07/05/2025
A distância exata entre o olho e a alma.
Para fazer essa foto, eu precisei desaparecer.
Sim, tecnicamente, havia ali um plano fechado, uma luz difusa que tocava a pele, uma profundidade de campo rasa, que deixava o bebê leve como um sonho e o olhar da mãe tão nítido que quase fere. A nitidez serve para isso: não para mostrar, mas para fazer sentir.
Mas nada disso seria suficiente.
Essa imagem só nasceu porque, antes de tudo, eu escolhi não estar no centro.
Na fotografia de parto, a câmera é um convite e um limite. Ela se aproxima sem tomar. Testemunha sem dominar.
Para isso, é preciso saber: há imagens que se fazem com o corpo imóvel, o olho aberto e o coração suspenso.
Susan Sontag dizia que fotografar é uma forma de se apropriar do outro.
Mas essa imagem, eu penso, é o contrário disso.
Não me apropriei de nada.
Apenas estive ali, enquanto duas almas se reconheciam pela primeira vez.
Um olhar entre mãe e filho, poucos segundos depois do nascimento, não é apenas um momento bonito.
É um instante de ruptura.
Tudo que era antes ficou atrás.
Tudo que será ainda não tem forma.
Só existe o agora. O toque. A lágrima. O espanto.
E a câmera precisa saber esperar.
Ela não pode pedir, nem interromper, nem explicar.
Ela precisa entender que algumas imagens são como orações: só acontecem se você respeita o silêncio.
Essa mãe não posou.
Ela chorou.
E o choro dela não foi sobre dor.
Foi sobre ver.
Ver pela primeira vez o rosto da filha.
E ser vista por ela.
Isso não se dirige.
Se percebe.
Se sente.
Se recebe como quem recebe um presente que não se pede.
Talvez seja esse o grande segredo:
na fotografia de parto, o que se captura não é a imagem da vida.
É o vestígio do sagrado.
É o corpo como altar.
É o amor em sua forma mais crua, mais despida, mais imensamente simples.
E para isso, eu me preparo com técnica, sim.
Mas também com humildade.
Com o desejo de desaparecer para que a verdade possa aparecer.