31/05/2026
AS PRIMEIRAS SARDINHAS SÃO JEJUM E IMAGEM
Escamas no cesto
Escamas de sardinha presas ao cesto usado para retirar o peixe do barco.
As primeiras sardinhas vêm magras. Ainda não têm aquele sabor cheio, fundo, quase a marisco, que aparece mais tarde, quando a época avança.
Mesmo assim, sabem bem. Não por estarem no ponto, mas porque estivemos meses à espera delas. A primeira sardinha traz consigo essa ausência: sabe também ao tempo em que não esteve à mesa.
A sazonalidade faz isto. Não trabalha apenas o alimento; trabalha a percepção. Muda a forma como olhamos, cheiramos, desejamos e avaliamos aquilo que regressa.
A sardinha também mudou de lugar. Durante muito tempo foi alimento popular, barato, intenso, ligado à rua, ao cheiro, à gordura e ao fumo. Hoje continua a ser comida de grelha, mas circula também como imagem.
Antes de chegar ao prato, muitas vezes já chegou ao olhar.
A sardinha mudou? Ou mudou a forma como a lemos?
Talvez hoje, para muita gente, a sardinha funcione tanto como sabor como imagem.
É aqui que a sardinha permite pensar outra coisa: a sazonalidade da imagem.
Com as imagens acontece quase o contrário. Circulam sem pausa. Vemo-las demasiado depressa, em excesso, e talvez por isso muitas deixem de criar desejo.
A sardinha lembra-nos uma coisa simples: a ausência também alimenta.
A pergunta já não é apenas quando começa a época da sardinha.
É também esta:
quando começa a época de uma imagem?
Talvez uma imagem também precise de jejum. Talvez precise de sazonalidade. De tempo fora do olhar para voltar a ser vista.
COMIDA CENTRAL
comida, território, memória, imagem e pensamento gastronómico.
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