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🌿 Entre uma feira e outra, agosto também sabe ser casa. Sabe ser pausa, sabe ser silêncio, sabe ser aquele momento em qu...
26/08/2026

🌿 Entre uma feira e outra, agosto também sabe ser casa. Sabe ser pausa, sabe ser silêncio, sabe ser aquele momento em que o mundo abranda e duas meninas de quatro patas decidem mostrar o que é o amor sem palavras.

A Pulguinha — a mais nova, a gatinha tartaruga, a da patinha estendida — aproxima-se com aquela confiança doce e meiga tão dela, a confiança de quem ainda está a aprender o mundo. A Soneca, mais velha, mais calma, mais dona do seu tempo, recebe o gesto como quem diz: “estou aqui.”

E eu ali, a apanhar este instante que não se repete: o toque suave, a ternura oferecida, a amizade que cresce devagar, como tudo o que vale a pena.
Há qualquer coisa de bonito nisto: um carinho que acontece porque sim, um descanso partilhado, uma forma de amor que não precisa de explicação.

À Toa em Agosto é isto:
reparar no que quase ninguém repara,
guardar o que o verão oferece sem pedir nada
em troca.
E hoje, o verão com cara de poucos amigos ofereceu‑me isto: as minhas meninas, juntas, tranquilas, a lembrar‑me que o amor também se fotografa.

Isabel Gageiro 🌸




🌿 Agosto também sabe ser pausa. Entre uma feira e outra, entre o barulho das bancas e o silêncio que f**a depois, Monsar...
21/08/2026

🌿 Agosto também sabe ser pausa. Entre uma feira e outra, entre o barulho das bancas e o silêncio que f**a depois, Monsaraz recebeu‑me como quem abre uma porta sem perguntar nada. Foi num desses raros intervalos — aqueles que chegam quando o corpo pede descanso e o olhar finalmente tem tempo para ver.

E vi isto. Uma parede antiga, uma janela que já guardou demasiados verões, e dois corações desenhados no ferro como quem deixa um segredo à vista. Não estava à procura de nada, mas às vezes agosto funciona assim: mostra o que quer mostrar, no momento certo.

Há qualquer coisa de bonito nisto: dois corações desenhados numa grade, pedras que guardam histórias que não são minhas, um desenho que alguém fez há décadas e que continua ali, firme, como se o verão também tivesse direito a ternura.

À Toa em Agosto é isto: andar sem pressa, reparar no que quase ninguém repara, parar diante de uma janela que não promete nada e, mesmo assim, oferece tudo.

E eu, que venho de feiras, de luzes, de movimento, fiquei aqui — só porque sim — a olhar para estes corações que o intervalo me deixou encontrar.

Isabel Gageiro 🌸





🌿 Há dias de agosto que começam devagar e acabam assim: com uma mão cheia de mini panquecas e o jardim municipal inteiro...
20/08/2026

🌿 Há dias de agosto que começam devagar e acabam assim: com uma mão cheia de mini panquecas e o jardim municipal inteiro a acontecer lá atrás.

Foi há poucos dias, nas Festas de Arruda. Aquelas luzes que se acendem devagar, aquele caminho cheio de gente, aquele barulho que só existe em agosto — barulho de festa, de vila, de verão. E eu ali, no meio do jardim, a equilibrar o tabuleiro e o instante, como quem tenta segurar o doce e a noite ao mesmo tempo.

Há qualquer coisa de bonito nisto: o contraste entre o chocolate que ameaça cair e a música que insiste em f**ar, entre o caos suave da festa e este pequeno momento que se deixa apanhar, entre o movimento da vila e a minha pausa no meio do jardim.

Agosto tem destas manias. Dá-nos noites cheias, caminhos iluminados, bancas que chamam, cheiros que puxam memórias. E depois, sem aviso, oferece um detalhe simples — um doce, uma luz, um gesto — que se transforma no instante mais quieto da noite.

À Toa em Agosto é isto: andar sem pressa, parar sem motivo, fotografar porque sim. E guardar estes segundos que não parecem nada, mas que acabam por ser tudo.

