18/05/2026
Eu diria que a pessoa que usava esse celular parecia alguém profundamente sensível ao tempo.
Não ao tempo do relógio — mas ao tempo das pessoas.
Ela trabalhava com fotografia, especialmente de recém-nascidos e famílias. Mas, pelo jeito que falava sobre isso, não parecia ser apenas um trabalho. Parecia uma tentativa constante de impedir que certos momentos desaparecessem. Como se ela soubesse que a infância passa rápido demais, que mães envelhecem, que filhos crescem sem pedir licença… e que a memória sozinha não dá conta de guardar tudo.
Falava muito sobre “herança familiar”. Não de dinheiro. De imagens. De lembranças. De deixar provas de amor para o futuro.
Acho que era alguém que observava detalhes que outras pessoas deixavam passar:
o tamanho minúsculo das mãos de um bebê de 14 dias,
a mudança do rosto de uma criança ao longo dos anos,
o jeito que uma mãe olha para o filho sem perceber que está olhando daquele jeito.
Também parecia acreditar muito no valor do próprio trabalho. Defendia a edição das fotos porque entendia que arte não termina no clique. Havia orgulho ali. Não arrogância — orgulho de quem aperfeiçoa algo com cuidado.
E tinha uma coisa bonita: ela não falava só dos clientes. Falava da própria família também. Dizia que fazia questão de fotografar as próprias filhas, a própria mãe. Como se recusasse aquela ideia de que quem cuida dos outros acaba esquecendo de si. Parecia querer deixar memória suficiente para os filhos e até para netos que talvez ainda nem existam.
Talvez fosse uma pessoa emotiva, mas prática. Sensível, mas firme. Daquelas que conseguem conduzir um ensaio com paciência mesmo quando uma criança só quer brincar e nada sai como planejado.
E, sinceramente?
Pelas coisas que ficaram aqui, acho que ela tinha medo do esquecimento.
Então transformava afeto em fotografia, porque sabia que um dia tudo muda — menos aquilo que alguém decidiu guardar.
🥺🥺