João Gabriel Barreto

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30/03/2016

Olá, amores,

Desde outubro do ano passado, eu venho desenvolvendo o projeto Limites Humanos, como uma forma de contribuir na (auto)reflexão sobre os padrões de beleza corporais e, consequentemente, na melhora da nossa autoestima. Foquei intensas horas com cada modelo, ouvindo e prestando atenção a cada fala e cada gesto. Posso dizer que não me arrependo de dar início a essa jornada não só artística, mas também emocional e espiritual. Sou profundamente grato a cada uma das pessoas que dedicou seu tempo a ir até minha casa e falar sobre sua vida comigo. E fico imensamente feliz em receber mensagens com palavras de gratidão pelo trabalho feito.

No entanto, devo confessar que esqueci da minha própria saúde emocional nos últimos 6 meses. E é dela que pretendo cuidar daqui pra frente. No início, foi uma luta interna para realizar coisas diárias, ir a eventos, encontrar os amigos e até produzir meus trabalhos acadêmicos. Agora já me sinto muito melhor, mas ainda muito sobrecarregado e precisando de um tempo. Por isso, peço, em primeiro lugar, desculpas por não ser capaz de levar esse projeto adiante no momento e, também, digo que sou muitíssimo grato a todas as pessoas que se envolveram com ele de alguma forma. O Limites Humanos não acaba aqui, só vai dar uma pausa e volta mais à frente :)

Obrigado mais uma vez 💜

Beijos,
João

Limites Humanos  #38"o agora quase consegue escondero que a lembrança faz questão de manterque o menino nao foi carinhos...
20/03/2016

Limites Humanos #38

"o agora quase consegue esconder
o que a lembrança faz questão de manter
que o menino nao foi carinhosamente chamado de queijão
porque comia feliz passando com manteiga no pao
que também não ofereciam sutiã para ser uma tendência,
quem sabe... amanhã?

o agora quase consegue apagar
As conversas forçadas com a privada depois do jantar
que não eram tratadas com eno guaraná
nem ao mesmo com chá de ervas para hidratar

o agora quase consegue tingir
de aceitável o fio que não quer cair
a pinta que não quer sair
as amarras que nao se pode partir

mas o agora deve servir
para acabar com essas ideias loucas por aí
que é preciso ser esse padrão
que não nos serve
que impõe identidades que não nos pertecem
E forjam cicatrizes permanentes

É preciso
Organizar
A luta
Pela nossa
Libertação"

Limites Humanos  #36 e  #37"Ouvindo frequentemente desde muito novo que eu precisava me impor mais, falar pra fora, estu...
18/03/2016

Limites Humanos #36 e #37

"Ouvindo frequentemente desde muito novo que eu precisava me impor mais, falar pra fora, estufar meu peito, ter mais presença e ser mais firme, acabou surtindo o efeito contrário. Cresci mais introvertido, me afundando em mim mesmo e me sentindo uma decepção por não conseguir ser o que era esperado de mim. Cresci pedindo desculpas por estar ali, por ser assim, por não conseguir mudar e não conseguir me encaixar, ou com palavras ou com uma expressão corporal dizendo sempre “eu não tenho confiança em mim, você também não precisa ter”. Pedi desculpas a vida inteira por querer ser aceito.

Minha adolescência foi o momento da minha vida em que eu passei a perceber meu corpo e a compará-lo com outros corpos, e isso só piorou tudo. Ter um buraco no meio do peito (Pectus Excavatum, pros íntimos) atraiu uma cota nada saudável de implicâncias e espanto e isso só aumentou minha autopercepção de decepção ambulante. Por isso andava SEMPRE de camisa, com dificuldades de tira-la até em casa, sem ir à praia, sem ir à piscina, sempre me escondendo, sempre me desculpando. Veio a terrível acne, veio a percepção de que minhas orelhas eram grandes demais, de que eu era magro demais, tinha a postura torta demais, perna fina demais, e por aí foi até o ponto em que eu mesmo passsava a produzir todo o tipo de comentário depreciativo antes que qualquer um tivesse a chance de me criticar. Me tornei meu próprio obstáculo, meu maior inimigo.