Isabel Gageiro 🌸





🌿 E às vezes agosto decide mostrar‑se assim: numa fonte que corre devagar enquanto, a poucos passos, o jardim municipal ...
12/08/2026

🌿 E às vezes agosto decide mostrar‑se assim: numa fonte que corre devagar enquanto, a poucos passos, o jardim municipal se transforma no palco improvisado das festas.

Hoje parei aqui.
A água cai no seu ritmo — o mesmo de sempre — indiferente ao barulho das bancas que em breve se irão montar, às cores dos arcos de rua que piscam ao sol, ao vai‑e‑vem discreto de quem dá os primeiros gestos para mais uma noite de agosto.
A fonte não muda.
Mas tudo à volta parece ganhar pressa.

Há qualquer coisa de bonito nisto: um lugar que permanece igual enquanto o resto se veste de festa, como se fosse o guardião silencioso de todos os verões que já passaram por aqui. Os fetos brilham um pouco mais, encostados às pedras húmidas, como se também eles quisessem assistir ao espetáculo.

No jardim, a festa prepara-se — devagar, mas prepara-se. Aqui, a fonte continua a sua vida tranquila, como se soubesse que agosto só funciona assim:
entre o barulho e o silêncio,
entre o movimento e a pausa,
entre o que passa depressa e o que f**a.

E eu, À Toa em Agosto, fico com este pedaço de mundo que me chamou — sem pressa, sem intenção, só porque sim.

Isabel Gageiro 🌸





🌿 E às vezes o agosto decide brincar comigo.Hoje, por exemplo, tropecei neste instante: a minha Soneca instalada no bidé...
10/08/2026

🌿 E às vezes o agosto decide brincar comigo.

Hoje, por exemplo, tropecei neste instante: a minha Soneca instalada no bidé como quem ocupa o trono, com duas “orelhas metálicas” atrás, numa pose tão séria que até parece que está a ponderar os destinos do mundo.

Nada de especial, nada de grandioso, nada que alguém fosse fotografar de propósito. Mas havia ali qualquer coisa — a luz, o silêncio, o humor involuntário, o verão a entrar pela casa e a transformar o banal em bonito.

Agosto tem destas coisas: pára-me com detalhes que não fazem sentido nenhum, mas fazem sentido suficiente para me arrancar um sorriso. E eu, no meio dos dias cheios, vou guardando estes pedaços de mundo que aparecem sem aviso. Instantes que não contam história nenhuma, mas contam o suficiente para me prender por um segundo.

A festa lá fora cresce, mas aqui dentro reina esta criatura que acha que o lavatório é camarote VIP. E eu deixo. Porque À Toa em Agosto também é isto: o inesperado, o doméstico, o ridículo, o bonito — tudo ao mesmo tempo.

À Toa em Agosto
Isabel Gageiro 🌼





🌿 À Toa em AgostoHá momentos que me chamam sem eu estar à procura deles.Não são grandes paisagens, nem acontecimentos ma...
06/08/2026

🌿 À Toa em Agosto

Há momentos que me chamam sem eu estar à procura deles.
Não são grandes paisagens, nem acontecimentos marcantes, nem coisas que alguém destacaria num álbum.
São só instantes pequenos — um objeto esquecido, uma flor teimosa, uma expressão num rosto, uma luz que pousa onde quer, uma sombra que decide desenhar‑se no chão.

Ao longo dos dias, vou guardando estes pedaços de mundo sem lhes dar nome.
Coisas que aparecem sem aviso, que não pedem atenção, mas que me param por um segundo.
Detalhes que não seguem tema, não obedecem a rotina, não têm hora marcada.
São só isto: bonitos à sua maneira.

E agora chegou agosto — um mês cheio, rápido, vivo — e percebi que estes instantes continuam a acontecer, mesmo quando eu não tenho tempo para grandes reportagens.
O mundo não espera.
O bonito também não.

Foi assim que nasceu esta rubrica.
À Toa em Agosto — um espaço para tudo o que me chama, seja onde for.
Em casa, na rua, na banca da feira, num café, num jardim, num rosto, num objeto, num silêncio.
O que aparece, eu paro.
O que me f**a, eu escrevo.

O objetivo é simples:
guardar o inesperado, transformar o acaso em capítulo, dar voz ao detalhe que quase passa despercebido.
Sem regras, sem estética forçada, sem obrigação de tema.
Só eu, o instante, e aquilo que decide acontecer.

