03/11/2025
Sua alegria está chegando, aquela louca que deixa laranjas para você.
Voltei a correr depois de três semanas. Viagens mudam a rotina. O corpo lembrava o gosto da liberdade, mas também me cobrou pelo abandono.
Veio a dor, não qualquer dor, mas aquela que parece já estar escrita antes mesmo de existir. Um eco dos meus, dos tendões frágeis do meu pai, do meu avô.. Corri e tropecei no destino do corpo.
No hospital, entre gente chegando e partindo, dores expostas e silêncios pesados, uma cena partiu o que restou de mim. Um menino girava um carrinho em círculos para divertir o irmãozinho de olhos verdes e sedentos. A inocência dele brilhava no meio da aflição da mãe e me deixou lágrimas.
Mas bastou a chegada do pai para o brilho se apagar, a chama de uma criança apagada por broncas duras demais. E, quando o pai se foi, voltou a Ser, voltou a Si. Seis anos carregando o peso de proteger.
Sorrateiramente, sentou-se ao meu lado e perguntou “É a Biblia?”. Respondi que era outro livro, de um economista, cheio de ideias gigantes. Disse que estava aprendendo a ler.
Então inventamos um jogo, meu dedo corria as páginas, ele dizia “para”, e juntos desvendavamos a palavra encontrada.
Ali, no meio do hospital, nós dois fomos cúmplices de um segredo, a alegria cabe nas brechas, nas mínimas frestas, numa brincadeira inventada ao acaso.
Seu nome era Enzo.
A salvação pode ser uma criança que não sabe que está salvando.
Da enfermeira para o médico ouvi uma frase que anotei no rodapé “Sua alegria está chegando, aquela louca que deixa laranjas para você.”
No hospital, onde tudo é dor, alguém falou de alegria. E alegria era uma senhora. Uma louca, que deixa laranjas.
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Alegria é sempre louca, pensei. Não chega de modo razoavel, nao se explica.
Alegria é sempre alguém que traz frutos simples.
Cítricos. Solares.. e os deixa sobre a mesa sem pedir nada em troca.
Voltei para casa lesionada, sim. Mas também leve. Porque hoje aprendi, a dor e a fragilidade é herança, mas a alegria…
… A alegria é visita.
E às vezes ela vem disfarçada
Num garoto curioso, numa senhora das laranjas
Ou numa frase que insiste em me invadir, como se fosse uma lesão. Oh! De novo não.