Crescer e se encontrar é muito mais difícil do que se afundar nos próprios pensamentos destrutivos, mas acho que eu tô no caminho certo. Ao longo do caminho, as coisas boas aparecem e as pessoas boas também, e eu digo a mim mesmo que eu preciso me cercar de amor e de gente que me ama, e assim eu consigo afastar todas as minhas inseguranças e aceitar meu corpo, f**ar de bem comigo mesmo e com a vida, que não é perfeita, mas tá cheia de amor :)"

Limites Humanos  #34 e  #35"É muito estranho quando você se conhece mas não se reconhece. Muitas vezes quando me olhava ...
14/03/2016

Limites Humanos #34 e #35

"É muito estranho quando você se conhece mas não se reconhece. Muitas vezes quando me olhava no espelho eu sentia que não era aquela pessoa. Essa sensação é uma das várias que – não lembro quando começou mas sempre me fez ter aquelas ânsias de ser "normal que nem as outras pessoas" – e que n i n g u é m avisa que é pura mentira. Uma das primeiras vezes que o conhecer e reconhecer se encontraram foi quando decidi raspar a cabeça pela primeira vez. Ouvi que era radical demais e que não era coisa de menina e, com cada desaprovação eu tinha mais certeza que era isso que eu precisava fazer para ter aquele gosto de liberdade.

Quando se passa a vida não admitindo o que realmente acontece, a sua versão de você é apenas um fragmento e muitas vezes se torna só aquilo que é real. Eu nunca soube como explicar isso com palavras, elas sempre foram meu escape para o humor e a amenidade. A escolha que me sobrou foi parecer, para que um dia eu conseguisse entender.

Não foi e não é fácil lidar de dentro pra fora, mostrando um pouquinho de toda a loucura que f**a enclausurada na mente.

Vale bem mais a pena que manter tudo guardado e na espreita. Vale bem mais a pena lutar por si e pelazamiga sendo o mais próximo de você que se pode ser."

14/03/2016

Antes de postar a próxima foto, queria compartilhar com vocês algumas coisas. O projeto "Limites Humanos" foi apresentado como projeto final da disciplina de fotografia, pro meu curso de Comunicação Social, e recebeu nota 10. Eu não poderia deixar de comentar o quanto eu fiquei orgulhoso, saltitante, feliz, revigorado, entre tantas outras emoções boas que me vieram à cabeça com isso. É muito gratif**ante perceber que pude criar um espaço em que as pessoas pudessem se permitir sentir suas próprias emoções, contar suas histórias, compartilhar um pouco da dor e da alegria que é viver. Em um mundo que nos pressiona a ser fortes o tempo todo, exibir fraqueza é ato de coragem. E, por isso, queria dizer que esse projeto tem me salvado psicologica e emocionalmente. Os últimos meses se transformaram em um esforço emocional muito grande pra mim e doar meu tempo, meu olhar, meus ouvidos e compartilhar meus sentimentos mais tenebrosos com essas pessoas é o que me permite seguir esperançoso de um mundo em que as pessoas possam sentir, se sentir confiantes, se amarem, não terem medo de se mostrarem fracas. Obrigado a todos que se envolveram com o projeto de alguma forma.

Um beijo,
João

Fotos não-selecionadas de algumas modelos já fotografadas. Um viva à luta de todas as mulheres e, sobretudo, na tentativ...
09/03/2016

Fotos não-selecionadas de algumas modelos já fotografadas. Um viva à luta de todas as mulheres e, sobretudo, na tentativa de amarem seus corpos todos os dias

Motivos pelos quais eu continuo fotografando 😭💜
08/03/2016

Motivos pelos quais eu continuo fotografando 😭💜

Limites Humanos  #32 e  #33"Durante muito tempo da minha vida eu vivi em solidão. Boa parte da minha infância sem poder ...
07/03/2016

