Cresci em uma colônia de pescadores, aprendi a surfar com 4 anos, vivia na praia, na época da tainha acompanhava meu avô e meu pai na pesca com canoa na praia da Lagoinha. A pesca da tainha é uma tradição de origem indígena que ganhou a influência dos primeiros açorianos que aportaram na região, evidenciando assim que a pesca e as canoas de um pau já existiam quando os colonizadores açorianos cheg
aram. Deles vieram as melhorias realizadas no principal instrumento para a pesca artesanal que é a canoa, já que uma das muitas habilidades do povo açoriano era o manuseio com ferramentas para a construção naval. Nessa atividade ocorre uma grande aproximação entre familiares, amigos e comunidade, que realizam uma vigília diária na praia, que muitas vezes inicia na madrugada, segue durante o dia e até a noite. Após a captura, o resultado é dividido entre as famílias dos pescadores e ajudantes, moradores ou visitantes, a passeio pela praia, que decidem ajudar na “puxada de rede”. No período entre abril e julho, esses peixes se tornam o objetivo de vida de muitos pescadores nas praias de Floriánópolis. O preparo inicia em abril nos ranchos de pesca quando os pescadores consertam e remendam suas redes, realizam a manutenção das canoas e travam longas conversas, o que demonstra que a amizade é um dos fatores mais importantes da atividade. A partir de maio, tudo pronto, os camaradas ficam a postos a espera do peixe. Algumas funções são pré designadas entre os camaradas, são elas:
Patrão: é a pessoa que expressa todo seu conhecimento da pesca. Ele que determina, que ritmiza as remadas, que ordena a velocidade necessária aos remadores. É dele a comunicação que resultará no cerco. Seu lugar é na polpa da canoa. Chumbereiro: sua função é jogar a rede no mar, rapidamente e, ao mesmo tempo. Tem que ser preciso e sincronizar rede e remo, para que o chumbo não enleie na rede e, tão pouco, a rede passe por cima da cortiça. Remeiros: são aqueles (dois, três ou quatro) que com seus braços fortes conduzem as canoas. Atentos aos comandos do patrão, seguem seguros pelo mar para fazerem o cerco. Com atenção no chumbeiro, diminuem a velocidade, se assim solicitado, para que nada possa atrapalhar a função. Vigia: com olhos grudados no mar, conseguem entender cada movimento da água. Quando avistam o cardume dão sinal (com um pano, camiseta, chapéu ou, como usam atualmente, com o rádio transmissor), avisando a chegada da tainha, e a correria começa. Camaradas: são os que ajudam a colocar a canoa na água quando o vigia dá o sinal. Também ajudam na puxada, e após, recolhem a rede e as colocam novamente na canoa.