20/06/2026
Uma GRANDE retrospetiva do fundador do ContraTempo.com, Andre Frias nesta entrevista ao Complexo N.
Muito mais havia a dizer e acima de tudo faltou lembrar o quanto o Joao De Deus Azevedo tem sido um pilar neste projecto e com os milhares de fotografias que também já fez ao longo de mais de um década e claro a Veronica Lalanda que nos une todos, que somos muito mais.
,
𝗘𝗡𝗧𝗥𝗘𝗩𝗜𝗦𝗧𝗔 – 𝗔𝗡𝗗𝗥𝗘́ 𝗙𝗥𝗜𝗔𝗦
(𝗳𝗼𝘁𝗼́𝗴𝗿𝗮𝗳𝗼 𝗖𝗼𝗻𝘁𝗿𝗮𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼.𝗰𝗼𝗺)
Numa época de transformação e terrenos baldios, no que respeita a tecnologias e imagem, André Frias atravessou-se no caminho para levar aos açorianos o seu mundo social, cultural e desportivo. Costumes e tradições, ritos de diversão, adrenalina em movimento, espectáculos das mais variadas áreas e dimensões, mas também a beleza de um sorriso desprevenido foram “congelados” em mais de meio milhão de imagens. Nascia, em 2003, o icónico Contratempo.com. Entretanto, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mas o legado que o micaelense deixa através da sua lente e olhar clínico é impossível de apagar. Tudo isto soa a despedida, mas o Contratempo e o seu mentor ainda estão aí para as curvas. Noutro ritmo e critério, o projecto mantém-se uma referência da imagem e reportagem fotográfica açoriana, estando aberta a hipótese de um refrescamento de estrutura e conteúdos que junte novas e velhas gerações.
𝗔𝗽𝗲𝘀𝗮𝗿 𝗱𝗲 𝘀𝗲 𝘁𝗲𝗿 𝗲𝘃𝗶𝗱𝗲𝗻𝗰𝗶𝗮𝗱𝗼 𝗰𝗼𝗺𝗼 𝗳𝗼𝘁𝗼́𝗴𝗿𝗮𝗳𝗼, 𝗰𝗼𝗺𝗲𝗰̧𝗼𝘂 𝗽𝗼𝗿 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗴𝗿𝗮𝗿 𝗼 𝗚𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗗𝗲𝘀𝗽𝗼𝗿𝘁𝗶𝘃𝗼 𝗖𝗼𝗺𝗲𝗿𝗰𝗶𝗮𝗹 (𝗚𝗗𝗖), 𝗲𝗺 𝟭𝟵𝟵𝟱. 𝗤𝘂𝗲 𝗳𝘂𝗻𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗲𝘀𝗲𝗺𝗽𝗲𝗻𝗵𝗮𝘃𝗮?
Eu era responsável por toda a parte informática das provas, numa sede que é muito diferente da que existe agora.
𝗤𝘂𝗲 𝘀𝗲 𝗹𝗼𝗰𝗮𝗹𝗶𝘇𝗮𝘃𝗮 𝘁𝗮𝗺𝗯𝗲́𝗺 𝗻𝗮 𝗟𝗮𝗴𝗼𝗮?
Não, essa é a actual e foi construída de raiz. Estive envolvido na idealização do espaço, embora não tenha chegado a estreá-lo. Além da parte da informática, participava na direcção de provas. Fomos pioneiros na transmissão dos tempos em “directo” entre o troço e a sede. Os carros eram identificados pelas fotocélulas, com um atraso máximo de 30 ou 40 segundos, e imediatamente inseridos na base de dados. Antes disso, o processo era feito por radioamadores, que comunicavam a passagem dos carros com considerável atraso, até porque não se conseguia comunicar enquanto se ouvisse o barulho dos motores. Aliando a isso a possibilidade de algum erro de compreensão e introdução de dados, a comunicação tornava-se pouco eficaz. Com o sistema que implementámos, bastava informar o número do carro e a fotocélula transmitia directamente os tempos para o computador.
𝗘𝘀𝘀𝗮 𝗶𝗻𝗼𝘃𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗿𝗲𝗴𝗶𝘀𝘁𝗮-𝘀𝗲 𝗾𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼?
Em 1996 ou 1997.