Limites Humanos #32 e #33

"Durante muito tempo da minha vida eu vivi em solidão. Boa parte da minha infância sem poder brincar direito, sem conseguir criar muitos laços de amizade. Quando tive que largar as rédeas de uma micro interação, que eu basicamente tinha com as mesmas pessoas desde que nasci, tive que me inventar, criar um alguém que fizesse com que gostassem de mim, afinal era o que eu tinha, ou me aceitava só, pois achei que assim seria. Me perdi no que eu era, me perdi quando assumi parte de mim, fui rejeitada por parte da família, por pessoas que estavam comigo. Era difícil conseguir focar numa vida quando tudo que foi criado era só uma impressão, no fim era só abandono é mentira. Durante mais de um ano tentei me livrar de mim. Meu corpo tem as marcas. Marcas nos meus braços, do meu corpo que emagreceu pela rejeição a ele mesmo, pela minha mente que rejeitava minha existência e o medo continuo de que as pessoas vissem que eu era uma farsa criada pelo medo do abandono. Não tinha amor que me salvasse, não tinha abraço que ajudasse. Pelo menos eu achava, até porque normalmente eu não sentia que era a mim que qualquer carinho era dado.

Quando tava no fim do meu processo de auxílio médico,o qual eu fiquei boa parte do meu ano de 2013, meu psicólogo disse "você não precisa mais de mim, você sabe se entender muito bem"
infelizmente não adianta eu me entender muito bem ou saber tudo que eu precise quando o mundo não sabe me entender e lidar comigo.
O problema não sou eu, não são meus irmãos e irmãs, é a forma com que é feito eu me odiar e odiar a quem é igual a mim.

Durante muitos anos vivi destruindo a mim mesmo pelo simples fato de não querer aceitar quem é o que eu era, é mais uma vez eu digo que não é culpa minha, e sim de um sistema de proteção e criação que me forçou a suprimir tudo. O amor pode existir mas ele vive numa forma tão danosa que me impede de senti-lo e tive uma criação de dependência que me fazia omitir. E não posso culpar totalmente quem fez isso comigo, essas pessoas foram vítimas disso também.

Homem ou mulher? Você f**a com quem? Você gosta do que? Por que você não se veste igual a um menino?
Não sou menino, não sou menina.
Sempre me doeu essa dúvida em mim, e ela é de conhecimento público, mas o público não nos poupa porque ele precisa decidir os outros para se decidir.De onde eu venho, eu sou b***a, e b***a morre espancada, empalada, morre pela rejeição verbal. Doi eu mesmo não saber quem sou para classif**ações sociais, para dar uma satisfação. B***a vem a esse mundo infelizmente sofrer. Se eu falhar na norma, morro para pelo menos morrer como vim ao mundo, isso erradica a dúvida, pelo jeito. O grande mundo bonito e cheio de entendimento pode parecer que sabe tudo, mas só de saber o que sou e de onde venho, parece perder todo seu entendimento e parte para o ataque porque eu destruo as suas cabeças.

Muitas vezes temos que ser nossa própria fé, nossa própria verdade, pois não sabemos quem pode nos ajudar, afinal aprendemos que tudo que somos é ruim, é mentira, é desvio. Viramos pessoas cascudas, duras, com medo de amar, de receber amor, mas é isso que a gente quer. A gente quer existir, quer ter reconhecimento, mas para minha gente, não vai ser só com amor que isso vai acontecer. É muito suor e sangue. Meus irmãos e irmãs morrem por aí sem nome, sem família, sem nada. E eu estou aqui, viva, e estou aqui para lutar enquanto respirar.

Eu não quero ter limites para existir, já me foram tirados demais. Já foi tirado tudo da minha gente. Agora vamos extrapolar tudo."

Limites Humanos  #31"Como pensar e falar sobre os limites humanos, principalmente na minha vivência? Não sei ou não sabi...
01/03/2016

Limites Humanos #31

"Como pensar e falar sobre os limites humanos, principalmente na minha vivência? Não sei ou não sabia. Decido por inverter a pergunta e falar dos enfrentamentos aos limites humanos. Isso. Pelo menos foi isso que passei e passo. Prefiro começar assim...

