02/03/2026
- Festival V***r 2025, Museu Nacional Ferroviário
Há concertos que não procuram agradar.
Procuram acordar.
No 2025, Selma Uamusse trouxe mais do que música. Trouxe história. Trouxe origem. Trouxe uma voz que carrega deslocações, pertenças e fraturas que não cabem em discurso neutro.
Entre locomotivas adormecidas e estruturas de ferro, a sua presença tornou-se afirmação identitária. Não como rótulo, mas como corpo que canta a partir de uma memória que é também política. Cada canção parecia lembrar que identidade não é ornamento cultural. É posição.
A fronteira dissolveu-se.
Entre palco e chão. Entre quem canta e quem escuta. Entre passado e presente.
O concerto deixou de ser apresentação. Tornou-se gesto coletivo. Um espaço onde a energia não vinha apenas do som, mas daquilo que ele convoca.
Fotografar ali foi acompanhar essa tomada de lugar. Não ilustrar um espetáculo, mas registar o instante em que a voz se torna território.
Há vozes que se escutam.
Outras reclamam espaço.
©️ João Versos Roldão | Festival V***r | 2025