𝗘𝗿𝗮 𝗯𝗮𝘀𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲 𝗷𝗼𝘃𝗲𝗺…
Eu tinha 16 anos quando entrei no GDC, ou talvez um pouco menos.
𝗚𝗼𝘀𝘁𝗮𝗿 𝗱𝗲 𝗿𝗮𝗹𝗹𝘆 𝗰𝗼𝗺 𝗲𝘀𝘀𝗮 𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗮𝘁𝗲́ 𝗽𝗮𝗿𝗲𝗰𝗲 𝗻𝗼𝗿𝗺𝗮𝗹, 𝗽𝗮𝘀𝘀𝗲 𝗼 𝗲𝘀𝘁𝗲𝗿𝗲𝗼́𝘁𝗶𝗽𝗼, 𝗺𝗮𝘀 𝗽𝗼𝘂𝗰𝗼 𝗻𝗼𝗿𝗺𝗮𝗹 𝗲́ 𝗮𝘀𝘀𝘂𝗺𝗶𝗿 𝘁𝗮̃𝗼 𝗰𝗲𝗱𝗼 𝗳𝘂𝗻𝗰̧𝗼̃𝗲𝘀 𝗻𝗮 𝗮́𝗿𝗲𝗮 𝘁𝗲𝗰𝗻𝗼𝗹𝗼́𝗴𝗶𝗰𝗮, 𝗮𝘁𝗲́ 𝗾𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗮𝘀 𝗳𝗲𝗿𝗿𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮𝘀 𝗲𝗿𝗮𝗺 𝗯𝗮𝘀𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲 𝗿𝘂𝗱𝗶𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮𝗿𝗲𝘀 𝗲, 𝗽𝗼𝗿 𝗰𝗼𝗻𝘀𝗲𝗴𝘂𝗶𝗻𝘁𝗲, 𝗽𝗼𝘂𝗰𝗼 𝗮𝗽𝗲𝗹𝗮𝘁𝗶𝘃𝗮𝘀…
Não entrei sozinho nessa aventura. Em 1995, iniciei-me nos rallies a convite do professor Pedro Jorge Cabral, que tinha um software dedicado. Numa primeira instância, fui apenas ajudá-lo nos tempos. No entanto, como eu tinha capacidade para fazer sites, fizemos o primeiro site. Estávamos numa altura em que pouco ou nada se falava de internet. Mesmo assim, já dávamos os primeiros passos nesse campo, tanto que fizemos um grande investimento para cobrir o SATA Rally Açores, adquirindo duas ou três linhas RDIS. Lembro-me de o Dr. António Melo dizer: “É preciso tanto dinheiro? Sempre fizemos os rallies sem internet…” Nós tínhamos de lhe explicar que estávamos a tentar uma inovação, já que aquela era uma prova internacional.
𝗖𝗼𝗻𝘃𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗰𝗼𝗿𝗿𝗲𝘀𝘀𝗲 𝗽𝗮𝗿𝘁𝗶𝗰𝘂𝗹𝗮𝗿𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗯𝗲𝗺…
Não era tanto por isso. Ninguém estava consciente do poder da internet. Para a maioria, interessava basicamente ter a comunicação social a cobrir o evento – interessava o “boneco”. Se a prova corresse mal, mas isso não passasse para a opinião pública, estava tudo bem. Contudo, no primeiro dia, as estatísticas indicavam-nos acessos de 1500 pessoas, de vários pontos da Europa. A direcção do GDC ficou incrédula!
𝗥𝗲𝗳𝗲𝗿𝗲-𝘀𝗲 𝗮̀ 𝘁𝗿𝗮𝗻𝘀𝗺𝗶𝘀𝘀𝗮̃𝗼 𝗮𝘂𝗱𝗶𝗼𝘃𝗶𝘀𝘂𝗮𝗹 𝗱𝗮 𝗽𝗿𝗼𝘃𝗮?
Não, à transmissão dos tempos. As pessoas sabiam da existência do site e acompanhavam os tempos a partir de França, EUA ou Alemanha. Nesses e noutros países já se utilizava a internet para consumir vários tipos de conteúdos, principalmente nos meios universitários. Nos Açores, estávamos a dar os primeiros passos e ninguém se baseava na internet para nada. As ligações eram muito lentas. A página disponibilizava também a lista de inscritos e os mapas da prova.
