Nani Rodrigues

Nani Rodrigues Nani Rodrigues, fotógrafa de comida, lugares e gente.

Em dias em que acorda de pé esquerdo, ele é mais azedo que leite azedado. Já a moça, colorida, acorda às vezes meio assi...
31/05/2026

Em dias em que acorda de pé esquerdo, ele é mais azedo que leite azedado. Já a moça, colorida, acorda às vezes meio assim, moqueca baiana: vistosa, cremosa, viva, forte e, ainda por cima, apimentada. Aquela outra, toda segunda-feira, sai moderna como aplicativo de delivery, mas, à noite, chega em casa que nem a batata frita que pediu com a ponta dos dedos: meio murcha, oleosa, já teve dias melhores. Noutro canto, tem uma que leva uma vida despretensiosa e sem medidas, como receita de vó, mas só aos fins de semana, já que, em dias de feira, ela é como aquele homem que sai pro almoço apressado: mais confuso e embolado que tutu com farofa e ovo mole em marmita de alumínio.

Se toda gente fosse uma refeição, como seria? A verdade é que livro de receita nenhum vem com passo a passo de pessoa. Tem dias em que a gente tá bolo de festa, tem dias em que estamos mais pra escondidinho, tem dia de bem-casado e dia de cajuzinho. Há aquela semana em que o prato está frio e sem graça; já na outra, ele é todas as cores da horta. Mas os melhores dias são aqueles em que a gente é almoço de domingo.

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Este é um trecho da minha crônica “Almoço de Domingo”, último texto publicado na minha nova newsletter Comer com os olhos.

No carrossel, pedaços de outros dois textos já publicados.

Pouca gente sabe, mas entrei na gastronomia por volta de 2014, através do meu trabalho como fotógrafa, sim, mas junto com ele, eu escrevia. Uma ou outra coisa foi publicada, muitas não, mas eu nunca parei de escrever. O trecho que você lê aqui, por exemplo, é de 2017.

Para além dos restaurantes, porque nem tudo é só sair para comer, na edição “Almoço de domingo” trago sugestões de filmes para ver no sofá, num fim de tarde preguiçoso, e um álbum para ouvir enquanto cozinha ou recebe, atravessado por metáforas gastronômicas do começo ao fim.

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Na edição “Caqui”, reuni restaurantes pelo Brasil que estão servindo pratos com a fruta da estação.

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Foi em um restaurante de pratos clássicos, numa pequena vila na França, que comecei a pensar sobre o lugar dos clássicos à

Clássico é clássico e vice-versa. Ou, pelo menos, é o que dizem no Brasil. A piadinha, bem à brasileira, normalmente é p...
03/05/2026

Clássico é clássico e vice-versa. Ou, pelo menos, é o que dizem no Brasil. A piadinha, bem à brasileira, normalmente é proferida para provar um ponto: com um clássico bem feito, não tem erro, e é por isso que eles existem. Já eu gosto de pensar diferente: os clássicos resistem para nos ensinar.

Rodando de carro pela região de Moselle, um departamento no nordeste da França, salpicado de pequenas vilas à primeira vista praticamente inabitadas, chamam a atenção alguns casarões de dois andares e muitas chaminés, com lousas negras na porta descrevendo os plats du jour, sempre clássicos. Em sua maioria, trata-se do único restaurante em quilômetros, responsável por abastecer várias comunas nos horários mais inusitados. Esqueça tentar se guiar pelo Google Maps: você vai precisar confiar em algum local.

Como num passe de mágica, após cruzar ruas desertas, quando você atravessa a porta de um desses lugares, tem a certeza de que são o coração da cidade. O cheiro de cozido é um imperativo; o de manteiga, uma sorte para os narizes mais atentos; e o de ervas, um anúncio. O barulho é feliz e faz você notar mesas compridas, apinhadas de famílias gigantes. Três ou quatro gerações se nutrindo dos mesmos pratos. Naquela quarta-feira de sol: salada de pot-au-feu, poulet à la crème e tarte tropézienne. Tudo servido em louças brancas, sobre simpáticas toalhas estampadas.

Mas voltemos aos ensinamentos. O principal, poulet à la crème, nos aconselha a cozinhar uma carne mais seca, como o peito de frango, em gordura. Na França, isso quer dizer manteiga ou creme de leite, e aqui temos os dois, para não faltar untuosidade. O pot-au-feu, tradicionalmente um cozido de carne e legumes, nas mãos de uma cozinheira esperta vira uma salada fria no dia seguinte, com a adição de picles de pepino para trazer acidez. Um exemplo de que um único caldeirão rende diferentes refeições. Por fim, a tarte tropézienne não leva lâminas de amêndoas crocantes no topo, mas a sobremesa daquele dia mostra que um clássico resiste por ganhar um toque especial em cada casa onde é feito. Porque um clássico não é aquilo que nunca muda, é aquilo que nunca para de ensinar.

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