20/08/2019
ontem foi dia da fotografia. ontem também fechou uma semana da morte do Seu Lindemberg. Esse poeta, amante da natureza, morreu carbonizado em seu próprio roçado. Encontrado ainda com vida, no hospital não resistiu.
Nossa amiga em comum me contou da sua passagem e também que você lembrava de mim: “onde está aquela menina de sorriso bonito?” Me alegrei e entristeci. Não te fiz saber que você saiu na capa do caderno institucional desse ano da . me arrependo.
Há anos, ele e a esposa se mudaram para a cidade mas não se deu por lá. Sentia falta da roça. Voltou. Desde então morava sozinho perto do Rio São Francisco - ou do que sobrou dele.
Aos 88 anos, plantava, cozinhava, tinha filhos e netos, recitava poesias e contos do campo de cor e salteado, sem nenhuma anotação. Coisas que não estão escritas em lugar algum. Carregava também a tristeza de ver o Velho Chico secar bem diante dos seus olhos, bem ao lado de sua casa. Tragédia anunciada, conhecida e causada pelo poderosos da terra, “os grandes”.
Guardião da natureza, viveu com profundo apreço por ela e sua vida nos convida a um recusa radical a todo progresso que destrói no casa-terra, todo desenvolvimento que atropela as populações tradicionais, a diversidade de culturas, as formas de vida que não enxergam a natureza como fonte de riqueza a ser explorada para acumulação, mas como a própria Vida, sagrada.
Guardião da natureza, em um Brasil de disputas sanguinárias por terra, sua morte explicada por um mero acidente de quem ateou fogo para roçar o próprio terreno não me convence. Mas certamente me movimenta, me tira do lugar.
É preciso ação! O Brasil está em chamas. O tempo é agora. Pobres e indígenas mais ainda massacrados, trabalho escravo tolerado, trabalho infantil relativizado, racismo e machismo ironizados, genocídio negro festejado, bancos sendo salvos, empresas anistiadas, rios morrendo, pessoas soterradas... O TEMPO É AGORA.