03/09/2015
"O lugar mais adequado para a mulher ter seu filho é, segundo a OMS, onde ela se sente segura. Para muitas mulheres, o lugar mais seguro é a sua casa; para outras, é uma casa de parto; e para outras vai continuar sendo o hospital. E todas elas têm que ser contempladas pelo nosso sistema de saúde" (Ricardo Jones – O Renascimento do Parto)
"Uma coisa que sempre tive certeza em minha vida foi que quando eu tivesse um filho, ele nasceria de parto normal. Para mim isso era um “cálculo” simples, afinal minha mãe teve três partos normais e aquela era minha realidade. Antes de engravidar eu por acaso vi um trailer do “Renascimento do Parto”, ali eu percebi que não era tão simples, passei a pesquisar um pouco mais sobre o assunto e ver alguns filmes de partos humanizados e tive a certeza que queria o meu daquela forma.
Em novembro de 2014 descobrimos nossa gravidez, com apenas três semanas de gestação e ali começou uma longa caminhada. Nosso primeiro GO foi indicado por algumas amigas por ser muito adepto a parto normal, fomos e gostamos muito dele, inicialmente nem tocamos em assunto de parto, mas ele nos tratou de uma forma muito pessoal e amável, na minha cabeça seria ele a fazer nosso parto, até porque, naquele momento eu desejava um parto humanizado hospitalar, afinal como tinha visto no filme a frase que iniciei esse relato, era em um hospital que me sentia segura. Na terceira consulta com o médico decidi falar sobre o parto, para minha surpresa ele respondeu: “A via de parto é imprevisível... Apenas nas ultimas semanas para termos certeza.. SE tiver tudo bem até lá, claro que poderemos ter um parto normal.”.
A vontade que eu tive naquele momento foi de levantar e sair, mas minha educação não deixou, fiz a famosa cara de alface, ele já deixou minha próxima consulta marcada, como fazia sempre, eu fui mas nunca voltei...
Depois desse dia entrei em contato com uma Enfermeira Obstetra que trabalha no hospital da minha cidade que me indicou um médico que faço questão de citar o nome, Dr. Cláudio Rocha. Ela me informou que eu poderia até não chegar a ter meu parto com ele, mas ele jamais me indicaria uma cesárea desnecessária, não cairia no conto da circular de cordão, bebê grande, não ter passagem, etc... Assim fomos a busca dele.
E fomos até o fim do nosso pré-natal, ele me incentivava a todo o momento a buscar pelo meu parto, que o parto normal depende principalmente da vontade da mulher. Naquele momento, depois de muita leitura eu já desejava meu parto domiciliar, tentava encontrar uma forma em minha cidade, mas não conseguia traçar um plano B seguro, já que a única maternidade da cidade não me passava nenhuma segurança.
Em um momento começaram aparecer alguns anjos no meu caminho, quando estava com 31 semanas comentei em um relato de parto na comunidade Rodaviva, onde uma mulher tinha saído de Ilhéus para parir em Salvador e me identifiquei muito com isso, e a elogiei e disse o tamanho do meu desejo. Então, Liza, uma das moderadoras da comunidade, me respondeu de uma forma muito solicita e começamos a conversar... Ela se colocou totalmente disponível a me ajudar a realizar meu sonho, me indicou uma equipe maravilhosa em Salvador e me encorajou a buscar minha ida para lá, para parir da forma que eu desejava. Assim entrei em contato com o Tanila (EO), me lembro como hoje, ela estava em um parto e que assim que saísse ela me falava, assim aconteceu.
Eu liguei e ela resumidamente me contou como normalmente acontece no PD, adiantou um pouco o que seria preciso, sobre consultas, exames e plano B e uma frase me marcou muito, quando ela falou: “Assistir parto é tudo que eu sei fazer na minha vida, se me tirarem isso eu não faço mais nada.” , dali eu tive a certeza que era ela. Marcamos um encontro no início de Julho.
Liza me indicou também Mariana Freitas como doula, que me abraçou logo de início e foi essencial em todo o processo.
A todo momento meu marido me apoiou na minha decisão e foi fundamental para que tudo acontecesse, porque a cada barreira que aparecia e eu pensava em desistir ele me dava forças para seguir em frente, assim como minha mãe que a todo momento me apoiou de todas as formas a buscar um parto respeitoso e com segurança. E era isso que eu precisava, decidimos que seria mesmo em Salvador o meu tão sonhado parto, na casa da minha irmã e fotógrafa Milena Palladino.