Pela mesma altura, também estava com o Pedro Jorge Cabral na organização do Open Azores Golf. Utilizávamos a mesma estrutura de programa, em DOS, para fazer a gestão das pontuações, no caso do golfe. Nesse contexto, recordo-me de um senhor, de 60 e muitos anos, descer às “catacumbas”, onde trabalhávamos, e perguntar pelo autor do site – atenção ao termo site, porque tratava-se de algo trivial, muito simples. Disse-lhe que fui eu, ao que respondeu: “Está muito giro. Nunca tinha visto a possibilidade de ter o mapa do campo e clicarmos nos buracos para aceder às pontuações.” Continuei: “É um image map, mas não percebemos muito disto. Estamos apenas a começar.” Entusiasmado, o desconhecido reforçou: “Não, está muito bom! Olhem que gastei uma fortuna no meu site.” Voltámos a olhar para ele, principalmente pela sua idade, e pensámos: “Mas por que raio há-de ter um site?” Percebemos então que era o Golf Hotels – aquele senhor tinha mais de 20 hotéis. Ainda assim, estava ali descalço, descontraído, ao nosso lado. Mais tarde, descobri também que tinha sido ele o desenhador do campo de golfe das Furnas ou da Batalha. Só pensávamos: “Pois, de facto, este pessoal já está noutro patamar. Essa coisa da internet é muito mais poderosa do que pensamos.”
𝗧𝗲𝗰𝗻𝗶𝗰𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲, 𝗼 𝘃𝗼𝘀𝘀𝗼 𝘁𝗿𝗮𝗯𝗮𝗹𝗵𝗼 𝗷𝗮́ 𝘀𝗲 𝗽𝗼𝗱𝗶𝗮 𝗰𝗼𝗻𝘀𝗶𝗱𝗲𝗿𝗮𝗿 𝗽𝗿𝗼𝗴𝗿𝗮𝗺𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼?
A parte do software de gestão era programada pelo Pedro Jorge Cabral. Eu nunca gostei de programar. A única coisa que eu “programava” eram as páginas da internet. No entanto, para isso, sempre utilizei modelos predefinidos, não obstante ter a percepção do que era preciso alterar e alguns conhecimentos de html. Não havia o Google para pesquisar sobre como fazer um site. Hoje em dia, o ChatGPT programa-nos uma página facilmente e tal como queremos.
𝗢 𝗳𝗮𝗰𝘁𝗼 𝗱𝗲 𝘀𝗲𝗿 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗻𝗼𝘃𝗼 𝗾𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗰𝗼𝗺𝗲𝗰̧𝗼𝘂 𝗻𝗮 𝗮́𝗿𝗲𝗮 𝗱𝗮𝘀 𝘁𝗲𝗰𝗻𝗼𝗹𝗼𝗴𝗶𝗮𝘀, 𝗹𝗲𝘃𝗮-𝗻𝗼𝘀 𝗮 𝗰𝗿𝗲𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗮𝗽𝗿𝗲𝗻𝗱𝗲𝘂 𝗾𝘂𝗮𝘀𝗲 𝘁𝘂𝗱𝗼 𝗽𝗼𝗿 𝘀𝗶…
Basicamente, fui autodidacta. No secundário, aprendi muito do Office e do Windows com o professor Pedro Jorge Cabral, de quem me tornei amigo, até hoje, também fruto desse interesse em comum que temos pela área.
No entanto, tive o meu primeiro computador aos 5 ou 6 anos, um Sinclair ZX Spectrum 48K, os primórdios dos computadores pessoais. Hoje, nem sei o que é possível armazenar em 48 KB de memória RAM, mas naquela altura era o suficiente para termos um jogo que nos prendia durante horas. Como alguns se lembrarão, o jogo era carregado através de uma cassete de áudio. Depois foi lançado o Sinclair ZX Spectrum 128K. Agora já se fala em petabytes [equivalente a 1024 terabytes]. É incrível.
𝗘 𝗰𝗼𝗺𝗽𝘂𝘁𝗮𝗱𝗼𝗿𝗲𝘀 𝗾𝘂𝗮̂𝗻𝘁𝗶𝗰𝗼𝘀…
Pois, é tudo aos milhões de quilobytes, traduzidos em qubits.
