05/09/2023
Na hora do banho, sempre ponho música.
Ontem escolhi a playlist “sem uma palavra”.
São músicas clássicas, ou jazz. Basicamente instrumentais.
Sem falar uma palavra sequer, elas dizem muito.
É estranhamente bonito.
No final do ano de 2020, ano que o COVID se instalou, eu fiz um vídeo-coletânea com fotos e vídeos dele desde o quase nascimento com uma música dessa playlist.
Na altura, ele tinha um ano e pouco, e foi um ano nada fácil.
Paula e eu quase nos separamos. Por motivos mil, mas muito por conta da pandemia, do lockdown, do estranho afastamento que estar juntos 100% do tempo nos causou.
No final do vídeo, eu pedia à 2021 para ser kind — e, de alguma forma, acredito que ele foi.
Eu pedi demissão da agência onde estava - com muito choro e emoção pelo meio — e logo a seguir, aceitamos uma proposta para mudar para Bruxelas.
Tivemos umas férias lindas com nossos grandes amigos de lá e, no meio delas, chegou a proposta-contrato pronto para ser assinado. Contámos á todos naquela altura. — com muito choro e emoção. Comecei em 2021, ainda. Mudámos em 2022. 4 de janeiro de 2022.
Enfim. Hoje, enquanto ele tomava banho, botei para tocar a playlist e, de repente, começou a tocar a música que está no vídeo-coletânea de 2020.
A música é marcante para ambos. Ele reconheceu. Disse que era a música do vídeo, de quando ele era bebê, em Portugal. Eu me emocionei. Pela lembrança dele, mas por todas as lembranças que isso me traz.
2 anos e pouco depois, ele ainda lembra. E, felizmente, eu ainda cuido dele. Do mesmo jeito que faço desde 2019.
Paula e eu não nos separamos.
Vamos ter uma filha muito em breve, que já é amada muito por ele e por todos.
Como prova de nada, mas como um sinal de muita coisa. Todas boas.
Escolhemos tê-la. Planejamos. E concretizamos - ou estamos prestes a.
Eu chorei ao ouvir a música. Ao lembrar do vídeo. Ao pensar na coletânea de momentos que temos juntos, nesses quatro anos e meio dele. Nosso.
No fim, depois do banho, ele saiu correndo procurar a mamãe para irem dormir juntos. Ele disse que ouviu a música do vídeo e que eu ~ quase ~ chorei. Quase. Ele é muito querido.
Voltamos para o quarto. Ele pegou a caixinha no banheiro, botou no máximo e eu repeti a música. Eu sentei no chão, ele ficou meio perdido sobre o que fazer. Mas pegou umas coisas e sentou no meu colo. Ouvimos a música inteira, quase 9 minutos, com ele lá, fazendo carinho, quase dormindo - e eu ~quase~ chorando de novo.
Acabou, eu saí do quarto para ele dormir, e fui tomar banho — ainda mareado e emotivo com aquele momento extremamente bonito de nós os dois.
Acabei o banho e ouvi ele chorando. Um choro sentido. Um choro diferente de todos os outros. Ou melhor. Um choro que não ouvia mais há tempos. Um choro de bebê.
Subi. A Paula pediu para fazer um leitinho quente. Fiz. Desci. Entreguei e ele perguntou se eu podia deitar ali com ele.
Claro que sim, filho.
Deitei e perguntei a razão dele estar chorando. Ele disse que “estava emocionado, por mim”.
Eu também, filho. Eu também.
Deitamos abraçados. Dormimos.
A Paula me contou depois que, nesse meio tempo, ela perguntou a mesma coisa - por que de ele estar chorando, se ele estava emocionado. Ele disse que sim. Que estava emocionado. Que estava sentindo o seu coraçãozinho.
Ela falou que eu poderia fazer o leitinho e depois deitar com eles. E ele retrucou: “Coitado, deixa ele fazer as coisas dele lá”.
Eu, filho, eu não tenho nada para fazer, além de cuidar de você.
De vocês.
A vida ás vezes é dura, como foi 2020.
Mas ás vezes também é kind. Várias vezes.
Como tem sido desde 1987.