Na primeira conversa com Tanila, informei sobre meu problema de pele, sou portadora de Epidermólise Bolhosa, uma doença hereditária que torna minha pele muito sensível, o que eu já sabia que não era um impedimento para um parto normal, mas que seria um prato cheio para uma indicação de cesárea. No entanto ela me apoiou e foi em busca de estudos sobre meu problema, buscou especialistas para conversar e me deixou completamente segura, mais uma vez.
Então no dia 19 de julho, com 37 semanas fui definitivamente para Salvador para esperar com calma a hora que minha princesa resolvesse chegar, estava tranquila, sem ansiedade, apenas com receio que não desse tempo do papai e vovó chegarem. Uma semana depois minha mãe já veio, para me ajudar nos últimos dias, afinal o peso já não me dava tanta mobilidade, apesar de estar bem disposta. Dia 8 de agosto Matheus chegou, para passar o dia dos pais, naquele domingo completava 40 semanas, todo mundo apostava que ela estava esperando para vir de presente, mas não foi.
Na segunda feira, dia 10 de agosto perdi meu tampão mucoso, avisei a Tanila, era apenas um sinal, mas ainda poderia demorar e assim se passou a minha quadragésima semana, sem nenhum outro sinal aparente, Nina sempre sendo monitorada sempre. Na sexta (14) fizemos uma USG para avaliar o líquido, ela nos mostrou a nossa pequena muito saudável, encaixadinha, como já tínhamos notado no exame clínico, o liquido excelente.
O exame serviu para nos tranquilizar, assim como toda a família e amigos que já estavam impacientes, afinal, onde já se viu uma gestação de 10 meses??? Difícil explicar a contagem de semanas para “não grávidos”... Detalhe, ninguém (além dos envolvidos) sabia de fato que o parto seria domiciliar, esperavam que fosse no hospital. Todas as apostas do dia que ela viria já tinham se esgotado e nada de Nina, mas todo dia eu conversava com ela que fosse quando ela quisesse, eu estava ali para esperá-la!
Na segunda-feira (17), já que havíamos entrado nas 41 semanas, fomos realizar uma cardiotocografia, Nina estava ótima. Saímos do exame resolvemos ir andar para ver se ela resolvia se animar, já estava sentindo um dor bem incomoda na lombar, mas totalmente suportável, para mim, nada que não fosse muito dolorido seria sinal de TP. Voltamos para casa, ficamos assistindo TV, quando por volta de 23:30, me levantei para ir no banheiro, sentindo uma cólica bem diferente, e senti a calcinha molhar, quando cheguei no banheiro vi que a bolsa tinha estourado, líquido rosado!!
A adrenalina tomou um pouco conta de mim e pensava: “Chegou a hora minha filha...”, mas tentei manter a calma. Avisei a Tanila e Lorena, Lore me passou todas as orientações, depois de me perguntar tudo a respeito do tal líquido, agora era, tomar banho, colocar absorvente pós parto e tentar dormir, o máximo que pudesse enquanto as contrações não engrenavam. Sempre me lembrando do mantra: “Espero, confio, aceito, agradeço.”. A natureza é perfeita, e sabia que Deus não me abandonaria, seria tudo no tempo dEle e dela! O ideal naquele momento era perder o controle de tudo. Assim foi, Matheus e minha mãe foram inflar a piscina e preparar a casa para a chegada dela.
Consegui dormir por volta de 1 hora da manhã, com as contrações já iniciando, mas bem fracas, às 3 acordei com dores mais intensas, me levantei e fui para o sofá, onde empilhei as almofadas que me permitiam encostar e descansar nos intervalos contrações. Quando deu 5 horas, já não conseguia mais descansar, comecei a conversar com minha doula, Mariana Freitas, por whatsapp e cronometramos as contrações que já vinham de 5 em 5 minutos, cada vez mais intensas, ficamos até as 6, quando ela foi ajeitar o filho para escola para ir para minha casa.
Acordei meu marido e fui para o chuveiro na bola, aliviou um pouco, mas não conseguia encontrar posição confortável. Minha mãe acordou, falou com minha irmã, Milena, que já estava a caminho com Michele, que juntas fotografaram o meu parto. Mari chegou e a partir daí já não tive mais controle da duração dos eventos.
Durante toda minha gestação planejei o meu parto, mas jamais idealizei ou romantizei. Me preparei para um trabalho de parto longo e difícil e apesar de perceber que estava evoluindo rápido, tentava tirar aquilo da minha cabeça, pois poderia ser apenas impressão.