Cada publicação terá apenas uma foto e um texto.
Nada mais.
Porque às vezes basta um detalhe para começar uma história.

À Toa em Agosto
Isabel Gageiro 🌼





🌿 A minha caminhada final de época começou muito antes de chegar à Galiza. Começou no Porto Alto, nas festas, na música ...
05/08/2026

🌿 A minha caminhada final de época começou muito antes de chegar à Galiza. Começou no Porto Alto, nas festas, na música alta, no cheiro a sardinha e naquela hora indecente em que me sentei no sofá — 02h40 — com o corpo a pedir cama e o despertador a tocar às 03h como quem não tem compaixão. Ainda nem tinha fechado bem os olhos e já estava a abri-los outra vez.

Entrei no autocarro com aquela sensação de quem está a meio caminho entre o caos e a aventura. Dormi a viagem inteira, como se o
corpo tivesse decidido que não ia negociar.
Foram 950 km, com paragem em Antuã, céu de poucos amigos e aquele ambiente de grupo que só existe nestas caminhadas grandes: distribuição de pastéis de nata (e eu, abusada, a quebrar a promessa de não comer doces — papei logo dois, sem remorsos), velinhas, ginja, pregadeiras em croché, uma flor para cada um. Pequenos rituais que transformam desconhecidos em companheiros de trilho.

Pouco depois de sairmos do autocarro, entrámos num trilho a subir. Estreito, verdejante e cheio de um agradável cheiro a eucalipto. A fila indiana formou-se naturalmente — e manteve-se assim quase todo o percurso. Era como se o trilho tivesse decidido que aquele dia ia ser vivido em cadência, passo a passo, sem pressas.

A Fraga de Senda de Barragán recebeu-me com aquela temperatura entre a frescura e o abafado que só os bosques densos sabem dar. Musgo, sombra, luz filtrada, fetos altos, pedras antigas e folhas secas a estalar sob as botas. Árvores caídas, outras envolvidas por trepadeiras, como se a floresta estivesse sempre a reinventar-se. E o Río Barragán ali ao lado, transparente, calmo, a cantar baixinho como quem acompanha sem se impor.

O cheiro a terra molhada era frequente — aquele cheiro que parece memória.

Passámos pelo Regato dos Freixos, antes da subida para a cascata. A Fervenza do Pozo Machado, também chamada de cascata do Río Barragán, é um salto escondido, de acesso mais exigente, daqueles que só se revelam a quem se atreve a subir.

A caminhada foi fértil em quedas — faz parte, são ossos do ofício — mas nada de grave. Não consegui registar nenhuma; ando a trabalhar mal, admito. E talvez tenha sido melhor assim. Há momentos que se escrevem melhor na pele do que na galeria do telemóvel.

Pelo caminho, encontrei um cavalito castanho, tranquilo, e mais à frente um cavalito branco, quase de postal — como se a fraga quisesse apresentar os seus habitantes. As poldras foram surgindo aqui e ali, antes e depois, sempre a lembrar que o Barragán gosta de nos fazer dançar entre pedras. E eu, na ousadia da minha saia‑calção, levei com uma silva atrevida que decidiu deixar a sua assinatura na minha perna. A natureza também gosta de brincar.

Os moinhos foram surgindo como pequenos tesouros: paredes de pedra, telhados antigos, musgo a cobrir tudo, levadas que outrora conduziram água e agora conduzem história. A fraga é isto: natureza e memória a viverem lado a lado, sem pressa.

Depois dos 11 km lineares, veio o descanso merecido. O piquenique foi já a 18 km da caminhada, na Praia Fluvial da Freixa — um lugar bonito, fresco, com água limpa e gente espalhada, cada um à sua maneira no relax. Quem quis, mergulhou. Quem não quis, descansou. Eu fiquei ali, a sentir o corpo a abrandar, a luz a mudar, o dia a fechar-se devagar.

Foi assim que fechei a época: com passos que me levaram, com natureza que me abraçou, com gente que me acompanhou e com silêncio que me alinhou por dentro.
A fraga guardou o trilho; eu guardei o dia.
E é por isto que caminho: porque há histórias que só se escrevem com os pés — e esta escreveu-se onde importa.

