Rui Caria Photographer and visual journalist based in Azores, Portugal. Leica award winning photographer.

Há muito tempo que reflicto para dentro. Sempre vou errando menos. Mas perante a preocupação que senti entretanto, cumpr...
05/02/2026

Há muito tempo que reflicto para dentro. Sempre vou errando menos. Mas perante a preocupação que senti entretanto, cumpre-me lançar uma reflexão sobre um tema que me é tão caro; o fotojornalismo.

A polémica fotografia de um político em Portugal, de mão esticada, à espera de um cumprimento que não chega a ser mostrado na imagem publicada na edição impressa do jornal Público, gerou milhares de partilhas, comentários, atoardas e a barulheira do costume nas redes sociais e na imprensa nacional.
Que a política e o jornalismo existem desde que existe humanidade, já se sabia. A política; pela escolha da caverna para viver. O jornalismo; ao contar-se essa escolha ao vizinho. Estes dois sistemas inerentes à natureza humana toda a vida evoluíram no mesmo pote de azeite e água. Sempre juntos sem se poderem unir. É assim desde que demos nome a essas duas qualidades. Se quisermos podemos pensar que escolher a cor dos cortinados para a nossa sala, é política. Tudo parece servir a política e de tudo ela se serve. E o jornalismo é tão politizável como são os cortinados lá de casa. Mas a função do jornalismo não é enfeitar uma sala. O jornalismo tem a função de informar pessoas e equilibrar sistemas. Muitos autores respeitados garantem que sem o jornalismo a política perde os vários eixos ficando apenas num, o pior que já conhecemos. Dito de outra forma, o jornalismo serve de pilar à democracia e, independentemente da interpretação deste conceito, ele parece ser melhor do que o outro sistema que já por cá andou e parece que quer voltar.

Vi a imagem original e todas as suas variantes criadas por inteligência artificial nas redes sociais. Vi os "gatekeepers" a guardarem-se a si próprios. Sim; jornais e agências de referência que já não verificam apenas as notícias geradas e lançadas em redes sociais, mas verificam-se também como quem se olha ao espelho com medo do que possa ver. Os "media" estão assustados com o que andam a produzir. Parece confuso, e é.

É espantoso este caminho autofágico por onde guiamos o jornalismo e, sobretudo, o jornalismo visual. E esta imagem que representa o momento exactamente antes da bombeira afinal cumprimentar o político é rematado pela legenda: "André Ventura esteve com os bombeiros de Vila Verde, mas nem todos o receberam com um sorriso." Apesar da clareza da mensagem que se tenta criar aqui, os departamentos de "fact-checking" de diversos órgãos de comunicação tentaram dourar uma pílula que já não aceita cor, quando não conseguiram condenar claramente esta decisão editorial que procura passar uma ideia enviesada do que ali se passou. Alguém cumprimentou alguém no que parece ser uma formatura e alguém decidiu passar a ideia de que isso não existiu. E por muito que se goste ou deteste uma dada cor ou ideologia, o jornalismo tem de ser só jornalismo.

Isto não é um erro, é um "trope". E os "tropes" atacam o nosso discernimento enquanto espectadores e também enquanto jornalistas. Mas não condeno os fotojornalistas nem os editores. Todos estamos mais ou menos toldados pela indigência da política e pela vertigem da informação. Ainda ontem, num directo de televisão, confundi os grupos ocidental e oriental dos Açores e mandei, por distração, as ilhas de São Miguel e Santa Maria para perto da América. Foi um erro. É criticável. Mas enganei-me em directo, e em directo já foi.

O jornalismo e o fotojornalismo não estão a morrer mais hoje do que estavam a morrer há 33 anos, quando comecei nestas andanças. Se mudou? Claro que sim. E isso é bom e é mau, como o chocolate. Por isso, se hoje, infelizmente, a bombeira é usada como arma política neste "clickbait" desnecessário, é só mais uma vítima como somos todos. Estamos todos embrenhados no mesmo caldo de emoções que não permitem um segundo de sentido crítico; o pensamento entrou em directo. A realidade e a ficção partilham o mesmo chão. Já pouco se distingue e ainda menos importa distinguir. E a prova que a culpa não é da inteligência artificial, é esta fotografia publicada num jornal nacional a vir lembrar que há mil formas de enganar, seja com inteligência artificial, natural ou rural.

