16/04/2026
Quando falo que fotografo em analógico, a maioria das pessoas acha que é estética. Que é pelo grão, pelo tom, pela “vibe retrô”.
Não é isso.
Existe algo diferente quando a fotografia desacelera.
Essa imagem nasceu de um processo que exige tempo, intenção e silêncio. Foi captada com uma câmera da década de 50 , um equipamento que não perdoa pressa e transforma cada clique em decisão, pois você só tem uma foto carregada, duas no máximo se o chassi estiver carregado com duas folhas, mas é isso no máximo dois cliques.
Com a câmera 4x5, não existe “tiro e vejo depois”. O processo começa muito antes da foto. Antes mesmo de sair de casa. Eu preparo o chassi com duas folhas em uma salinha escura. No momento da foto, monto o equipamento, abro o fole, foco de cabeça para baixo num vidro fosco — a imagem aparece invertida, escura, viva. Leio a luz. Calculo. Escolho. Só então carrego o chassi com a folha de RX na camera e faço o clique.
Um clique. Só um.
Aqui, nada é automático.
O foco é construído milimetricamente.
A luz é medida com precisão quase tátil.
E o instante… ele precisa ser sentido antes de ser registrado.
A fotografia foi feita em folha de RX, um suporte pouco convencional, que carrega texturas únicas e uma resposta à luz impossível de replicar no digital. Depois da captação, começa outra etapa igualmente artesanal: o processo de revelação manual, onde cada variável — tempo, temperatura, química — influencia diretamente no resultado final.
E só então, essa imagem atravessa o último estágio: a digitalização. Um encontro entre o analógico e o contemporâneo, preservando imperfeições, densidade e toda a história que aquela imagem carrega.
Mais do que uma fotografia, é um processo.
Mais do que um processo, é estar completamente presente em todos os momentos.
O analógico ele exige tempo, observação, escolhas, pausa, escuta. E levo isso comigo também para o digital, estar completamente presente. E isso aparece na foto.
As últimas fotos foram feitas em filme 120mm pb