03/05/2021
Colega de cela de Miala relata alguns episódios dos 25 meses de cadeia do general em Viana
O general Fernando Garcia Miala, detido em 2006 e afastado das funções de director-geral dos Serviços de Inteligência Externa (SIE) durante a Presidência de José Eduardo dos Santos, volta a ser assunto no Na Mira do Crime. Desta vez, fomos a busca de Bernardo António, mais conhecido por “Ady”, recluso nas circunstancias, e que era o homem às ordens de Miala na cadeia de Viana.
Por: Matias Miguel e Belchior Resende
O Jovem, bem-humorado, falou em exclusivo ao NA MIRA e reviveu às memórias dos dias que passou na mesma cela com um dos homens mais poderosos de Angola.
“Eu e o Francisco Xavier fomos indicados pela direcção da Cadeia para estarmos às ordens do General Miala”, atirou, recordando que, ele, Ady, tratava da limpeza do quarto suite onde estava ‘hospedado’ o general.
“O quarto era na enfermaria feminina, porque parece que o general Miala já previa uma rebelião no interior da cadeia, entre os grupos dos blocos A,B e C dos Cazenga Squad e os do Prenda que disputavam espaço”.
Banho com água mineral
Na verdade, conta, “o general estava colocado no Bloco C, mas depois passou para a enfermaria e não mais aceitou sair de lá”, lembra. Como dizia, continua, “tratava eu da limpeza, da arrumação e da água para ele banhar… de princípio tomava banho com água mineral, como dizem, mas quando eu cheguei na penitenciária, o mais velho já banhava com a água do geral, apenas usava um desinfectante que chegava da sua própria casa”.
General gosta de ovos estrelados
De acordo com o nosso entrevistado, Xavier providenciava o pequeno-almoço do oficial general, que era confeccionado principalmente a base de leite e chá, “e não poderia faltar ovos estrelados”.
Mais de 50 visitas por dia
Às visitas do general, no princípio, lembra o nosso entrevistado, em média, eram de noventa pessoas. Depois reduziu para metade, “O chefe Miala recebia-os num pátio paralelo ao posto de enfermagem, onde estavam alojados os Polícias de Intervenção Rápida (PIR)”, disse, observando que, entre os visitantes destacavam-se os músicos, “quase todos os da nossa praça, jornalistas e desportistas, já os governantes é que iam poucos, eram tipo persona non grata, lhe evitavam para não serem conotados”.
Mesmo na cadeia deu emprego a muita gente
“Enquanto preso”, recorda Bernardo, Garcia Miala “era uma pessoa top, ainda na cadeia empregou muita gente. Lembro-me- de uma senhora da enfermagem, um recluso que lhe servia antes de mim e o Quinito, antigo recluso e encarregado geral do Penal, que era grande delinquente, lhe colocaram a trabalhar na camionagem, mas soube que decepcionou o Cota, voltou a roubar, ou coisa parecida”.
Quando o preso ‘mete medo’ ao director da cadeia
Na altura, o Director da Cadeia de Viana era o especialista prisional de 1º classe Eduardo Quintas.
“Quando o General Miala esteve preso, o director o evitava por duas razões, primeiro, hierarquicamente era seu superior, e mesmo preso, como é óbvio, não podia evitar chamar-lhe chefe e bater pala, ou seja, na cadeia, o director é que batia pala ao general”.
Por outra, conta, na altura Garcia Miala terá feito um telefonema ao Ex-Presidente da República, o que terá deixado aborrecido os seus algozes, que eram os generais Hélder Viera Dias “Kopelipa” e o general Zé-Maria.
“Todo mundo sabia que estes pressionavam o Eduardo Quintas para tomar medidas mais duras contra o Miala, razão pela qual, Eduardo Quintas, muitas vezes, chegava a cadeia e ficava apenas na parte frontal onde funcionava o seu gabinete, evitando deslocar-se a Ordem Interna, que estava a uma distância de 200 metros, para não ter contacto com o general”.
“Infelizmente, quando saí da cadeia o cota já estava solto, senão apanhava também um emprego por aí por aí”, atirou
O Caso
Durante a presidência de José Eduardo dos Santos, a 20 de Setembro de 2007, Fernando Garcia Miala, antigo director dos Serviços de Inteligência Externa de Angola (demitido um ano antes), chegou a ser condenado a quatro anos de prisão efectiva pelo Supremo Tribunal Militar (STM), pelo crime de insubordinação, tendo cumprido a pena.
Três outros colaboradores de Fernando Miala foram condenados a dois anos e seis meses de prisão efectiva.
Os arguidos foram acusados de prática de crime de insubordinação, por não terem comparecido numa cerimónia de desgraduação no Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas, por ordem do seu chefe, o general Francisco Furtado.
Miala foi igualmente acusado de interferir nas missões da escolta do chefe de Estado, de realizar escutas não autorizadas, além do furto de aparelhos de escuta, e de se envolver em relações alegadamente "promíscuas" com membros da Comunicação Social, mas estes crimes não ficaram provados em tribunal.
O passado é passado. Estou aqui para dizer que não tenho rancor
Três mês depois da sua soltura, compareceu num culto realizado pela Igreja Simão Toco e ao passarem lhe a palavra, Fernando Miala declarou o seguinte: “Amados e queridos irmãos, quero em primeiro lugar agradecer a Jeovah Deus que ouviu as vossas orações, ao Líder Espiritual e aos irmãos que intercederam por mim em oração durante os meses que permaneci sob tutela da justiça. Devo aqui realçar o espírito de solidariedade que a Igreja prestou-me sob orientação do Líder Espiritual Sua Eminência Bispo Dom Afonso Nunes, personificação do Profeta Simão Gonçalves Toco. Resta-me dizer que o passado é passado. Estou aqui para dizer que não tenho rancor, nem ódio, nem guardo ressentimentos por tudo o que aconteceu. Devemos sim olhar para frente e olhar para o futuro, Muito obrigado”.
Actualmente, Fernando Garcia Miala é o Chefe do Serviço de Inteligência e Segurança do Estado e os seus algozes respondem, um, Kopelipa, por crimes de corrupção e Zé Maria por extravio de documentos militares.