09/03/2018
“Oi, lindona do meu coração, que eu amo tanto!
Que prazer falar com você, assim... por carta. Nós, que conversamos o tempo todo, às vezes nem nos deixamos dormir, refletindo sobre a vida, sobre você, sobre tudo... mas nunca dessa forma, ainda mais sabendo que tanta gente de fora vai ter acesso a essa conversa... Bom, rs..., isso não é exatamente um problema pra você, né? Que nunca teve muito cuidado em expor a sua vida pro primeiro que te abre um sorriso e vem com um papo animado/interessante pro teu lado. Ou o contrário, parece ter alguma questão a ser resolvida e precisar de alguém pra desabafar. Não raro, a senhorita já vai dando corda e contando suas vivências mais íntimas, falando dos seus ideais, sentimentos, planos pro futuro, sem nenhuma encanação. Tagarela como é, em meia hora a pessoa sabe tanto de você e você mal sabe quem ela é direito, rs... Para os outros deve ser estranho ver você, que se “desnuda” emocionalmente com tanta facilidade por aí, passar um aperto na hora de colocar uma roupa que mostre suas pernas acima do joelho. Colocar um biquíni então? Quantas vezes deixou de convidar aqueles amigos queridos, que animariam qualquer viagem, para um feriado na praia só de vergonha de assumir seu corpo como ele é?
Acho que as pessoas esperavam menos encanações de você nesse sentido. Tudo indica que seria assim. Você se ama tanto! De verdade! Se acha legal, gente boa, arejada... Acho que houve um tempo, aquele em que você usava manequim 36..., 38..., que tinha até aquele discurso bonitinho e na moda hoje em dia, de mulher segura de si, que se ama tanto por dentro, que não se incomoda com medidas, formas e texturas (rs...) fora do padrão que se apresentam no seu amado corpitcho! Pois é, era fácil falar naquela época em que você ganhou a eleição de menina mais bonita da 6ª ou 7ª série B...da cintura para baixo. Isso mesmo, teve eleição da mais bonita de rosto, mais bonita da cintura pra cima, mais bonita da cintura pra baixo e mais bonita no geral!!! Os meninos arrancaram uma folha do caderno e foram passando entre eles com a enquete “genial” (não vamos entrar agora no juízo de valores sobre a iniciativa, que o foco aqui é você, beleza?). Então, alguma menina percebeu a atenção masculina da classe voltada exclusivamente para aquele “tesouro” e o interceptou ao fim da pesquisa, que acabou se tornando pública. E não é que sua barriga negativa e coxas grossas te trouxeram o primeiro lugar na “catiguria”?!? Na época você era tímida e nunca fez bom uso da fama, rs... Mas sei que você diria: envelhecer não é fácil, galerinha do empoderamento feminino. Ainda mais quando justamente no quesito em que você se sobressaía a coisa vai f**ando meio meia boca. E sei que você não estaria falando só do que pensam os outros. Estaria falando do seu padrão! Caramba! Porque você não poderia tê-lo?!?
Aliás, empoderamento feminino este que acho um movimento fundamental e urgente, mas que pode se desgastar pela banalização e uso indiscriminado dos termos.
Mas... gostei de ver quando você, percebendo que a evolução espiritual com a total aceitação do seu corpo após duas gestações e se aproximando dos 40 não tinha planos de dar as caras nesta encarnação, tomou uma atitude e foi se cuidar como podia. Apesar de admirar muito as mulheres fora do padrão que se amam e se assumem como são, não funcionava assim pra você e descobriu que o melhor era parar com o mimimi auto piedoso e correr atrás do prejuízo: se cuidar.
E foi então que além de reeducação alimentar, cremes e massagens estéticas que couberam no seu bolso com um mínimo de planejamento e redefinição de prioridades, redescobriu a dança. Lembra como você estava destreinada quando recomeçou? Mas depois de alguma persistência, além de se sentir mais bonita, pois seu corpo aos poucos foi te agradando mais, você redescobriu o prazer e a beleza do movimento. O quanto pode ser e se sentir feminina dançando. Descobriu também que mesmo voltando ao manequim 38..., 40... nada será como antes. Mesmo no Brasil, não há impunidade quando se trata da lei da gravidade.
Mas... além daquele amor lindo, porém morno, que já sentia, você se apaixonou novamente por você! Paixão mesmo, daquelas de suspirar e admirar! Não só pela beleza física, de maneira narcisista; mas pela coragem, pela atitude de não desistir de nenhum pedacinho de você! De querer se amar por inteiro.
Confesso que sobre a praia ainda não sei se você vai f**ar completamente à vontade, mas não acha que está na hora de fazer um teste?
Um beijo e um abraço apertado, daqueles de levantar do chão, Aline.”
Aline Grego, 38 anos.