𝗖𝗼𝗺 𝘀𝗶𝘀𝘁𝗲𝗺𝗮𝘀 𝗱𝗲 𝗿𝗲𝗳𝗿𝗶𝗴𝗲𝗿𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝘃𝗼𝗹𝘂𝗺𝗼𝘀𝗼𝘀…
Pois, as estruturas desses data centers são edifícios, tal como aconteceu nos primórdios da computação. A diferença é a quantidade de informação processada. O primeiro computador científico comercial da IBM tinha uma dimensão considerável, mas uma memória que não chegava aos 48 KB.
Isso para dizer que, já na altura do Sinclar ZX Spectrum 48K, sempre olhei para um computador mais como ferramenta de trabalho do que como dispositivo lúdico. Também gostava de jogos, mas mais do desafio de copiá-los e ver se funcionavam, perceber o que era possível melhorar, até porque as cabeças dos gravadores eram afináveis. Não queria que nada falhasse. O chato é que os jogos demoravam vários minutos a carregar e a sua leitura podia falhar por qualquer motivo. Aí, tínhamos de começar tudo de novo.
Apesar de não jogar muito, gostava mais dos géneros estratégia e gestão do que propriamente de jogos de corridas, até porque os gráficos não eram muito estimulantes. Jogava o SimCity ou o Warcraft. No entanto, os jogos de gestão futebolística eram a minha perdição. À custa desse vício dos computadores, fui para a universidade com 17 anos.
𝗙𝗿𝗲𝗾𝘂𝗲𝗻𝘁𝗼𝘂 𝗼 𝗲𝗻𝘀𝗶𝗻𝗼 𝘀𝘂𝗽𝗲𝗿𝗶𝗼𝗿 𝗻𝗮 𝗮́𝗿𝗲𝗮 𝗱𝗮𝘀 𝘁𝗲𝗰𝗻𝗼𝗹𝗼𝗴𝗶𝗮𝘀?
Fui para Informática e Gestão de Empresas no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (Iscte). Não tinha a mínima noção de que tinha entrado numa universidade de “elite”. Aliás, não entrei por ser um brilhante aluno. Acima de tudo, beneficiei do contingente dos Açores. Gostava muito de informática, mas foi difícil escolher uma área no secundário, pois nessa altura ainda somos muito jovens para decidir. Há muito aquela influência dos pais ou amigos para escolhermos Economia, caso gostemos um pouco de matemática, mas não percebamos nada de Ciências. De facto, fazia algum sentido para mim. O problema é que terminamos o agrupamento de Economia e, quando vamos concorrer para a universidade, ficamos limitados a meia dúzia de cursos de informática. Havia apenas cursos de gestão com informática agregada. Eu não tinha grandes bases de gestão, não estive num curso de contabilidade. Aliás, andei sempre entre os “pingos da chuva”; escolhia as disciplinas que não davam muito trabalho, porque eu via a escola como um passatempo. De facto, não me esforcei muito.
𝗧𝗲𝗿𝗺𝗶𝗻𝗼𝘂 𝗼 𝗰𝘂𝗿𝘀𝗼 𝗻𝗼 𝗜𝘀𝗰𝘁𝗲?
Não podia, por uma razão muito simples: nem sei como acabei o 12.º ano. Pior do que ter acabado o secundário foi concorrer para a universidade convicto de que não entrava. Eu só sabia que não queria ficar nos Açores. Estava à procura de novos horizontes. Por ironia do destino, entrei na primeira opção, que era o Iscte.
𝗥𝗼𝗴𝗼𝘂 𝗮𝗹𝗴𝘂𝗺𝗮 “𝗽𝗿𝗮𝗴𝗮”?
Mais ou menos. Eu tinha noção de que entrar naquela universidade era uma oportunidade que muitos gostavam de ter. Pelo menos, percebi isso mais tarde. Escolhi o Iscte com zero de informação sobre aquela escola. Quando estava a escolher o curso, procurava essencialmente um local de ensino em Lisboa, sendo que os que exigiam matemática, que era a minha específica, estavam basicamente no Iscte. Quando chego a Lisboa, um padrinho meu disse-me: “Então, estás no Iscte! É onde fazem as melhores festas universitárias!” Eu pensei então que tinha tido alguma sorte. A verdade é que com 10,5 valores de média final em matemática, não tinha grandes expectativas. Atendendo a que a média daquele ano nessa disciplina era de 1,5 valores, até fiquei de peito cheio. No entanto, o “pior” aluno a entrar no meu curso no Iscte tinha média de 14,5 valores.