Acredito que meu primeiro limite humano foi o de gênero e descobri que nunca me conformei com o gênero que me deram: menino/homem. E isso desde criança. Lembro-me de pequeno falar para minha mãe que eu queria ser uma menina, não gostava daquilo de ser menino. Resultado? Terapia. Para entender o que era aquilo. Cresci e descobri o que sempre soube, não era menino, mas também não era menina. Meu corpo gritava por explorar todas as possibilidades plurais que meu corpo poderia viver, ser, estar, fazer, conquistar, superar as limitações não só físicas, mas culturais e sociais.

Outro limite foi um que infelizmente é bastante comum entre os LGBTIQ+ e que nos últimos anos é o que mais tem matado jovens pelo mundo: a depressão. Também começou bem jovem e veio de maneira caótica. Briga com amigos, descobertas se***is, rejeições ao corpo, familiares. Até os limites passarem a ser vida e morte, existência corpórea, falta de vontade de viver, ansiedade para tudo. Medos. Como alguém supera isso tudo? Terapia? Remédios? Passei por eles. Acredito que não funcionou comigo. Sabia que precisava encontrar em mim, no autoconhecimento e amor próprio o necessário pra começar a longa jornada de superação. Consegui muito através da minha arte e principalmente pela Dança. Também conhecendo pessoas que passaram pelo mesmo, conversar, debater, impor-se. Afirmar convicções, pensamentos, expor problemas na esperança de não só resolver, mas achar semelhantes de luta. Assim, poder achar um caminho para se libertar dos diversos pensamentos e atentados contra a vida e a saúde que surgia e também ajudar a outres.

Mas um terceiro grande limite me apareceu e a Dança infelizmente começou a falhar na ajuda. Quando descobri minha soroconversão foi um choque. Pareceu que muitos anos de trabalho contra tudo de ruim foi jogado fora. Começa como um pensamento de punição, de derrota, quase a porta final. Um limite muito forte. Um limite que é preciso muita força para ser superado. Um tabu.

No inicio, foi tudo sozinho, na encolha, mas você começa a se afundar e se não tem ninguém você vai. Literalmente morre sozinho. E isso não aceitaria de novo. E precisamos começar a gritar, falar e expor sobre. A falta de representatividade é o pior e isso é sempre algo que incomoda. Então você pensa,
eu serei minha própria representatividade. Eu darei a cara à tapa. Levantar e começar a se por sobre. Porque muita gente fala, muita gente sabe muita coisa, outras nada, e a velha historia do “e se fosse seu filho? Ou seu amigo?”. E assim você começa a não só se empoderar como começa a criar e se tornar um símbolo de luta e a deixar de segurar pesos sozinho. Começa a perceber também quem realmente está ali por você. E aquela pessoa está não só por você, mas por ela mesma, pois ninguém está livre de se contaminar. Como sociedade temos responsabilidades sobre o outro também para que tenhamos por nós. Isso que nos põe como unidade. Mas antes de tudo, precisamos falar sobre isso..."

Limites Humanos  #30"A imagem que construí de mim mesmo é uma imagem triste, de alguém que aprendeu que não devia se per...
25/02/2016

Limites Humanos #30

"A imagem que construí de mim mesmo é uma imagem triste, de alguém que aprendeu que não devia se permitir achar bonito. É a imagem de uma pessoa que passou a adolescência ouvindo todo o tipo de zombaria e gracinhas possíveis, alguém que sempre era humilhado e menosprezado por ser gordo, ser estranho, não ser como todos os outros caras que eram venerados no colégio. Cresci aceitando que por ser gordo, tímido, peludo, eu era uma pessoa que merecia ser infeliz, ser sozinha, e que deveria ser invisível para não atrapalhar as pessoas que realmente importavam. Não permitia que ninguém se aproximasse de mim, porque certamente seria para me zoar, ridicularizar e me deixar mais mal. Fiz poucos amigos, não gostava de sair muito, e quando saía era sempre o cara que f**ava apagado e ninguém olhava, ou olhavam dando risadinhas.

