13/10/2026
O PÃO NOSSO DE CADA DIA
Há pão que leva esta expressão demasiado à letra: quente, convence; no dia seguinte, está duro, borrachoso, sem graça. Quase mais vale comer o pão que o diabo amassou.
A produção industrial acelerada encurta tempos e uniformiza resultados. Há padeiros artesãos a recuperar cereais locais, massa-mãe e fermentações demoradas. Esse trabalho reconhece-se no sabor, na textura e na sua durabilidade.
O trigo marca o pão alentejano; o milho e o centeio, muitos pães do Norte. O pão também entra na alheira. Quando endurecia, o pão ainda podia dar uma açorda, umas migas ou um gaspacho. Há uma diferença entre pão duro que merece ser aproveitado e pão que nem em torradas se salva.
Em muitas aldeias, uma fornada abastecia a casa durante vários dias. As mulheres amassavam e organizavam-se à volta do forno comunitário. O trabalho incluía reunir lenha, aquecer o forno, cuidar dele e aproveitar o calor entre fornadas. Havia regras e tarefas partilhadas, com acordo e, por vezes, discussão.
Nas casas onde se deixou de fazer pão, desapareceram a massa e a mãe que a amassava.
Benzia-se a massa, fazia-se uma cruz. Hoje, muitas vezes, a bênção chega num letreiro: «PÃO QUENTE».
Ao perdermos a prática e a transmissão destes saberes, perdemos também capacidade de produzir e aproveitar comida. A resiliência alimentar passa por conservar meios e conhecimento para enfrentar falhas no abastecimento. Um forno comunitário depende de cereal, moagem, água, combustível e pessoas que saibam usá-lo.
Reconhecemos a cultura nos livros, nos teatros e nos museus. Também há cultura no conhecimento de quem faz pão e ensina a fazê-lo. Criar experiências de aprendizagem e convívio à volta destes fornos pode manter esse conhecimento em uso e dar trabalho a quem o transmite.
O pão nosso de cada dia podia muito bem ser o de ontem.