04/23/2020
Feliz Dia Mundial do Livro! Como os seguidores dessa página adoram história e trilhas, recomendo ‘On Trails’, do jornalista americano Robert Moor. Infelizmente ele ainda não foi traduzido para o português mas para quem puder ler em inglês, é imperdível. Moor, um trilheiro inveterado, vai fundo na questão “O que é uma trilha?”, rebobinando a história até 500 milhões de anos atrás, quando os primeiros seres vivos começaram a se movimentar no fundo do oceano, até chegar nos caminhos turísticos modernos. O capítulo que mais nos interessa é o dedicado às trilhas indígenas que deram origem a muitas das estradas modernas da América do Norte. Os paralelos com Brasil e a América Latina, no caso do Peabiru, são óbvios. Algumas são questões de ordem logística, como as trilhas Cherokee que seguiam rigorosamente as cristas dos morros, assim como as dos Guarani e Tupi, outras de ordem histórica colonial: assim como no Brasil, nos EUA os conquistadores fabricaram o mito dos “desbravadores” (nossos nossos Bandeirantes, os peregrinos/cowboys deles). Na realidade, em ambos os casos os brancos aprenderam a se locomover na América usando uma rede de caminhos já existente, extremamente desenvolvida e eficiente. Mas porque essas trilhas foram esquecidas, assim aqui como lá? Menos que uma conspiração organizada para apagar a importância desses caminhos, havia uma incompreensão absoluta dos colonizadores ao patrimônio cultural imaterial dos nativos. Como o próprio Moor define no livro: “Aprendi que alma de uma trilha não é limitada ao solo e às rochas; ela é evanescente, flúida como o ar.” Como Sérgio Buarque de Holanda suspeitava sobre o Peabiru, não eram estrada físicas mas um conjunto de instruções de navegação do território. Eram criações comunitárias que emergiam na tentativa e erro, passadas no boca a boca por gerações, sem autor original ou arquiteto. Como Moor diz: “Trilhas não são únicas nesse aspecto, esse processo evolucionário também acontece no “folclóre”, canções de trabalho, piadas e memes.” A mentalidade européia, acostumada ao mito do gênio individual, da palavra escrita e da estrada pavimentada, simplesmente não conseguia enxergar um processo invisível tão complexo.