Isabel 🥾

**Álbum**: Pontevedra
**Data**: 19 de Julho de 2026







🏰 No domingo, 12 de junho, a caminhada foi diferente -- daquelas que fogem ao habitual e nos levam por outros ritmos.O d...
22/07/2026

🏰 No domingo, 12 de junho, a caminhada foi diferente -- daquelas que fogem ao
habitual e nos levam por outros ritmos.

O dia acordou com má cara — choveu
durante a noite e o céu estava encoberto, acinzentado, sem vontade de colaborar.
Saímos de casa pelas 9h45, com 20° no
painel do carro e aquela sensação de
“vamos ver no que dá”.

Durante a viagem, a chuva veio connosco.
Ao passar a Ponte Europa, reparei num
detalhe que só quem gosta de observar o
céu nota: para o lado da nascente do Tejo, o tempo continuava carregado; para o lado
da foz, estava sol. Dois mundos separados
por uma ponte.

Parámos na área de serviço de Estremoz — necessidades fisiológicas, claro — e
seguimos caminho.
Chegámos a Vila Viçosa perto do meio‑dia.
Sol forte, luz dura, e eu sem chapéu.

Já na Vila , depois de atravessarmos
a localidade, a praça abriu-se inteira à nossa frente: o Paço Ducal, 110m de frente, imenso, branco, elegante, com aquela fachada interminável que parece medir o tempo em séculos. A estátua do rei D. Joao IV, o empedrado geométrico, a luz a bater na pedra — tudo ali parecia preparado para nos abrandar o passo.

Começámos pela visita guiada.
Entrar no Paço é entrar noutro ritmo:
salas enormes com tapetes vermelhos,
cadeirões de veludo, tapeçarias que contam histórias em silêncio, tetos trabalhados, corredores que parecem não ter fim. A cada porta aberta, uma surpresa — uma sala dourada, uma galeria com armaduras, um corredor com cortinas pesadas que enquadram a luz como se fosse cenário de teatro.

Depois, numa das salas, descobri (ou relembrei) uma coisa que me apanhou de surpresa: o rei D. Carlos adorava pintar. Era um artista de paisagens e de carvão, daqueles que desenham como quem respira. E, além disso, era um caçador entusiasta — apaixonado pelo campo, pelos animais, pela vida ao ar livre. Pequenos detalhes que fazem a História ganhar rosto.

E outra curiosidade que me fez sorrir: a rainha D. Amélia media 1,82 m, uma altura invulgar para a época. Para disfarçar a diferença — o rei D. Carlos media 1,76 m — os fotógrafos pediam frequentemente à rainha para se sentar. Pequenas humanidades da História que aproximam os reis das pessoas.

Depois veio a cozinha — e ali o Paço ganhou outra vida.
Desci as escadas e dei de frente com uma coleção de peças de cobre tão brilhantes, tão enormes, tão alinhadas, que a minha reação foi imediata: Uau.
Foi a guia que nos contou que aqueles panelões gigantes serviam para aquecer a água dos banhos — e, com um Paço tão enorme, quando a água chegava aos quartos já devia ir mais fria do que quente.
Explicou também que são areados de três em três anos, num trabalho paciente, quase cerimonial, que mantém aquele brilho impossível de ignorar. A sala parecia respirar história: tachos gigantes, panelas que podiam alimentar um exército, luz a refletir no cobre como se fosse ouro.
É impossível entrar ali e não parar.

Depois do Paço, piquenicámos na Mata Municipal de Vila Viçosa — sombra boa, mesas de pedra, árvores altas, aquele silêncio que não pesa.
O parque é simples, fresco, cheio de recantos verdes onde o tempo abranda. E foi ali que encontrámos dois gatinhos maravilhosos, deitados debaixo de uma estrutura metálica, a descansar em cima de pedaços de cartão como se aquele cantinho fosse o lugar mais seguro do mundo. Um deles castanho e branco, o outro preto e branco — os verdadeiros guardiões da tarde.
Comemos devagar, como quem sabe que o dia ainda tem mais para dar.

Seguimos para o castelo.
As muralhas altas, as torres redondas, o portão medieval com o gradeamento pesado — tudo ali tem presença.
Subimos escadas de pedra irregulares, passámos por ruas estreitas com casas brancas e janelas azuis, vimos o jardim interior com sebes perfeitas e o campanário a recortar o céu.