Esta decisão editorial tem então um propósito claro. Porém, falemos agora de fotojornalismo na sua génese:

Esta fotografia representa um momento tão real quanto o momento que não é mostrado nela, mas sabemos que existiu; o do aperto de mão. Por isso, dizer-se que a esta fotografia é falsa mostra também falta de profundidade. Ela não é falsa, é só fora de tempo. O momento que é mostrado também existiu; logo, o que achamos ser falso, afinal, chama-se viés. E isso, quase sempre, tem um efeito mais pernicioso porque tenta destituir do significante o seu significado inicial. Se quisermos simplificar; usa a realidade para induzir o inverosímil, criando a ambiguidade necessária para ser ao mesmo tempo verdade e mentira. E se isso protege de alguma maneira a sua edição num jornal, o resultado é sempre a mentira e esta serve sempre alguém ou alguma coisa.

Agora um exercido improvável, mas possível:

poderíamos, hipoteticamente, achar que o fotojornalista que assina esta imagem só tinha tirado aquela fotografia naquele momento do evento. Imaginemos que o aperto de mão demorou a ter retorno e o cartão de memória da câmara acabou ali. Pensemos nisto. Como seria? Como seria a legenda se esta fosse a única fotografia daquela reportagem? “É provável que esta pessoa não tenha querido cumprimentar a outra. Mas ficámos sem memória.” Seria esta uma legenda mais rigorosa? Ou simplesmente não se publicava por “falta de memória”?

A ética, a deontologia, a moral e outros conceitos que ainda guardam alguma nobreza e ajudam a restaurar a confiança, também parecem estar a perder a memória. Muito do jornalismo de hoje é comparável a um dente desvitalizado. Está para ali a fazer fachada e ainda vai mastigando, e mesmo que já não sinta nada também já não sente a dor e ainda ajuda a sorrir.

E assim vamos alimentando o ódio quando pensamos que o estamos a erradicar. A honestidade acaba sempre por ter vantagem a longo prazo, e o mal, por muito que demore, acaba por cair sozinho. Mesmo que esta fotografia fosse a ideal para muitos, o jornalismo não pode ceder a tentações. Mostremos só o que está a acontecer sem nenhum “parti pris” a não ser o da honestidade. É muito difícil fazer-se jornalismo. E mais difícil ainda é sermos objectivos quando não nascemos objectos, mas sujeitos.

26/11/2025

Condições Especiais Leica Akademie: - Desconto Alumni – Ex-alunos Leica Akademie beneficiam de 10% de desconto. Para usufruir destas condições, a inscrição deve ser feita diretamente connosco. Basta contactar-nos através do email [[email protected]] e acompanharemos consigo todo ...

Amanhã.
01/10/2025

Amanhã.

| Abertura da exposição de fotografias de Rui Caria «Angrajazz»

📆 02 out. 🕑 19h00 📍 CCCAH ℹ Entrada livre

Artigo de hoje.
01/05/2025

Artigo de hoje.

O fotojornalista da Nazaré apresenta em Londres oito imagens, integradas na seleção oficial dos Sony World Photography Awards.

Para ver, o novo Blog do Daniel Rodrigues.
22/04/2025

Para ver, o novo Blog do Daniel Rodrigues.

FÁTIMA, PORTUGAL, MAY 2017 Pope Francis’s visit to Fátima, Portugal — May 2017. On the occasion of the 100th anniversary of the Marian apparitions, the Holy Father prayed alongside thousands of pilgrims at the Sanctuary of Fátima. These images are a tribute to that moment of faith, unity, and...

Em janeiro de 2019 uma fotografia minha venceu o prémio nacional do concurso Sony World Photography Awards. Quando uma n...
25/02/2025

Em janeiro de 2019 uma fotografia minha venceu o prémio nacional do concurso Sony World Photography Awards. Quando uma notícia destas nos cai na caixa de correio uma vez, pensamos que nunca mais volta a acontecer. Mas aconteceu. E o reconhecimento deste ano tem, para mim, uma importância muito especial. A série de fotografias, agora destacadas, é sobre o tema mais marcante que já fiz em todo o meu percurso enquanto jornalista, fotojornalista e fotógrafo documental.

Still Death é o título que dei a este trabalho sobre a guerra na Ucrânia agora reconhecido pelo júri da competição profissional na categoria de Still Life. É um dos trabalhos a figurarem nas galerias da shortlist deste ano dos Sony World Photography Awards 2025.

https://sicnoticias.pt/especiais/guerra-russia-ucrania/2025-02-25-fotos-do-portugues-rui-caria-sobre-a-guerra-na-ucrania-reconhecidas-pelo-maior-concurso-de-fotografia-do-mundo-9f76e1bb

Endereço

Praia Da Vitória
9760

Notificações

Seja o primeiro a receber as novidades e deixe-nos enviar-lhe um email quando Rui Caria publica notícias e promoções. O seu endereço de email não será utilizado para qualquer outro propósito, e pode cancelar a subscrição a qualquer momento.

Entre Em Contato Com O Negócio

Envie uma mensagem para Rui Caria:

Compartilhar

Categoria