08/11/2020
- Série capas de discos que valem textões -
2000. Cena urbana retratada em forma de quadrinho. O olhar de canto, meio desconfiado, meio atento de quem sabe o que é viver nas periferias e ser mira fácil. Há um pouco de sofrimento e um pouco de malandragem pra quem tá no corre. O disco é um ataque verbal, que reverencia a cultura de rua, o hip-hop, Zumbi, Mandela, Malcon X, Grande Otelo, o samba raiz. As 15 faixas mostram na prática a mistura que a banda anuncia em rap-rockandroll-psicodelia-hardcore-e-ragga. Um vulcão em erupção que ri da hipocrisia e alerta que a punição do sistema de justiça só serve para criminalizar expressões periféricas e que, enquanto tiver um microfone na mão, sua família não passará fome e a voz é arma para falar do que querem proibir, ocultar, silenciar. Acharam mesmo que de maconha não iam falar?
Mais que uma resposta a prisão, uma formação de identidade: se a justiça os enquadra criminalmente, chegam com o pé na porta, invadindo e ressignificando o rótulo que autointitula a banda como quadrilha, ou melhor, ex-quadrilha da fumaça. O sagaz homem fumaça é o anti-herói, que queima uma erva, tem a cabeça aberta e foge da ignorância. Os homens fumaça sabem que são alvo da polícia, que o abuso de autoridade faz parte de um jogo sujo do poder, e é por isso que questionam que, quando são rendidos, não sabem mais quem é polícia e quem é ladrão. Questionam a política, a polícia e a justiça, e defende que a sabedoria tá na rua e é criada no morro. Fazem 20 anos desses escritos e da explosão sonora do Planet H**p, mas poderia ter sido lançado hoje, pois cada palavra faz sentido e ainda soa como um soco. Alertam que é preciso combater o vírus da mediocridade que divide a cidade e que a grande batalha é a realidade versus a ilusão. E é na troca da rua, de cidade em cidade, que se espalha revolução.