Na minha mente, a única maneira de uma pessoa ser considerada bonita era sendo magra, ou forte. Comecei a me forçar a emagrecer, parando de comer, f**ando as vezes dias seguidos sem me alimentar, comendo só maçãs, tomando só líquidos, tentando de algum modo conseguir me livrar do que impedia as outras pessoas de me acharem visível. Tive vários problemas, desmaios, fiquei fraco, e mesmo assim não consegui chegar ao peso que achava que deveria ter. Perdi muito peso, mas continuei gordinho, com barriga, peitos, e sempre me deixou muito triste.

Desisti e aceitei que ser magro não era para mim. Entrei na faculdade, me aceitei enquanto minha verdadeira orientação, comecei a ver e viver outros mundos, mas ainda assim sentindo que eu não era alguém visível. Comecei academia, comecei dietas loucas, e mesmo assim, não conseguia emagrecer. Continuei sendo o cara gordo. E isso refletia na minha vida emocional, sendo sempre o cara que só levava foras, o cara que ninguém queria, ou f**avam depois de já ter desistido dos outros. Minha auto estima, desde que me entendo por gente, é completamente destruída. Cansei de me olhar no espelho e chorar. Cansei de entrar em pânico quando me chamavam para ir a praia. Não conseguia usar camisetas, nem roupas brancas. Tirar a camisa era para mim algo impossível. Não queria expor as pessoas a minha imagem, nem ouvir mais piadas. Sempre me sentia como o cara mais horroroso, o mais desinteressante, o que nunca ninguém ia olhar. Perdi a conta de quantas vezes chorei pensando em porque eu era assim, porque tinha barriga, porque não podia ser “sarado” como todos os outros caras.

Mas graças a algumas pessoas maravilhosas que conheci, conversas, muitas e muitas, vocês hoje podem ver essa foto. E podem me ver na praia. Podem me ver andando de camiseta na rua. Ainda não é fácil. Quando recebo elogio, ainda acho que é alguma zoação, ainda vivo num constante drama de não conseguir olhar no espelho e me sentir bem, me sentir bonito, ainda acho que sou um cara invisível as vezes. Têm dias que estou bem, consigo relaxar e curtir. Mas muitas vezes bate ainda medo, e penso em coisas do passado, penso se não estou passando vergonha, se não devia f**ar em casa e não me expor.

Mas estou tentando dar o passo pra me libertar, tentando ignorar a pressão que nos fazem para sermos magros. Tentando seguir, aceitando que esse sou eu. Eu sou esse cara com curvas aqui, e isso não pode me fazer menos do que ninguém. Isso não me faz feio. Isso não é uma vergonha. Isso faz eu ser quem sou. É uma luta muito grande, que muitos as vezes nunca sequer imaginaram. Pensar em mil coisas só pra por uma camiseta e sair, ou tirar a camisa e pegar uma praia. Espero um dia me libertar de vez e desconstruir o monstro que me fizeram acreditar ser, me olhar e não ter medo, vergonha, e me sentir feliz, bem, em paz."

Limites Humanos  #29"Quando me foi feito o convite para participar desse ensaio me encontrei em um abismo que pensava já...
22/02/2016

Limites Humanos #29

"Quando me foi feito o convite para participar desse ensaio me encontrei em um abismo que pensava já ter passado por cima e tapado com tábuas e pregos para não voltar mais ali. Abismo que mantém uma placa em azul da Prússia com a sigla C.O.R.P.O. E confesso que essa sigla sempre me deu mais medo que a profundidade do buraco, já que, para mim, esse tamanho, depende do quanto cada um consegue cavar.
Cavei muito. E muitas pessoas, algumas até amadas por mim no passado, me ajudaram a cavar ainda mais. Ouvi de amores que eu era gordo demais. Ouvi que minha barriga era algo incômodo para a instituição C.O.R.P.O e que as minhas ações estavam negativas na empresa T.E.S.Ã.O LTDA. Acho que fracassei nesses negócios, realmente não dei conta. Vivi e vivo em um corpo que não atrai, que não oferece, que não vinga.
Meu cabelo poderia ser mais liso? Minha barriga menor? Minhas pernas mais rijas? Não sei o que sou; e nem mesmo posso me comparar à Teresa de Manoel emprestada de Castro, pois ela, é uma estranha muito linda e universal. Sou aquilo que resta.
Bom, eis aqui um dos fracassos que restam da C.O.R.P.O, que apesar de toda a dor, usou esse ensaio para tapar de vez aquele abismo do passado."