De facto, a parte boa é que tinha entrado num mundo completamente novo - uma universidade com canal de televisão, rádio, as melhores festas, dois ou três bares, cantina privada, salão de jogos, salas e auditórios, um edifício só para mestrados. Decidi então agarrar a oportunidade. Todavia, a tarefa não se adivinhava fácil. Na primeira aula de matemática, o professor começou a “disparar” matéria naqueles quadros rotativos; encheu dois e apagou-os numa altura em que eu ainda estava a anotar o primeiro. Se eu deixasse cair a caneta, corria o risco de perder uma série de matéria. Ao fim de uma semana, o professor afirmou: “Acabámos as revisões do 12.º ano. Vamos começar agora a dar o programa.” Fiquei incrédulo! Eu não me recordava de nada daquilo, até porque não fui um aluno muito dedicado. Como resultado, cancelei três ou quatro disciplinas logo no segundo período, incluindo matemática. No secundário, estudava sempre no dia antes e com recurso a te**es que amigos me facultavam, confiando que aquela seria a matéria abordada. Foi dessa forma que cheguei à universidade, sem nenhumas bases.
Recordo-me também de que numa turma de 26 alunos em Introdução à Informática, passaram dois, sendo eu um deles. Estamos a falar de lições sobre como entrar no Windows, criar uma pasta, etc. O outro aluno que passou vinha da área da programação, como a que havia na Escola das Laranjeiras - eu estudei na Domingos Rebelo, trabalhei com o Office e pouco mais. Ainda assim, consegui passar com 10,5 valores. O certo é que senti que aquela não era a minha “praia” - ritmo desenfreado nas aulas de matemática, a Introdução à Economia com termos complexos, ministrada pelo consultor financeiro do Belmiro de Azevedo... Fiquei com a consciência real do que era o Iscte.
𝗤𝘂𝗮𝗻𝘁𝗼 𝘁𝗲𝗿𝗺𝗶𝗻𝗮 𝗮 𝘀𝘂𝗮 𝗵𝗶𝘀𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗮 𝗲𝗺 𝗟𝗶𝘀𝗯𝗼𝗮?
Ao fim de três anos e meio. Entretanto, já estava a trabalhar na universidade. Não completei o curso, mas não perdi a oportunidade de explorar tudo a que tinha acesso. Tive formação em televisão e produção de vídeo e trabalhei no canal de televisão da escola, com acesso, por exemplo, a uma consola de edição de vídeo que, hoje em dia, está em qualquer telemóvel. Tratava-se de uma máquina Panasonic, sem disquetes nem CD-ROM. Era uma máquina “fechada”, com um monitor CRT de 27’’ – ou seja, parecia um frigorífico. À data, custou cerca de 20 mil contos [100 mil euros]. Era uma estação com capacidade para apenas 30 minutos de armazenamento de vídeo. Não era, de todo, possível ligar discos externos. Estávamos em 1998, nos primórdios das estações digitais de vídeo. Aquela era uma das coqueluches tecnológicas do Iscte, a par de uma Silicon Graphics que custou um valor exorbitante. Era a única máquina chumbada na secretária e fechada a cadeado - isso no laboratório multimédia, não nas unidades públicas. Ainda assim, era das máquinas mais baratas que faziam os filmes em Hollywood. Foi adquirida pelo Iscte para desenvolver uma aplicação parecida com o “espelho mágico”, em que carregávamos um catálogo de roupas e aparecíamos vestidos com elas, num ambiente 3D.
Nos Açores, o máximo que conseguíamos instalar de internet em casa, para quem tinha algum dinheiro, era uma RDIS de 64 kbps. A ligação do Iscte era feita por uma linha T1 com uma largura de banda de cerca 1,5 Mbps, a dividir pela universidade toda. Quando havia menos tráfego, a linha ficava mesmo rápida e era então que fazia o teste de transferir um CD (650 MB) para uns conhecidos em Coimbra. A transferência “voava” e nós ficávamos “babados”!
Em relação aos MP3, o primeiro que descarreguei foi do «Candle In The Wind», do Elton John. A minha mãe queria muito esse tema, por causa da morte da princesa Diana. O descarregamento demorou cerca de quatro horas, e mesmo assim foi um “sucesso” - o tema tinha acabado de sair.
