15/03/2025
Gosto muito de fotografar pessoas, especialmente quando estão inseridas no ambiente em que vivem. Em 2025, enquanto viajava pelo Maciço do Espinhaço, na região da Chapada Diamantina, decidi conhecer Xique-Xique de Igatu, um vilarejo montanhoso com menos de 400 habitantes. Foi lá que encontrei Amarildo, um personagem que transformou minha passagem por aquele lugar em uma memória indelével.
Amarildo era o trabalhador da agência dos correios locais e dono de uma vendinha instalada na sala de sua casa. O estabelecimento não tinha nome, apenas uma placa simples que dizia: “Entre e compre alguma coisa”. Entramos. E ali, diante de mim, estava uma cena que parecia ter sido pintada por um artista: Amarildo sentado em uma poltrona laranja, com a parede do fundo caiada em verde. Um contraste tonal que saltava aos olhos, quase como um convite para uma fotografia. Ele assistia à novela na TV, mas logo nossa conversa começou a fluir, e descobri um verdadeiro tesouro: a pessoa do Amarildo.
Fã número 1 da Xuxa e admirador de Roberto Carlos, Amarildo colecionava discos e revistas de seus ídolos. Mas não era só isso. Ele era escritor. Seus livros, no entanto, não eram impressos — eram manuscritos, cada palavra escrita à mão com cuidado e dedicação. Uma de suas obras, intitulada As 44 Curiosidades sobre Amarildo, era uma autobiografia singular. A cada ano que completava, ele atualizava o livro com mais uma curiosidade, transformando sua vida em uma narrativa viva e em constante evolução.
Queria muito fotografá-lo, mas sempre sou cuidadoso e prezo pelo respeito à privacidade das pessoas. Após horas de conversa, pedi para retratá-lo. Amarildo concordou, mas pediu que fosse no dia seguinte. Queria estar bem apresentável, disse. Eu, por minha vez, insisti que fosse ali mesmo, naquela sala, naquela poltrona que parecia feita para ele. No dia seguinte, encontrei Amarildo nos Correios: barbeado, vestindo uma camisa que, segundo ele, só usava em dias especiais, como no dia das eleições, quando trabalhava como mesário. Caminhamos até sua casa-vendinha, e ali fiz as imagens que hoje guardo com tanto carinho.
É provável que Amarildo não se lembre mais de mim. Afinal, muitas pessoas passam por Xique-Xique de Igatu. Mas eu jamais o esquecerei. Amarildo é uma daquelas pessoas únicas, como todos nós somos, mas com peculiaridades que o tornam ainda mais especial. A placa da vendinha pedia: “Entre e compre alguma coisa”. E assim fizemos. Comprei o livro de Amarildo, que ainda hoje repousa em minha estante, guardando não apenas suas palavras, mas também um pedaço daquela tarde, daquela conversa, daquele homem que, por um instante, compartilhou sua vida comigo. Sua imagem e nossas histórias ocupam um lugar carinhoso em minhas memórias, como um lembrete de que, por trás de cada rosto, há um universo inteiro esperando para ser descoberto.