Limites Humanos  #28"Até os 4 anos eu era uma criança que achava apenas era uma criança como qualquer outra até que me a...
20/02/2016

Limites Humanos #28

"Até os 4 anos eu era uma criança que achava apenas era uma criança como qualquer outra até que me avisaram que eu era diferente.
- GORDA! - outra criança de 4 anos gritou para mim.
Sim, eu ainda lembro. Lembro mesmo que em flashs, mas eu lembro. Lembro que a agressividade era tanta que eu já achei que era algo ruim, tão ruim que eu deveria mudar. A partir daí não foi só essa criança: foram outras crianças, foram adultos, da família ou não. Não gritavam "gorda" mas falavam que ser aquilo era ruim. Cresci achando que eu tinha um defeito e que eu não conseguia corrigi-lo. Falavam que eu não tinha "força de vontade", que eu era preguiçosa, era só fazer dieta X ou Y que a minha vida iria mudar. A adolescencia estreou da forma mais cruel possível: o bullying era tão intenso que eu me escondia na biblioteca do colégio para ninguém me achar. Meu primeiro beijo foi uma situação forçada, foi visto como piada. Chorava todos os dias. Desejava emagrecer como forma de vingança: "quando eu f**ar bonita, vocês virão!", ou seja, me submeter a pressão deles, na minha cabeça, era se "vingar". Foram milhões de idas a médicos e nutricionistas, broncas sobre eu estar errada sobre ter o meu corpo, que deveria me eu exercitar. Não lembro de ninguém me perguntar como eu me sentia com aquilo, o que interessava em mim era somente números e que quanto menos os números, melhor minha saúde. Saúde para o OMS (Organização Mundial de Saúde) signif**a "situação de perfeito bem-estar físico, mental e social", ou seja, mental e social ninguém ligava. Ao me exercitar o ambiente das academias também me excluia: poderia ser dança ou esporte, eu era excluida. Tomei remédio para emagrecer, muitas dietas, efeito rebote do remédio para emagrecer, engordei ainda mais. Cheguei a pensar em deixar de fazer faculdade de enfermagem ou de qualquer curso de saúde por ser gorda, mesmo sendo a minha vontade. Cheguei na vida adulta assim: me odiando. Anos e anos de cultivando um auto-ódio, na esperança de um dia ainda ser magra e consequentemente feliz. Até auto-mutilação eu cheguei a fazer, de tanto ódio que eu acumulava dentro de mim. Para piorar, ainda sofri um acidente de carro que me deixou cicatrizes, me sentia mais feia ainda. Ao 20 comecei a desenvolver psoríase, outra doença que afeta a pele. Me sentia nojenta até que resolvi dar um basta: resolvi me empoderar! Com a entrada na universidade e na internet eu conheci muita gente boa, gente que me ajudou a descontruir esse ódio que estava em mim, gente que me fez entender um pouco mais as razões dessa sociedade ser assim. Eu comecei a entender que não era eu que deveria mudar, e mesmo se eu quisesse: isso é problema meu! Comecei a me entender como dona do meu corpo, que eu posso ser bonita do meu jeito, aliás também comecei a entender que o ser "bonito" não é único, como sempre pregam. Entendi que eu posso ser feliz e que número na balança ou IMC não mede a minha felicidade.
Eu quis fazer parte desse projeto para enterrar de vez o ódio que eu sentia por mim (e as vezes ainda sinto, não nego). Espero que seja o melhor velório de todos, tanto o do meu ódio por mim, quanto o dos gordofóbicos."

Endereço

Rio De Janeiro, RJ

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