Entretanto, integro um grupo de utilizadores de Linux e faço amigos que me dão acesso a um mundo completamente diferente dentro da universidade, mas fora do curso. Falo do mundo das redes, da internet nua e crua de transferência de ficheiros, criação de servidores e sites, etc. Era óptimo, porque acabávamos o quinto ano do curso sem saber trocar um disco rígido. O curso estava formatado para termos algumas noções de informática na perspectiva de um líder que toma decisões numa empresa, não para quem quer estar em frente a uma máquina. Foi assim que começou a minha paixão pelo vídeo e pela fotografia.
𝗖𝗼𝗺𝗲𝗰̧𝗼𝘂 𝗮 𝘁𝗶𝗿𝗮𝗿 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗶𝗮𝘀 𝗮 𝗯𝗮𝗻𝗱𝗮𝘀 𝗲𝗺 𝟭𝟵𝟵𝟲, 𝗮𝗶𝗻𝗱𝗮 𝗮𝗻𝘁𝗲𝘀 𝗱𝗲 𝗲𝗻𝘁𝗿𝗮𝗿 𝗻𝗼 𝗜𝘀𝗰𝘁𝗲…
Sim, mas não tinha material próprio.
𝗢 𝘀𝗲𝘂 𝗲𝗾𝘂𝗶𝗽𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗽𝗲𝘀𝘀𝗼𝗮𝗹 𝗲́ 𝗲𝗻𝘁𝗮̃𝗼 𝗮𝗱𝗾𝘂𝗶𝗿𝗶𝗱𝗼 𝗲𝗺 𝟮𝟬𝟬𝟮…
Exacto, mas antes já tirava fotos, em jeito de brincadeira, quando fazia parte dos Carnification. As fotografias eram analógicas - não fiz muitas nesse formato. Os primeiros registos digitais que tenho são dos Morbid Death, graças ao Luís, técnico de luzes da banda, que tinha comprado uma Sony. Tirei muitas fotografias com essa máquina. As fotografias analógicas que tirei, não as tenho. Fotografava só para as bandas.
𝗔𝘁𝗲́ 𝗽𝗼𝗿𝗾𝘂𝗲 𝗱𝗲𝗽𝗼𝗶𝘀 𝘁𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗱𝗲 𝗶𝗿 𝗮𝗼 𝗚𝗶𝗹𝗯𝗲𝗿𝘁𝗼 𝗡𝗼́𝗯𝗿𝗲𝗴𝗮…
Pois, o analógico nunca “resultou” muito para mim, porque tínhamos o custo do rolo e da revelação, sem a garantia de que as fotos ficariam em condições. Depois desse envolvimento com as bandas, e regressado do Iscte, a vontade era muita de fazer coisas, visto que já estava a trabalhar com câmaras semiprofissionais e mesas de edição não-lineares (analógicas) - andávamos à frente e atrás com as cassetes e fazíamos cortes. Gostava de dar seguimento a esse trabalho, mas o investimento em vídeo é enorme. Quando arranjo um emprego, continuo a gostar imenso de música e resolvo comprar, num certo Natal e com a ajuda da minha mãe, a minha primeira máquina fotográfica digital. Até lá, cheguei a fotografar o rally com uma máquina de disquetes - era outro “filme”.
𝗗𝗮𝗾𝘂𝗲𝗹𝗮𝘀 𝗱𝗶𝘀𝗾𝘂𝗲𝘁𝗲𝘀 𝗲𝗻𝗼𝗿𝗺𝗲𝘀?
Não, refiro-me à terceira geração de disquetes. O tamanho das primeiras era de 8 polegadas, a segunda de 5,25 polegadas e a terceira de 3,5 polegadas. A questão é que cada disquete suportava mais ou menos quatro fotografias. Tinha de ir para o rally com uma caixa de disquetes às costas. E depois havia o mesmo problema do rolo: se, por algum motivo, surgisse um erro de leitura, perdíamos todo o material. Isso foi numa altura em que ainda era cedo para comprar as máquinas digitais. Entretanto, saiu a Sony F828 do Luís, que era um autêntico “canhão”. Ainda hoje surpreende a sua qualidade, mas era muito cara. Então, decidi comprar a minha primeira máquina - uma Fuji S5000. Terá custado cerca de 600 euros, incluindo os cartões de memória. Creio que funcionava a pilhas, o que, por um lado, era uma vantagem - as pilhas recarregáveis eram muito mais baratas do que as baterias e podíamos cobrir um evento com dois ou três conjuntos de pilhas.