Lá dentro, entre muralhas antigas que guardam séculos de silêncio, repousam também os restos mortais de Florbela Espanca. A poetisa encontrou ali o seu último lugar — dentro da cidadela, protegida por pedra, história e céu aberto. Há algo de sereno nisso: uma mulher que escreveu tanto sobre inquietação descansar num dos recantos mais tranquilos de Vila Viçosa.

A muralha medieval guarda também a chamada Torre da Bruxa. Diz a lenda que ali viveu uma jovem moura que se apaixonou por um cristão — amor proibido, amor impossível. Descoberta a traição, foi emparedada viva, f**ando a torre marcada para sempre pelo silêncio da sua história. Vila Viçosa tem destas coisas: entre pedra e céu, mistura o real com o lendário sem pedir licença.

E lá de cima, a vista abriu-se inteira: a avenida longa, as casas alinhadas, o céu azul com nuvens brancas, ora sol quente, ora encoberto. 29° que se sentiam bem.

Foi um passeio simples, bonito, cheio de detalhes que fazem um domingo valer a pena.

Saímos de Vila Viçosa com a cabeça cheia de histórias, a luz ainda presa na pedra branca do Paço e aquela serenidade boa que só os lugares antigos sabem dar — como se o dia, discreto, nos tivesse ensinado a abrandar.

Isabel Gageiro 🥾

**Álbum**: Vila Viçosa
**Data**: 12 de Julho de 2026

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🌿 Caminhada Circular — Santa Rita NorteComeçámos às 10h10, só nós dois, no ritmo tranquilo que a manhã pedia. O parque d...
17/07/2026

🌿 Caminhada Circular — Santa Rita Norte

Começámos às 10h10, só nós dois, no ritmo tranquilo que a manhã pedia. O parque de estacionamento da Praia de Santa Rita Norte foi o ponto de partida, com o céu encoberto naquele cinzento que não promete nada mas também não ameaça. Seguimos primeiro por alcatrão, só o suficiente para aquecer as pernas antes de entrar no trilho da margem esquerda do Alcabrichel, onde as canas crescem com uma confiança que eu às vezes invejo.

A vegetação estava alta, densa, a marcar território. O trilho parecia prometer avanço, mas ao fim de um quilómetro o rio decidiu outra coisa. A água vinha mesmo até à margem, tranquila mas absoluta, cortando o caminho sem pedir licença. O trilho acabava ali, num encontro abrupto entre terra e água, como se o percurso tivesse sido interrompido a meio de uma frase. Ficámos a olhar para aquele pedaço de vale verde, o rio a correr encostado à margem, as rochas brancas a rasgar a encosta, o céu a abrir brechas de azul entre nuvens. A paisagem era bonita, mas o caminho estava fechado. E eu não estava em dia de trepar encostas.

Voltámos para trás — não por desistência, mas porque às vezes o percurso escolhe por nós. Mais à frente, o leito do rio alargava-se, abrindo espaço entre as colinas que o abraçavam. A água corria tranquila, espalhada numa faixa larga, e o silêncio era tão grande que até as ripas de vento pareciam andar devagar. E ali, naquele recanto, fizemos a pausa que o trilho não nos deixou fazer mais à frente. Um de nós aventurou-se até à beira da água, braços no ar, como quem diz ao dia: “Estou aqui.” E o dia respondeu com aquele brilho suave que só aparece quando não há pressa.

Mudámos então para a margem direita, onde o percurso se fez por alcatrão na antiga estrada que já teve portagens e carros a passar. Hoje é pedonal — vai de Porto Novo à Fonte dos Frades — e carrega aquela nostalgia silenciosa das coisas que já foram úteis e agora só existem.

Antes de seguirmos pela estrada pedonal, fizemos a passagem pela Praia de Porto Novo. A areia estendia-se larga e tranquila, com os chapéus de palha alinhados como quem espera pelo verão. A bandeira verde dançava ao vento, o mar estava calmo, quase parado, e aquele céu meio fechado dava ao cenário um ar de manhã lenta, ainda a acordar. Havia poucas pessoas — uma ou outra a caminhar, outra a chegar — e isso tornava a praia ainda mais bonita, como se estivesse ali só para nós. Mais à frente, já na zona onde a areia encontra a rocha, o mar batia devagar no penedo isolado, aquele monumento natural que parece sempre estar a guardar histórias. Um cenário simples, silencioso, perfeito na sua calma.

