05/02/2026
Há muito tempo que reflicto para dentro. Sempre vou errando menos. Mas perante a preocupação que senti entretanto, cumpre-me lançar uma reflexão sobre um tema que me é tão caro; o fotojornalismo.
A polémica fotografia de um político em Portugal, de mão esticada, à espera de um cumprimento que não chega a ser mostrado na imagem publicada na edição impressa do jornal Público, gerou milhares de partilhas, comentários, atoardas e a barulheira do costume nas redes sociais e na imprensa nacional.
Que a política e o jornalismo existem desde que existe humanidade, já se sabia. A política; pela escolha da caverna para viver. O jornalismo; ao contar-se essa escolha ao vizinho. Estes dois sistemas inerentes à natureza humana toda a vida evoluíram no mesmo pote de azeite e água. Sempre juntos sem se poderem unir. É assim desde que demos nome a essas duas qualidades. Se quisermos podemos pensar que escolher a cor dos cortinados para a nossa sala, é política. Tudo parece servir a política e de tudo ela se serve. E o jornalismo é tão politizável como são os cortinados lá de casa. Mas a função do jornalismo não é enfeitar uma sala. O jornalismo tem a função de informar pessoas e equilibrar sistemas. Muitos autores respeitados garantem que sem o jornalismo a política perde os vários eixos ficando apenas num, o pior que já conhecemos. Dito de outra forma, o jornalismo serve de pilar à democracia e, independentemente da interpretação deste conceito, ele parece ser melhor do que o outro sistema que já por cá andou e parece que quer voltar.
Vi a imagem original e todas as suas variantes criadas por inteligência artificial nas redes sociais. Vi os "gatekeepers" a guardarem-se a si próprios. Sim; jornais e agências de referência que já não verificam apenas as notícias geradas e lançadas em redes sociais, mas verificam-se também como quem se olha ao espelho com medo do que possa ver. Os "media" estão assustados com o que andam a produzir. Parece confuso, e é.
É espantoso este caminho autofágico por onde guiamos o jornalismo e, sobretudo, o jornalismo visual. E esta imagem que representa o momento exactamente antes da bombeira afinal cumprimentar o político é rematado pela legenda: "André Ventura esteve com os bombeiros de Vila Verde, mas nem todos o receberam com um sorriso." Apesar da clareza da mensagem que se tenta criar aqui, os departamentos de "fact-checking" de diversos órgãos de comunicação tentaram dourar uma pílula que já não aceita cor, quando não conseguiram condenar claramente esta decisão editorial que procura passar uma ideia enviesada do que ali se passou. Alguém cumprimentou alguém no que parece ser uma formatura e alguém decidiu passar a ideia de que isso não existiu. E por muito que se goste ou deteste uma dada cor ou ideologia, o jornalismo tem de ser só jornalismo.
Isto não é um erro, é um "trope". E os "tropes" atacam o nosso discernimento enquanto espectadores e também enquanto jornalistas. Mas não condeno os fotojornalistas nem os editores. Todos estamos mais ou menos toldados pela indigência da política e pela vertigem da informação. Ainda ontem, num directo de televisão, confundi os grupos ocidental e oriental dos Açores e mandei, por distração, as ilhas de São Miguel e Santa Maria para perto da América. Foi um erro. É criticável. Mas enganei-me em directo, e em directo já foi.
O jornalismo e o fotojornalismo não estão a morrer mais hoje do que estavam a morrer há 33 anos, quando comecei nestas andanças. Se mudou? Claro que sim. E isso é bom e é mau, como o chocolate. Por isso, se hoje, infelizmente, a bombeira é usada como arma política neste "clickbait" desnecessário, é só mais uma vítima como somos todos. Estamos todos embrenhados no mesmo caldo de emoções que não permitem um segundo de sentido crítico; o pensamento entrou em directo. A realidade e a ficção partilham o mesmo chão. Já pouco se distingue e ainda menos importa distinguir. E a prova que a culpa não é da inteligência artificial, é esta fotografia publicada num jornal nacional a vir lembrar que há mil formas de enganar, seja com inteligência artificial, natural ou rural.
Esta decisão editorial tem então um propósito claro. Porém, falemos agora de fotojornalismo na sua génese:
Esta fotografia representa um momento tão real quanto o momento que não é mostrado nela, mas sabemos que existiu; o do aperto de mão. Por isso, dizer-se que a esta fotografia é falsa mostra também falta de profundidade. Ela não é falsa, é só fora de tempo. O momento que é mostrado também existiu; logo, o que achamos ser falso, afinal, chama-se viés. E isso, quase sempre, tem um efeito mais pernicioso porque tenta destituir do significante o seu significado inicial. Se quisermos simplificar; usa a realidade para induzir o inverosímil, criando a ambiguidade necessária para ser ao mesmo tempo verdade e mentira. E se isso protege de alguma maneira a sua edição num jornal, o resultado é sempre a mentira e esta serve sempre alguém ou alguma coisa.
Agora um exercido improvável, mas possível:
poderíamos, hipoteticamente, achar que o fotojornalista que assina esta imagem só tinha tirado aquela fotografia naquele momento do evento. Imaginemos que o aperto de mão demorou a ter retorno e o cartão de memória da câmara acabou ali. Pensemos nisto. Como seria? Como seria a legenda se esta fosse a única fotografia daquela reportagem? “É provável que esta pessoa não tenha querido cumprimentar a outra. Mas ficámos sem memória.” Seria esta uma legenda mais rigorosa? Ou simplesmente não se publicava por “falta de memória”?
A ética, a deontologia, a moral e outros conceitos que ainda guardam alguma nobreza e ajudam a restaurar a confiança, também parecem estar a perder a memória. Muito do jornalismo de hoje é comparável a um dente desvitalizado. Está para ali a fazer fachada e ainda vai mastigando, e mesmo que já não sinta nada também já não sente a dor e ainda ajuda a sorrir.
E assim vamos alimentando o ódio quando pensamos que o estamos a erradicar. A honestidade acaba sempre por ter vantagem a longo prazo, e o mal, por muito que demore, acaba por cair sozinho. Mesmo que esta fotografia fosse a ideal para muitos, o jornalismo não pode ceder a tentações. Mostremos só o que está a acontecer sem nenhum “parti pris” a não ser o da honestidade. É muito difícil fazer-se jornalismo. E mais difícil ainda é sermos objectivos quando não nascemos objectos, mas sujeitos.