08/05/2026
Autorretrato: Costura em corpo metamórfico com desejo de voo. Bahia, 2026. 🖤🗝️
Já não me lembro quando foi que escrevi essa poesia, talvez em 2016? 2019?… apenas me recordo de sentar no chão da sacada de um apartamento alugado numa cidade grande para costurar palavras nas notas de um antigo celular. Alguma coisa acontece quando estamos com tempo de sobra e nos rendemos as fracassadas tentativas de interpretação de nós mesmos. Mas apesar de não lembrar quando escrevi, decorei as palavras como se cada letra também tivesse sido costurada numa memória a prova de tempo. Sinto como se guardasse cartas poéticas dentro de mim, bagunçadas nas gavetas do peito, como quem sente vergonha de revelar os seus segredos… e receio ser esse, o primeiro fetiche de quem escreve.
E como quem fotografa, mas não se contenta em apenas fotografar, escolhi transmutar uma fotografia através do fogo, porque nesse dia também estava com tempo de sobra, e curiosa para quem sabe, descobrir qual é a linha que divide um ato sutil de destruição de uma tentativa desesperada de ressignificar outra memória, ou de ver até onde ela resiste. O autorretrato desse fotografama aí, eu acho que tirei em 2023, de novo não me recordo a data, mas lembro de me incomodar com o frio e a textura do tapete do piso carimbando minha pele enquanto me aconchegava no chão de um outro apartamento alugado no centro dessa mesma cidade.
Sem muita explicação, carrego comigo uma caixa onde guardo restos cuidadosamente selecionados que parecem me pedir para falar através deles um dia. São folhas secas, pedras, cacos de vidro, borboletas… um mortuário de evanescências da vida que estranhamente parecem me implorar para voltar a vida de novo. Receio ser esse, o último fetiche de quem cria.
[continuação da legenda nos comentários (fetiche de quem posta?)]