Não conseguia mais achar uma posição que fosse confortável, nem sentada, nem na piscina, nem no chuveiro, só conseguia ficar bem andando muito. Mari avisou a Lorena que realmente estava em TP ativo e logo ela chegou e começamos a ser monitoradas, minha bebê estava ótima e eu, apesar das dores, também. Sentia muito calor, queria ficar em frente ao ventilador, passava gelo na barriga, queria até entrar na geladeira. A partir daí não tenho mais noção do tempo, sei que realmente as dores estavam intensas, mas em nenhum momento pensei em desistir.
Um pouco mais tarde Tanila chegou... Me deu aquele sorriso que me arrepio só de lembrar, me veio na cabeça tudo que tinha passado para chegar ali, tantos obstáculos enfrentados, tantas batalhas vencidas e faltava aquela para me tornar mãe e começar outras infinitas. Tani conversou comigo e me propôs entrar na piscina de novo, para ver se eu conseguia relaxar e deu certo... Apesar das dores aumentarem a cada contração, ali eu encontrei uma paz entre elas, parece que havia chegado a tão falada PARTOLÂNDIA!!! Realmente saímos da gente entre um cochilo e outro, havia todo mundo sumido, só ficado eu, meu amor e nossa filha... E foi um momento nosso! Não houve conversa, nem toque, apenas o silêncio e a sensação de que estava cada vez mais perto do nosso encontro. Aquele momento foi incrível, não sei dizer quanto tempo durou, na hora sentia muita dor, mas hoje não me recordo dela, apenas da felicidade que sentia em poder viver aquilo.
Logo veio a vontade de fazer força, sentia arder, Tanila se posicionou na beira da piscina e a sua presença e tranquilidade era melhor do que qualquer analgesia me passava força, por mais que não me desse a certeza de que estava acabando, eu sabia que estava tudo bem.
A dor de nos transformarmos em duas foi muito grande, mas nada se compara ao prazer e emoção de trazer minha filha ao mundo, da forma que tanto desejei. Foi ali, na sala daquele apartamento, no mesmo lugar que descobri que estava grávida, que dei a luz a minha filha... Em algumas contrações ela foi recebida por seis mãos, as minhas, as do pai e as da nossa parteira que nos auxiliou a tirar a circular (pelo menos tentou, rs). Da forma mais linda veio para os meus braços e pude abraçar e beijar e ter a sensação de matar a maior saudade que já havia sentido, mesmo sem conhecê-la antes. Ficamos ali, nós três nos conhecendo por alguns minutos. Depois fui para a cama, para expulsão da placenta, que não demorou muito. Papai cortou o cordão e Nina foi ser examinada, sempre com ele e vovó perto, enquanto eu era avaliada.
E assim ela nasceu, dia 18 de agosto de 2015, às 13:33, como ela quis e nasceu junto com ela uma mãe, um pai(novamente), uma avó, uma tia... E tenho certeza que todos que estavam lá renasceram conosco...
Foram 41 semanas e dois dias de gestação, uma circular de cordão, uma mulher pequena portadora de Epidermólise Bolhosa e muita força de vontade para enfrentar um sistema inteiro! Não me considero melhor nem pior do que ninguém... Respeito todas as opiniões, mas eu fui atrás do que EU queria para mim e minha filha, o que eu considerava melhor para nós. Quando me falam que fui corajosa, me lembro de uma frase que li em um dos muitos relatos de parto, desculpe não me lembrar a autora, mas dizia assim: “Coragem eu precisaria para perder toda a magia que vivi. Para parir precisei apenas de respeito e amor.”
Quero agradecer imensamente a todos que me incentivaram e ajudaram a viver esse momento... Ao meu marido que sempre me apoiou e fez que o meu sonho fosse o nosso; à minha mãe que me apoiou e fez tudo para me acompanhar, o que fez toda diferença; à Liza, que me fez enxergar as possibilidades e me apoiou sempre, à Mari Freitas, minha Doula que se tornou amiga, que esteve ao meu lado e me lembrava o quanto eu busquei aquilo; à Grão (Milena Palladino e Michele Perroni), pelo registro, por me ajudar a recordar todos os momentos que eu vivi através de lindos registros; à minha equipe linda, Tanila e Lorena, minhas parteiras arretadas!! Vocês são demais! Gratidão por todo o respeito...; à Deus e Nossa Senhora do Bom Parto, por ter me amparado e abençoado o dia mais lindo da minha vida; e por fim à Minha Nina, por ter me escolhido para ser sua mãe, por ter me ajudado a todo instante e me mostrado o maior de todos os sentimentos do mundo!