02/06/2021
A cada três dias, meu pai faz a barba. Na sua gaveta da penteadeira, pega uma bolsinha velha e suja, toda descascada e leva para o fundo de casa. No meio do caminho, para em frente ao armário atolado de roupas da minha mãe, tira um espelho de tamanho médio para se ver, com moldura laranja e segue para o seu ritual.
Enquanto segura delicadamente a navalha bege em seu rosto, o reflexo do espelho aponta para o pé de uva atrás dele e para a bolsa com seus acessórios aberta. Ali, em cima de um balde vazio, ele m***a seu balcão. Tem a tesoura prata para aparar os cantos do seu ralo cabelo branco, as lâminas novas ainda em suas caixinhas amarelas e a espuma de barbear. A pequena bolsa, que parece uma carteira, f**a paradinha e ninguém pode mexer. Mas o que descobri nos dias em que eu fui registrá-lo em seus momentos cotidianos, é que na verdade eu não podia mexer nos sentimentos que aquela borda descascasda de metal guardava. 💌
É que assim como o tempo que me levou a amadurecer para olhar e acolher a história do meu pai, também revela memórias doloridas. Aquela pequena bolsa não era um simples pertence, mas uma das peças usadas pelo primeiro amor do meu pai, Alaíde. Ela não guardava apenas a navalha antiga, mas as lembranças da jovem mulher de cabelos longos escuros que o deixou há 40 anos. Aquela surrada bolsa também o recorda do motivo que a levou: a temida doença que ele não gosta de falar o nome, mas que surgiu de repente na sua vida, aos 83 anos.
Se a dona Alaíde estivesse aqui, eu não teria nascido. Não poderíamos chamar a atenção do senhor que bebe sua cervejinha como remédio todos os dias. Porém, sua história nunca será esquecida. Se depender desta guardiã do amor, aquela pequena bolsa um dia irá para a parede ao lado da carta escrita à mão que autorizava meu pai, aos 17 anos, a sair da Bahia. Foi antes dele a conhecer. O afeto pela mulher que virou sua primeira esposa sempre será sentido, porque meu pai o carrega pela casa toda semana. Mais uma forma de tê-la por perto enquanto ele enfrenta mais uma batalha. ❤️
Texto escrito durante a oficina da a partir dos registros de 2016 📷 @ Santo Antônio da Platina