20/05/2026
🌿A caminhada que pareceu acordar devagar
Há caminhadas que começam com pressa.
E há outras que começam assim — a caminhada que pareceu acordar devagar, envolta numa névoa teimosa e num silêncio de domingo que ainda não decidiu se quer ser dia.
Partimos às 9h45, dois caminheiros, com as pernas ainda a tentar lembrar-se do que era andar.
O Parque Olímpio Duarte Alves foi o ponto de partida e de chegada — uma espécie de abraço circular que nos recebeu antes e depois.
O tempo estava nublado, 15°, aquela temperatura que não incomoda mas também não entusiasma.
Mas pelas 11h, a névoa levantou-se como uma cortina de teatro, e o dia aqueceu só o suficiente para nos lembrar que a primavera ainda estava por perto.
O percurso levou-nos por entre a malha urbana e a rural — uma mistura curiosa de casas, campos, hortas, caminhos e memórias.
Pelo caminho cruzámo-nos com outra caminhada que estava a acontecer na localidade.
Sorrisos, “bom dia”, passos cruzados.
Aquela comunhão bonita de quem anda porque sim.
Da ponte de ferro sobre o rio Liz até às termas, o percurso tornou-se… digamos… monótono.
Muitas canas.
Muitas.
Mesmo muitas.
O tipo de muitas que nos faz pensar que as canas têm um plano secreto para dominar o mundo.
O som das rãs e dos pássaros acompanhou-nos como banda sonora improvisada.
As moscas e os mosquitos também — esses com entusiasmo a mais.
De quando em vez, a brisa trazia um cheiro menos simpático, daqueles que nos fazem acelerar o passo sem discutir.
Ao longe, ouviram-se foguetes — porque em Portugal há sempre uma festa algures, mesmo quando não sabemos onde.
E ao longo do caminho, descobrimos condomínios inteiros de caracolitos, tão organizados que quase mereciam código postal.
Passaram por nós alguns ciclistas em sentido contrário, rápidos e silenciosos, como se fossem personagens secundárias num filme que não é deles.
Entre as papoilas, os fetos e as muitas árvores arrancadas pelas intempéries, o caminho foi-se desenrolando até completar os 8,5 km.
O suficiente para esticar as pernas, limpar a cabeça e — como eu costumo dizer — não ganhar ferrugem nas dobradiças.
No fim, ficou aquela sensação boa de missão cumprida.
Nada épico, nada dramático — apenas um pedaço de manhã vivido com calma, humor e passos.
E às vezes, é isso que basta.
Isabel Gageiro🥾
**Àlbum**: PR2 LRA - Termas D'el Rei
**Data**: 26 de Abril de 2026