16/12/2018
"Deixa o povo plantar, deixa o povo colher, deixa o povo ser feliz. No Brasil não pode ter miséria, nessa terra de tanta fartura!"
Mais de 2mil pessoas estão envolvidas na produção do Café Guaí, um café puro, 100% arábico, sem insumos químicos, livres de agrotóxicos e sementes transgênicas. O Quilombo Campo Grande é o maior produtor de café orgânico de MG, mas corre risco de ser despejado a qualquer momento. A terra ocupada, antes, não tinha nenhuma serventia: a usina que ali houve faliu, devendo mais de R$300 milhões em dívidas trabalhistas.
Essa é uma das cooperativas de sem terras que participaram do Festival. O maior ganho que o evento traz para quem é da cidade grande, como eu, vai muito além da possibilidade de comprar de quem faz e sem veneno. É o conhecimento de outras realidades, um exercício que nos faz muito bem. Nas horas que passei no festival, conversei com gente dos assentamentos, bordei com as senhoras do Linhas do Horizonte, comi muito bem, sambei com a Aline Calixto e me emocionei com o grupo teatral Araras Grandes. Eu sempre me emociono muito nesses tipos de eventos, aliás. A energia de quem se reúne para lutar por igualdade é única e indescritível. Centenas de pessoas reunidas em torno de um objetivo comum, que é o de dar a terra uma utilidade e tirar dela o seu sustento, por meio de muito trabalho. É gente simples, humilde, mas que detêm muito conhecimento e total preparo para o que fazem.
Não sei dizer o que mais me marcou. Me arrepiei com Aline Calixto e seu vozeirão cantando Opinião, uma música que me toca muito. Chorei assistindo à homenagem do grupo Araras Grandes aos sem terra da chacina de Felisburgo (5 homens foram mortos a tiros voltando do plantio, seus embornais ainda estavam cheios de sementes). E me surpreendi com uma aula de bordado improvável: uma atenta tr****ti aprendia a fazer ponto cruz com uma doce e paciente freira do Sagrado Coração de Maria. No mesmo lugar, ouvi histórias de missões e trabalhos de empoderamento feminino na Bahia. É inacreditável o quanto dá pra aprender quando você aceita um convite pra sentar, pegar uma agulha e uma linha.
E pra quem só sabe do assunto quando chega às manchetes sensacionalistas da TV: a Reforma Agrária está prevista no Art.184 na Constituição de 1988. Compete à união desapropriar terras, com a devida indenização ao dono, que não cumpram sua função social. Porque a terra precisa fornecer alimento para a população, e sustento pra quem vive dela. A lógica é muito simples. Mas na prática, os interesses dos grandes se sobrepõe às necessidades do povo, o poder fala mais alto e nada se faz. O MST luta, então, pra que haja a reforma, e enquanto ela não acontece de forma institucional, como prevista em lei, as famílias ocupam terras improdutivas e dão uma utilidade à terra.
A 2ª edição do Festival da Reforma Agrária foi realizada pelo MST-MG no Parque Municipal, entre os dias 14 e 16/12.