29/01/2018
Hora de guardar cada ladrilho em sua respectiva cidade com suas memórias. :)
“Aqui na Igreja de São Sebastião, local que me traz boas lembranças, gostaria de guardar a foto do ladrilho da varanda da casa da minha vó, Maria de Souza Espíndola, como uma homenagem para uma das pessoas mais importantes da minha vida. Para que aqui ela seja sempre lembrada, iluminada e nos ilumine”. Pescaria Brava, 27 de janeiro de 2018.
Na abertura da exposição “Ladrilhos de Santa Catarina” no ano passado em Florianópolis, a amiga Fátima Barreto me perguntou o motivo que levou a fotografar os ladrilhos de Laguna. Esta pergunta me fez refletir e compartilho aqui um pouco desta história com vocês: um dos primeiros motivos que me levaram a querer registrar os ladrilhos foi perceber ao ver fotos antigas e olhar a cidade que seus ladrilhos em breve já não estariam mais pelas calçadas, pois a cada ano as calçadas de Laguna f**am mais cinzas, então o primeiro motivo foi para poder mostrar como eram nossas calçadas num futuro próximo, um segundo motivo foi o visual e estético, agrada-me muito mais uma calçada geométrica vermelha e branca ou preta e branca do que uma toda cinza. Em maio de 2014 numa oficina de fotografia do SESC, ministrada pelo fotógrafo Álvaro de Azevedo Diaz, fui incentivado por ele a continuar fotografando os ladrilhos da cidade, pois a temática era interessante. Com o acervo registrado surgiu a primeira exposição com ladrilhos na instalação “Funeral do Patrimônio”. no Instituto Chachá em 2015. Em 2016 surgiram as exposições virtuais e interativas “100 Ladrilhos” e em 2017 o projeto ‘Ladrilhos de Santa Catarina” teve sua primeira exposição, em maio, no Museu Histórico de Santa Catarina. Neste momento com o questionamento da Fátima, percebi que um dos maiores motivos de continuar a fotografar ladrilhos foi para também guardar as memórias e a lembrança da minha vó. O ladrilho da varanda da casa dela que f**a no interior da cidade de Pescaria Brava foi o que abriu a exposição ao lado do texto de apresentação. Hoje fotografo para guardar para sempre a lembrança de uma das pessoas mais importantes da minha vida, a minha vó Maria.
“Guardar” (por Antonio Cicero)
“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.”
Poema foi extraído do livro “Guardar – Poemas escolhidos” , Editor Record – Rio de Janeiro, 1996, pág. 337.