27/08/2026
O Silêncio
Num estúdio de gravação, o silêncio pode signif**ar produtividade, concentração, preparação. O ruído pode ser uma invasão. Há momentos em que o silêncio é necessário para que alguma coisa possa nascer.
Mas nem todo silêncio é desejado.
Há silêncios que perturbam. Há silêncios que assombram. Há silêncios que anunciam o fim de um relacionamento. E há aquele silêncio que chega quando alguém parte para sempre.
“Perdi-te meu irmão, mas estarás sempre do meu lado. Depois de tudo que aprendi quero viver um dia de cada vez como se fosse na véspera do adeus.”
“Foi Assim”, uma música do Tabanka Djaz, que tantas vezes ouvimos palavras que talvez não soubéssemos que um dia teriam outro signif**ado para nós.
Existem músicas que retratam acontecimentos que iremos viver. Mas, por não sabermos quando, limitamo-nos a ouvi-las, cantá-las e dançá-las.
Até ao dia em que a vida nos obriga a escutá-las de outra maneira.
Quando perdi o meu irmão Yuri Py, senti um vazio enorme. Mas só depois percebi que a sua partida não afectaria apenas aquilo que eu sentia. Afectaria também aquilo que eu fazia.
Durante muito tempo não soube como avançar.
Fiquei parado em lugares onde antes existia movimento. Algumas coisas perderam o sentido. Outras simplesmente deixaram de acontecer. Continuei a acreditar que o tempo seria um bom remédio, que os dias passariam e, com eles, a dor diminuiria.
Deixei o tempo passar.
Mas o tempo não apagou a ausência.
Ensinou-me, aos poucos, a conviver com ela.
Hoje estou a recompor-me. Não de uma vez, não completamente, mas aos poucos. E talvez esta crónica seja uma das provas disso.
Voltar a escrever sobre o Yuri é, para mim, uma forma de voltar a caminhar.
Eu queria muito que ele alcançasse os seus sonhos. Por isso tornei-me instrumento para que alguns deles ganhassem forma. Produzi os seus videoclipes, ajudei a transformar músicas em imagens e coloquei o meu trabalho ao serviço daquilo que ele queria construir.
Hoje já consigo assistir aos videoclipes dele.
E isso signif**a muito.
Há orgulho, há saudade, há dor, mas também há gratidão.
Gratidão por ter vivido aqueles momentos. Gratidão por ter podido contribuir para o sonho do meu irmão. Gratidão porque, através do meu trabalho, algumas imagens dele continuam vivas.
Quando vejo aqueles vídeos, posso dizer:
“Estarás sempre do meu lado.”
A minha mãe continua a carregar uma dor profunda. E seria difícil esperar outra coisa. O Yuri viveu trinta e cinco anos ao lado dela. Foram trinta e cinco anos de convivência, de amor, de preocupações, de conversas, de sentimentos que só uma mãe e um filho conseguem compreender.
O amor de uma mãe não se explica, não se mede e não se questiona. Apenas se sente.
Por isso, quando alguém parte, a perda nunca f**a apenas com quem morreu. Ela espalha-se por todos os que f**aram.
Cada um aprende a sofrer de uma maneira.
Eu aprendi em silêncio.
E talvez tenha sido nesse silêncio que percebi que o fim da vida não precisa de ser o fim de uma história.
O legado do Yuri talvez não seja uma família ou filhos. Talvez seja aquilo que deixou dentro de nós. As músicas, os vídeos, as lembranças, as conversas, os momentos e a forma como a sua existência tocou a nossa.
Enquanto alguém se lembrar, uma parte da pessoa continua presente.
É por isso que acredito que a morte não tem a última palavra.
Existe uma esperança que não vem de nós, mas de Deus.
“Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá mais morte, nem haverá mais tristeza, nem choro, nem dor.” - Apocalipse 21:4.
É nessa promessa que encontro forças para continuar.
O maior desafio continua a ser o tempo.
O tempo da espera.
Durante muito tempo pensei que o tempo iria curar tudo. Hoje penso diferente. Talvez o tempo não cure todas as feridas. Talvez nos ensine a viver com algumas delas sem permitir que nos impeçam de continuar.
Não posso acelerar o tempo.
Não posso voltar atrás.
Não posso trazer o Yuri de volta.
Mas posso continuar.
Posso voltar a criar.
Posso voltar a escrever.
Posso voltar a viver.
Um dia de cada vez.
Como se fosse na véspera do adeus.
Talvez essa seja uma das maiores lições que a partida do Yuri me deixou. Não sabemos quando será a última conversa, o último abraço, a última fotografia, o último trabalho feito juntos ou simplesmente o último dia em que teremos alguém ao nosso lado.
Por isso, enquanto temos tempo, devemos viver.
Devemos amar.
Devemos perdoar.
Devemos dizer o que precisa de ser dito.
E devemos realizar aquilo que ainda podemos realizar.
Hoje, quando escrevo esta crónica, percebo que alguma coisa dentro de mim voltou a mexer-se.
Ainda existe silêncio. Ainda existe saudade.
Ainda existe um lugar vazio. Mas já consigo criar dentro dele.
Talvez recompor-se seja exactamente isso, aprender a construir novamente sem negar aquilo que perdemos.
O Yuri partiu, mas deixou marcas que o tempo não conseguiu apagar.
E eu continuo aqui, a aprender a viver com a sua ausência, a transformar a saudade em memória e a memória em legado.
Enquanto espero pelo tempo de Deus, faço aquilo que posso fazer.
Vivo.
Um dia de cada vez.
Até breve, Yuri Pladur.
Dome Semedo®