Seguimos então pela estrada pedonal, onde ciclistas e caminhantes iam e vinham, cada um no seu ritmo. A ponte de madeira que outrora serviu o antigo campo de golfe nas margens do rio está agora interdita, danif**ada, com tábuas partidas e o corrimão a ceder — em perigo — uma estrutura que já só se atravessa com o olhar. Depois da ponte, a estrada continuou. Só mais à frente surgiu o troço ladeado por árvores altas, onde a sombra começou a desenhar aquele túnel natural. Um pouco depois chegámos às termas, encerradas, silenciosas, com os “bebedouros” de água termal marcados pelas intempéries. Tinham aquele ar de abandono que dói um bocadinho. Como diz o ditado: Quem te viu e quem te vê.

No regresso das termas, o percurso mudou de pele. Entrámos em trilho e passadiços: terra castanha cor de barro, pinheiros, caruma, pinhas, flores, arbustos. O cheiro a resina misturava-se com o som da rola ao longe. Melgas com entusiasmo a mais — fiquei toda picada, algumas babas grandes, porque claro, elas nunca falham a chamada. Borboletas também, essas mais simpáticas. Os passadiços de madeira serpenteavam pela vegetação, ora abertos, ora com pequenos abrigos de descanso, ora árvores, ora com vista para o vale — um daqueles caminhos que não se apressa, só se vive.
Quando regressámos ao ponto de partida, fui espreitar o areal da Praia de Santa Rita. A bandeira estava amarela, as tendas às riscas bem alinhadas como se alguém tivesse arrumado o verão. E a missão terminou por ali, naquela paz simples que só a praia sabe dar — uma calma que se encontra sem procurar.

No total, foram 8 km, 450 calorias — não deu para queimar nada de especial, mas deu para respirar.
Não chegou para eliminar a bola de Berlim que não comi à beira‑mar, aquela de creme fresco a espreitar pela lateral, açúcar a brilhar ao sol e a colar aos dedos, com cheiro a verão.
Uma tentação dourada, macia, com sabor a praia e a pecado.
Só de pensar nela recuperei as calorias que gastei.

E depois veio o piquenique — frango assado, arroz, batatas fritas, salada e azeitonas — tudo pousado na mesa como se fosse um pequeno banquete improvisado. Comemos no parque Fonte de Lima, aquele lugar que parece sempre ter sombra e silêncio suficiente para quem chega tranquilo. Depois do piquenique, ainda demos uma voltinha pelo parque, só para registar o momento — caminhos de tijoleira vermelha, vegetação alta, flores que aparecem sem aviso, recantos que parecem feitos de propósito para quem gosta de guardar detalhes.

Saímos do parque com a barriga cheia e a alma arrumada — como se o dia tivesse encontrado o seu próprio jeito de nos pôr no lugar.

** Álbum**: De Santa Rita às Termas
**Data**: 11 de Julho de 2026





🌳A primeira edição da Rota das Quintas começou cedo — mais cedo do que o previsto. A concentração estava marcada para as...
14/07/2026

🌳A primeira edição da Rota das Quintas começou cedo — mais cedo do que o previsto. A concentração estava marcada para as 9h na Casa do Povo de Campelos, mas a vaga de calor decidiu meter‑se na organização e obrigou a antecipar tudo em uma hora. Às 8h estávamos a começar, cerca de cinco dezenas de caminheir@s, ainda com aquela frescura da manhã que dura pouco, mas com vontade de caminhar. O percurso começou ali mesmo, em alcatrão, na Casa do Povo.

Passo a passo, fomos avançando pelas primeiras ruas, encontrando de tudo: casas, muros, sombras, pedaços de sol, flores que pareciam acenar à nossa passagem — um cenário simples, mas vivo, como são sempre as manhãs de caminhada. Seguimos até à Junta, onde a feira ainda estava na fase de montagem: bancas a serem alinhadas, gente a chegar, movimento a crescer devagar. E, já depois de passarmos por ali, cruzámo‑nos com dois gatos iguais, preguiçosos, deitados num muro, indiferentes ao calor e ao movimento — aqueles observadores silenciosos que parecem sempre saber mais do que mostram. Registei esse momento não porque fosse parte da caminhada, mas porque fazia parte da manhã, daquele retrato que nos acompanhou antes de entrarmos totalmente no ritmo do percurso.

