02/06/2026
Causos curiosos de Minas
Túnel da Mantiqueira
Esta semana circulou no Instagram uma postagem realizada em frente à entrada do Túnel da Mantiqueira, em Passa Quatro/MG, palco da Revolução de 1932, onde, segundo relatos históricos, mais de 900 soldados paulistas e alguns mineiros perderam suas vidas.
Essa publicação me fez voltar mais de vinte anos no tempo, quando realizei uma expedição fotográfica ao Sul de Minas, acompanhado do colega fotógrafo Roneijober Andrade, para conhecer e registrar um dos episódios mais curiosos da história mineira.
A motivação para essa viagem nasceu muito antes, em uma das inúmeras conversas com meu avô Antônio Faria, que me contou fatos e acontecimentos pessoais, vividos há mais de 70 anos. Diferente de muitos familiares, que raramente têm tempo para ouvir os mais velhos, eu gostava de escutá-lo atentamente. Muitas vezes até anotava suas histórias.
Ele relatou, com riqueza de detalhes que certa vez (nosso caso) foi “catado” em sua casa, obrigado a se alistar e seguir para a guerra (a revolução constitucionalista).
Chegavam ao local amontoados em vagões ferroviários abertos, tipo pranchas (não existia vagões fechados) e eram alojados em estruturas improvisadas próximas à estação. Os comandantes ficavam no prédio principal; os soldados, nas encostas da Serra da Mantiqueira.
Segundo seu relato, eles próprios cavavam as trincheiras no alto do morro. Dali observavam a chegada das tropas paulistas pela ferrovia, em sentido contrário, recebendo-os à bala. Muitos soldados buscavam abrigo dentro do túnel escuro e úmido, tentando avançar em direção à estação, mas frequentemente eram surpreendidos e abatidos, sem dó e nem piedade, pelas forças mineiras entrincheiradas.
Os combates eram violentos. Além dos tiros, havia confrontos corpo a corpo com facões, machadinhas e baionetas. O número de feridos era tão grande que foi montado um hospital de campanha na região, chefiado por um jovem médico chamado Juscelino Kubitschek. (Alguém se lembra quem foi ele no futuro? Esse é um assunto para depois)
Anos depois, em 2005, finalmente cheguei ao local que meu avô havia descrito com tantos detalhes. E o que encontrei ali me deixou profundamente impressionado: parecia que os acontecimentos de 1932 ainda estavam presentes. Tudo estava lá: a estação, os trilhos, o túnel e os vestígios de uma história que resistia ao tempo.
Uma equipe realizava obras de restauração para transformar a região em ponto turístico. Porém, algo me chamou a atenção. Operários, pedreiros e auxiliares, extraiam das paredes da antiga estação, balas de chumbo alojadas e incrustadas ali havia mais de 70 anos. Muitas eram descartadas em baldes ou simplesmente jogadas fora. Nas antigas trincheiras, visitantes encontraram cartuchos intactos e os levavam para casa como lembranças.
Eu mesmo recolhi algumas balas e cartuchos não deflagrados. Em entrevistas com moradores da região, descobrimos que diversas pessoas guardavam artefatos da revolução, incluindo capacetes, fuzis e baionetas.
Preocupados com a preservação histórica, entregamos parte desse material ao prefeito da época e sugerimos a criação de um museu dedicado à Revolução de 1932. Também propusemos que os buracos de bala nas paredes fossem preservados e protegidos por vidro, como testemunho dos acontecimentos.
Infelizmente, pelo que pude observar nas visitas posteriores, a preocupação maior foi restaurar e embelezar o local. A Maria-Fumaça voltou a circular entre a estação sede, Passa Quatro, estação Manacá no trajeto e final na estação do túnel da Mantiqueira. O turismo cresceu e a região ganhou visibilidade, mas os vestígios físicos da revolução desapareceram, restando apenas relatos, fotografias e memórias.
Na ocasião, recebi de presente, um CD contendo cerca de 330 fotografias recuperadas da época da revolução. Talvez meu avô esteja em alguma delas. Nunca saberei com certeza. A qualidade das imagens não permite identificá-lo.
E o museu prometido? E as ações de preservação histórica? Aconteceram? Até hoje não tenho notícias de que tenham saído do papel.
Mas a história continua viva na memória daqueles que ainda acreditam que preservar o passado é também uma forma de construir o futuro.