27/08/2026
COMER SANGUE
Pode parecer um caderno de receitas do Drácula, mas é cozinha portuguesa.
Comemos sangue. E com gosto: arroz de cabidela e, no Algarve, cabidela com batatas; sarrabulho, arroz de lampreia, belouras, chouriças de sangue e até morcelas doces. Muitas vezes, juntamos-lhe vinagre para não coagular.
Fotografá-los é difícil: castanho escuro, molho brilhante, fumo, uma perna de frango ou um troço de lampreia entre os grãos de arroz. O desafio é fazer esta paleta abrir o apetite.
O sangue contém ferro, engrossa molhos e liga enchidos. Aproveitava-se o animal. A ciência explicou o seu valor; o sabor ficou.
No Berry francês, a cabidela tem um parente: o «poulet en barbouille». Não leva arroz, mas liga o molho com sangue e vinagre.
Durante séculos, tentou-se curar com sangrias e sanguessugas. Sangria designou primeiro essa prática e, pela cor, passou a nomear bebidas de vinho, açúcar, limão e especiarias. A fruta viria depois. Na jarra, o sangue ficou apenas no nome.
No início do século XX, beber sangue de boi ainda quente no matadouro era considerado um tratamento para a tuberculose, as hemoptises e os males do peito. As sangrias não eram a cura imaginada e beber sangue não curava a tuberculose.
Judaísmo e islão proíbem o consumo de sangue animal. Nos Actos dos Apóstolos, recomenda-se aos cristãos que se abstenham dele, mas a regra não permaneceu como proibição alimentar geral. Em Portugal, estas receitas convivem com a tradição católica; na missa, o vinho consagrado transforma-se no sangue de Cristo.
O sangue pode ser proibido, cozinhado ou sagrado.
Depois aparece o sangue menstrual. O catolicismo actual não impõe restrições culinárias, mas, no mundo rural português, tradição e superstição misturaram-se: acreditava-se que uma mulher menstruada podia estragar enchidos e sarrabulho, impedir a maionese de pegar ou fazer o vinho azedar.
Seria uma forma de descanso? Os registos sugerem que não: afastadas destas preparações, continuavam noutras tarefas.
Na mesma casa, o sangue do animal entrava no tacho; o da mulher afastava-a de certas receitas, não do trabalho.