A caminhada tinha um propósito bonito: angariar fundos para a Banda de Música de Campelos. Não havia instrumentos a afinar — havia comunidade, passos sincronizados e aquela energia boa de quem caminha por uma causa. E assim seguimos, deixando a Junta para trás e avançando pelo percurso circular que nos levaria de volta à Casa do Povo, mas nunca com a mesma versão de nós.

A primeira paragem chegou aos dois quilómetros, no Moinho de Campelos — o Moinho do Tio Pedro. Havia água, sumo e bolinhos secos, as famosas ferraduras, que sabem sempre bem quando o corpo já começa a aquecer. Visitámos o moinho, entrámos, vimos engrenagens antigas e sentimos aquele encanto simples dos lugares que guardam tempo dentro deles.

Seguimos por terra batida e, mais à frente, por gravinha. Depois, o trilho abriu‑se para terrenos agrícolas: canas, eucaliptos, sobreiros, folhas secas no chão — o crac‑crac das passadas a marcar o ritmo, conversas cruzadas a preencher o ar e pinheiros a desenhar sombra como quem nos protege discretamente.

Ao passarmos pela Quinta das Albergarias, três cães receberam‑nos com entusiasmo. Um deles decidiu que também era caminheiro e acompanhou‑nos durante grande parte do percurso. Só mais tarde, já a custo — porque ele não queria, resistiu, protestou — o meteram na carrinha de apoio para o levar de volta a casa. A caminhada tem sempre estas personagens secundárias que roubam a cena.

A percurso seguiu por vinhas e pomares, e aos seis quilómetros chegou o segundo abastecimento: fruta, pão com chouriço, água, sumo e bolinhos secos. O ponto estava à sombra, um alívio breve mas muito bem‑vindo. Foi ali que tirámos a foto de grupo, uma mancha de t-shirts brancas reunidas à sombra, naquele momento de pausa que sabe sempre bem antes de voltarmos ao alcatrão. Uma brisa passageira fez‑nos acreditar que o calor ia abrandar, mas foi só ilusão. Pelos dez quilómetros aqueceu à séria, daqueles calores que fazem o corpo pensar “quem me mandou vir”.

O trilho começou a ganhar profundidade: peras penduradas sobre o caminho, o verde denso das árvores, o grupo a avançar em fila, o contraste entre sombra e sol, e aquele campo enorme de cultivo que parecia não ter fim. Plumas, ervas altas, linhas de plantação, horizonte largo — a paisagem a respirar como se também estivesse a caminhar connosco.

O Rio Grande ainda nos acompanhou por instantes.
Passámos pelo Casal Moinho, por plantações de abóboras umas atrás das outras. Vimos um cavalo a observar‑nos como quem avalia o nosso esforço. E quase aos onze quilómetros, o terceiro abastecimento — a última trégua antes do trecho mais duro que nos esperava.

Mais à frente, chegou a subida desafiante — não daquelas de tirar o fôlego, mas suficiente para lembrar que o corpo ainda tinha trabalho a fazer. Seguiu-se o almoço: as pessoas agarravam num tabuleiro, recebiam a sopa e o resto da refeição, e seguiam para as mesas compridas. Sopa da pedra, grelhada mista, bebidas para todos os gostos, café e várias sobremesas — parecia festa: gelatina, pudim caseiro, gelado e arroz doce. As mesas compridas encheram‑se de gente, de conversa e de sorrisos. Depois do calor, da terra batida, das subidas e dos abastecimentos, veio a recompensa — comer e descansar.

No total, treze quilómetros — aqueles dez quilómetros previstos, mas com IVA incluído.
Treze quilómetros de calor, terra, sombra, conversa, cães, gatos, flores, fruta, paisagem, reforços e aquela sensação boa de missão cumprida.

A primeira Rota das Quintas ficou feita — e bem feita.

Isabel Gageiro 🥾

**Álbum**: 1a Caminhada Rota das Quintas
**Data**: 05 de Julho de 2026

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