02/05/2026
Eu não fotografo eventos. Habito-os.
Entro sem ruído, dissolvo-me entre os corpos, torno-me invisível.
Não invado, observo.
Não interrompo, escuto.
É nesse silêncio que tudo se revela. É aí que a verdade se deixa ver.
Recuso a violência do flash quando a luz já existe. A luz natural não é um recurso, é uma linguagem. E eu respeito-a. Trabalho com ela. Deixo que o ambiente respire nas imagens, em vez de o subjugar. Neste contexto, o grão nas minhas imagens não é falha. É memória. É tempo inscrito na matéria da fotografia.
As minhas imagens não procuram a perfeição clínica, procuram a permanência. Aquela sensação de que já existiam antes de serem vistas.
Fotografo sempre a cores. Mas é no preto e branco que gosto de habitar. Quando sinto que uma história pede silêncio e contemplação absolutos, quando sinto que há uma verdade natural na celebração, converto a reportagem a preto e branco. É uma decisão narrativa, não se trata de estética isolada. F**a só o essencial. Pele. Luz. Intenção. Magia.
Nas cerimónias religiosas, ainda que não seja um homem de fé, há em mim um respeito absoluto pelo que ali acontece. Pela liturgia, pelos gestos, pelas pessoas. Não estou lá para interferir, sequer para passar pela frente. Estou para testemunhar. E, mais uma vez, faço-o da única forma que conheço: sendo o menos invasivo possível. O mais respeitador possível.
Tenho uma predileção assumida pelas bodas de ouro. Porque ali não há teatro. Não há ansiedade. Não há performance. Há vida vivida. Há cumplicidade sedimentada. Há verdade. E isso não se encena.
Não disparo muito, não coleciono imagens. Escolho momentos. Preciso de tempo para compreender o ritmo, os gestos, as pausas, o papel de cada um. É nessa atenção que encontro o que realmente importa. E é por isso que as minhas reportagens se revelam depois diferentes.
A minha fotografia não é sobre o que aconteceu. É sobre o que vale e sobre o permanece. E isso, para mim, não é negociável. Entro sem ruído, dissolvo-me entre os corpos, torno-me invisível.
E isso, para mim, não é negociável.