25/02/2016
Limites Humanos #30
"A imagem que construí de mim mesmo é uma imagem triste, de alguém que aprendeu que não devia se permitir achar bonito. É a imagem de uma pessoa que passou a adolescência ouvindo todo o tipo de zombaria e gracinhas possíveis, alguém que sempre era humilhado e menosprezado por ser gordo, ser estranho, não ser como todos os outros caras que eram venerados no colégio. Cresci aceitando que por ser gordo, tímido, peludo, eu era uma pessoa que merecia ser infeliz, ser sozinha, e que deveria ser invisível para não atrapalhar as pessoas que realmente importavam. Não permitia que ninguém se aproximasse de mim, porque certamente seria para me zoar, ridicularizar e me deixar mais mal. Fiz poucos amigos, não gostava de sair muito, e quando saía era sempre o cara que f**ava apagado e ninguém olhava, ou olhavam dando risadinhas.
Na minha mente, a única maneira de uma pessoa ser considerada bonita era sendo magra, ou forte. Comecei a me forçar a emagrecer, parando de comer, f**ando as vezes dias seguidos sem me alimentar, comendo só maçãs, tomando só líquidos, tentando de algum modo conseguir me livrar do que impedia as outras pessoas de me acharem visível. Tive vários problemas, desmaios, fiquei fraco, e mesmo assim não consegui chegar ao peso que achava que deveria ter. Perdi muito peso, mas continuei gordinho, com barriga, peitos, e sempre me deixou muito triste.
Desisti e aceitei que ser magro não era para mim. Entrei na faculdade, me aceitei enquanto minha verdadeira orientação, comecei a ver e viver outros mundos, mas ainda assim sentindo que eu não era alguém visível. Comecei academia, comecei dietas loucas, e mesmo assim, não conseguia emagrecer. Continuei sendo o cara gordo. E isso refletia na minha vida emocional, sendo sempre o cara que só levava foras, o cara que ninguém queria, ou f**avam depois de já ter desistido dos outros. Minha auto estima, desde que me entendo por gente, é completamente destruída. Cansei de me olhar no espelho e chorar. Cansei de entrar em pânico quando me chamavam para ir a praia. Não conseguia usar camisetas, nem roupas brancas. Tirar a camisa era para mim algo impossível. Não queria expor as pessoas a minha imagem, nem ouvir mais piadas. Sempre me sentia como o cara mais horroroso, o mais desinteressante, o que nunca ninguém ia olhar. Perdi a conta de quantas vezes chorei pensando em porque eu era assim, porque tinha barriga, porque não podia ser “sarado” como todos os outros caras.
Mas graças a algumas pessoas maravilhosas que conheci, conversas, muitas e muitas, vocês hoje podem ver essa foto. E podem me ver na praia. Podem me ver andando de camiseta na rua. Ainda não é fácil. Quando recebo elogio, ainda acho que é alguma zoação, ainda vivo num constante drama de não conseguir olhar no espelho e me sentir bem, me sentir bonito, ainda acho que sou um cara invisível as vezes. Têm dias que estou bem, consigo relaxar e curtir. Mas muitas vezes bate ainda medo, e penso em coisas do passado, penso se não estou passando vergonha, se não devia f**ar em casa e não me expor.
Mas estou tentando dar o passo pra me libertar, tentando ignorar a pressão que nos fazem para sermos magros. Tentando seguir, aceitando que esse sou eu. Eu sou esse cara com curvas aqui, e isso não pode me fazer menos do que ninguém. Isso não me faz feio. Isso não é uma vergonha. Isso faz eu ser quem sou. É uma luta muito grande, que muitos as vezes nunca sequer imaginaram. Pensar em mil coisas só pra por uma camiseta e sair, ou tirar a camisa e pegar uma praia. Espero um dia me libertar de vez e desconstruir o monstro que me fizeram acreditar ser, me olhar e não ter medo, vergonha, e me sentir feliz, bem, em paz."