𝗤𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗰𝗼𝗺𝗽𝗿𝗼𝘂 𝗼 𝗲𝗾𝘂𝗶𝗽𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮́𝗳𝗶𝗰𝗼, 𝗷𝗮́ 𝘁𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗲𝗺 𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗰𝗿𝗶𝗮𝗿 𝗼 𝗖𝗼𝗻𝘁𝗿𝗮𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼?
Não, tinha apenas o intuito de continuar a fazer o que gostava. No entanto, após dois ou três eventos começaram a perguntar-me como podiam aceder às fotos.
𝗟𝗲𝗺𝗯𝗿𝗮-𝘀𝗲 𝗱𝗼 𝗽𝗿𝗶𝗺𝗲𝗶𝗿𝗼 𝘁𝗿𝗮𝗯𝗮𝗹𝗵𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗳𝗲𝘇 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗼 𝗖𝗼𝗻𝘁𝗿𝗮𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼? 𝗡𝗼 𝗶𝗻𝗶́𝗰𝗶𝗼, 𝗻𝗲𝗺 𝗳𝗮𝘇𝗶𝗮 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗶𝗮 𝘀𝗼𝗰𝗶𝗮𝗹…
No início só fotografava concertos. Nem havia sequer o hábito de fotografar pessoas, a não ser para a comunicação social, nomeadamente para as revistas Açorianíssima, Açores e Saber. A maior parte dessas publicações não cobria concertos de heavy metal. A revista Açores cobria alguns eventos, tendencialmente se tivessem a chancela ou o apoio da Câmara Municipal de Ponta Delgada. É então que começo a colaborar com eles na cobertura de eventos de heavy metal. Lembro-me de que foi o Eduardo Costa que chamou a atenção para alguém que fazia esse trabalho. Eles pensaram: no lugar de nos deslocarmos para fazer cinco ou seis fotografias, temos quem cubra os eventos do princípio ao fim. Assim, falaram comigo e comecei a colaborar com a revisa, já com o Contratempo em funcionamento.
𝗩𝗼𝗹𝘁𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗮̀ 𝗾𝘂𝗲𝘀𝘁𝗮̃𝗼 𝗱𝗼 𝗮𝗰𝗲𝘀𝘀𝗼 𝗮̀𝘀 𝗳𝗼𝘁𝗼𝘀: 𝘀𝗲𝗺 𝗼 𝘀𝗶𝘁𝗲, 𝗮 𝘂́𝗻𝗶𝗰𝗮 𝗳𝗼𝗿𝗺𝗮 𝗱𝗲 𝗼 𝗳𝗮𝘇𝗲𝗿 𝗲𝗿𝗮 𝗽𝗼𝗿 𝗖𝗗 𝗼𝘂 𝗱𝗶𝘀𝗾𝘂𝗲𝘁𝗲…
Pois, porque num festival com cinco bandas, cada elemento queria as suas fotos. Tive de pensar numa solução. A primeira versão do Contratempo surge de uma área de trabalho no site do Iscte. Foi aí que comecei, pela meu endereço de aluno, a descarregar as fotos para um directório, não para um site propriamente dito. Tratava-se de um arquivo ou explorador de ficheiros online. Todavia, com as ligações lentas que tínhamos cá, esse método não era prático. Pedi ajuda ao Rui, um dos amigos que fiz na universidade, que me arranjou um software gratuito – naquela altura, já havia software pago e bem pago. Onde encontrávamos alguns softwares e sharewares gratuitos era no toKaos. Então, ele montou-me o Menalto Gallery, que ainda hoje funciona e continua a ser o meu preferido em termos de gestão e publicação de fotografias na web.
𝗘́ 𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗮𝗶𝗻𝗱𝗮 𝘂𝘁𝗶𝗹𝗶𝘇𝗮?
Deixei de o usar, porque o Contratempo passou por várias transformações. É curioso que antes das redes sociais o próprio Contratempo já era uma espécie de rede social.
