Vou...Envendos
**Data**: 21 de Março de 2026




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🌾 Fim de Semana Alentejano: Entre Terra Vermelha, Castelos Fechados e Migas que Sabem a AbraçoSaímos de Arruda pelas 6h4...
01/04/2026

🌾 Fim de Semana Alentejano: Entre Terra Vermelha, Castelos Fechados e Migas que Sabem a Abraço

Saímos de Arruda pelas 6h40, ainda meio ensonados, mas com aquela alegria silenciosa de quem sabe que vai fugir um bocadinho do mundo. A viagem foi leve, cheia de parvoíces e gargalhadas, como só acontece quando se vai a quatro, sem pressas e sem grandes planos. O pequeno-almoço em Beja ajudou a acordar o corpo e a alinhar o espírito para o que vinha aí.

A manhã levou-nos às Minas de S. Domingos, onde o vento frio nos recebeu logo à chegada. O sol aparecia quando queria, as nuvens andavam por ali a passear, e o trilho mostrava-se com terra avermelhada, cascalho a ranger debaixo das botas, eucaliptos, sargaço e urze vermelha. Um Alentejo simples, bonito, sem grandes cerimónias.

Foram 7 km de caminhada circular, sempre em amena cavaqueira — porque há conversas que só acontecem quando se caminha. O piquenique foi um verdadeiro banquete: frango, piano, polvo, frango com cogumelos, queijo, uvas, salada e “buida”. O apetite já vinha aberto de casa. O brinde, claro, não podia faltar.

À tarde seguimos para Alcoutim, mas o céu decidiu complicar. Ficou cinzento, pesado, desagradável. O castelo estava a fechar — como se tivesse decidido que já tinha visto gente suficiente. Tirámos meia dúzia de fotos, encontrámos uns gatos de rua simpáticos e, no cais, mesmo à beirinha do Guadiana, descobrimos um jogo da glória desenhado no chão. Na outra margem, Sanlúcar espreitava. O slide f**a para uma próxima.

À noite instalámo-nos na nossa casinha por uma noite, com vista para a lagoa ácida. Partilhámos o jantar — há sempre comida para dar e vender — e rimo-nos da aventura que foi ligar a televisão e o ar condicionado. A tecnologia também gosta de brincar connosco. Entre risos e cansaço bom, o dia fechou-se devagar.

O domingo acordou bonito, com sol e bom tempo, como se quisesse compensar o mau humor da véspera. Em Serpa, antes de tudo, comemos umas gordices típicas — porque ninguém visita Serpa de estômago vazio. Depois passeámos pelas ruas quase desertas, com aquela calma boa que só o Alentejo sabe ter. Subimos ao castelo, passámos pela igreja, pela Casa dos Duques de Ficalho e pelo Museu do Relógio. No Museu do Cante Alentejano… fiquei incrédula. Entrei para comprar uma lembrança que tinha visto na montra e não me venderam por ser domingo. Como dizia o Fernando Pessa: “E esta, hein?”
Há situações que nem o Alentejo explica.

Seguimos para Moura, onde o castelo também estava fechado. Já era tradição. Visitámos o jardim das antigas termas e a igreja, num passeio curto mas simpático. Depois fizemos uma paragem breve na barragem do Alqueva — estava uma ventania daquelas — só para respirar fundo e olhar a água. Às vezes basta isso.

O almoço foi em Portel, no restaurante S. Pedro. Depois de muita espera, lá chegou a nossa vez. As migas estavam tão boas que quase pediam aplauso. Entre conversas e brindes, o tempo escorreu devagar, como só acontece no Alentejo.

De barriga cheia e alma leve, iniciámos a viagem de regresso até Arruda.
Um fim de semana simples, cheio de histórias, cheio de movimento, cheio de Alentejo — daqueles que não se separam por temas, porque só fazem sentido assim: inteiros.

Isabel Gageiro 🥾

**Álbum**: Fim de Semana Alentejano
**Data**: 14 e 15 de Março de 2026

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🚶‍♀️ Sábado de Verdes, Lapa e Lama: A Caminhada que Cheirava a MarçoSábado, dia 7 de março.  Doze caminheiros, ainda com...
27/03/2026

🚶‍♀️ Sábado de Verdes, Lapa e Lama: A Caminhada que Cheirava a Março

Sábado, dia 7 de março.
Doze caminheiros, ainda com o fresquinho matinal agarrado às mangas, reunidos na Praia Fluvial da Lapa, no Sardoal. Começámos às 9h20, com o céu azul salpicado de pequenas nuvens brancas a passearem lá em cima, como quem anda a ver se o dia promete. E prometia.

Ao longo do trilho, um desfile de verdes: acácias, eucaliptos, pinheiros, oliveiras, tojo amarelinho, fetos secos e fetos verdes (para todos os gostos), trevos — nenhum de quatro folhas, claro, porque a sorte hoje vinha mesmo das pernas. Aqui e ali, pinhas pelo chão, como pequenos avisos para irmos com calma.

A lama… essa estava em força. Vestígios das intempéries, lembranças recentes de dias mais bravos. Mas caminhámos assim mesmo, porque o caminho não espera por meteorologia perfeita.

Ao passar pelo Ribeiro da Lapa, a água cantava — e nós ouvimos, porque há sons que obrigam a abrandar. Mais à frente, um cacto agulha‑de‑eva apareceu como quem não quer nada, só para nos lembrar que a natureza gosta de surpresas.

Subidas e descidas, claro. Para não variar.
E no meio delas, a erva‑das‑sete‑sangrias, com as suas flores azul‑violeta vibrantes, e a urze branca a dar contraste. A paisagem parecia ter sido pintada com todos os tons de verde disponíveis.

Aos quatro ou cinco quilómetros, tivemos de alterar o percurso à pressa — uma montada estava prestes a começar. Mudámos de rumo como quem vira a página sem perder o fio à história. E a alternativa… bem, a alternativa era uma subida daquelas que fazem o coração bater mais alto e as pernas perguntarem “porquê?”. Uma subida puxadota, daquelas que nos lembram que caminhadas também são ginásio ao ar livre. Mas lá fomos, passo a passo, com humor e resiliência, porque desistir não estava no menu.

No fim da subida, já em alcatrão, na localidade de Cabeça das Mós, cruzámo-nos com carros a chegar com os seus atrelados e cães para a montada.

Seguimos por entre sobreiros, terrenos agrícolas, caminhos largos e outros nem tanto. Ainda tivemos direito a esfoliação grátis (não é para todos) e ao chilrear dos passarinhos que nos acompanhava como banda sonora oficial.

Chegámos à Barragem da Lapa, espelho de água tranquilo, e depois à Capela de Nossa Senhora da Lapa, guardiã silenciosa do vale.

Devido às alterações inesperadas, o percurso não foi exatamente o planeado. De regresso ao ponto de partida, seguimos viagem e fizemos parte do PR3 — Do Pão ao Vinho. A levada conduziu‑nos da Palhota até Entrevinhas, num corredor verde que parecia não ter pressa. O chão, em muitos troços, parecia um tapete de pequenas folhas estaladiças — quase dava vontade de caminhar devagar só para ouvir o som. As silvas, essas sim, tinham pressa: de nos roubar chapéus e prender roupas. Faz parte. A natureza também gosta de brincar.

Nos Moinhos de Entrevinhas fizemos o piquenique partilhado. Sol, frio, comida, conversa e descanso.
Mais um sábado bem gasto, cheio de verde, cheio de vida, cheio de Lapa.

Isabel Gageiro 🥾

**Álbum**: Eu Vou... Sardoal
**Data**: 07 de Março de 2026



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