𝗛𝗼𝘂𝘃𝗲 𝘂𝗺𝗮 𝗳𝗮𝘀𝗲 𝗲𝗺 𝗾𝘂𝗲, 𝗱𝗲 𝗳𝗮𝗰𝘁𝗼, 𝗮 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗮𝗰𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗼𝘀 𝘂𝘁𝗶𝗹𝗶𝘇𝗮𝗱𝗼𝗿𝗲𝘀 𝗰𝗿𝗶𝗮𝘃𝗮 𝘂𝗺 𝗮𝗺𝗯𝗶𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗯𝗮𝘀𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲 𝘁𝗼́𝘅𝗶𝗰𝗼, 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗱𝗶𝘇𝗲𝗿 𝗼 𝗺𝗶́𝗻𝗶𝗺𝗼…
Sim, mas eram os comentários que criavam o “engagement”, como se diz agora. Se entrarmos então nas histórias caricatas do site… A malícia era tão grande que consultavam a data e a hora da foto para rastrear a localização de certas pessoas. Muitos relacionamentos foram afectados por isso. Acontecia, do género: “Disseste que estavas em casa, mas a tal dia e tal hora apareceste no Contratempo.” E por causa das reportagens do Dia dos Amigos houve vários divórcios.
𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗲́ “𝗼𝗳𝗳 𝘁𝗵𝗲 𝗿𝗲𝗰𝗼𝗿𝗱”?
Não, não há problema nenhum. Eu não tenho culpa que não queiram aparecer nas fotografias mas se metam na fila da frente quando estou a fotografar uma stripper. Muitas pessoas estavam lá só a tomar um copo e não havia problema. No entanto, a verdade é que nunca achei muita piada a esses eventos. A pior noite do ano era, sem dúvida, a do Dia dos Amigos.
𝗣𝗼𝗿𝗾𝘂𝗲̂?
Em primeiro lugar, eram só homens sequiosos por ver mulheres, que acabavam por não ver; em segundo, era um pivete intenso a perfume de homem. O ambiente era demasiado másculo, com muita testosterona aos saltos. Ironicamente, quando entravam as st*****rs transformavam-se todos em “cachorrinhos”.
Algo de que sempre gostei na parte social do Contratempo foi tirar fotos a amigos, mas, acima de tudo, a gente gira, casais ou mulheres. O objectivo era fazer perceber a quem estivesse do outro lado que o local era “bem frequentado”. Caso contrário, “queimava-se” uma casa num instante.
𝗔𝗰𝗮𝗯𝗮𝘃𝗮 𝗽𝗼𝗿 𝘁𝗲𝗿 𝘂𝗺 𝗰𝗲𝗿𝘁𝗼 𝗽𝗼𝗱𝗲𝗿 𝗻𝗮𝘀 𝗺𝗮̃𝗼𝘀…
Sim, mas sempre com o cuidado de equilibrar o que fotografava.
𝗣𝗼𝗿 𝗲𝘅𝗲𝗺𝗽𝗹𝗼, 𝗼𝘀 𝗴𝗲𝗿𝗲𝗻𝘁𝗲𝘀 𝗱𝗮𝘃𝗮𝗺-𝗹𝗵𝗲 𝗶𝗻𝗱𝗶𝗰𝗮𝗰̧𝗼̃𝗲𝘀 𝘀𝗼𝗯𝗿𝗲 𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗮𝗿?
Não, todos me davam “carta-branca”. No Coliseum ou no PDL - casas que fotografava com mais frequência –, eu tinha livre-trânsito e bebia o que queria. No entanto, aconteceu algumas vezes, depois de algumas bebidas e eu sem fotografar, o gerente aproximar-se e dizer discretamente: “Não vais tirar umas fotografias?” Eu respondia: “Olha para a casa!” Depois da resposta, davam-me um abraço e diziam: “És mesmo amigo!” Resumindo, em noites “más”, quando disparamos o primeiro flash, os pedidos para fotos espalham-se como vírus, e eu via-me obrigado a publicá-las. A questão é que não é positivo divulgar esse tipo de noite.
Noutra ocasião, organizei, com o João Pedro, uma festa de Halloween na Academia das Artes. Convidámos a comunicação social com a normativa de que só poderiam ser captadas imagens entre a 1h e as 3h da manhã – que era a hora em que calculávamos que a festa estivesse no seu auge. No entanto, a RTP Açores estava à porta às 10h30. A casa estava vazia àquela hora e era impossível deixarmos captar imagens daquele ambiente para exibir no telejornal. Um dia que quiséssemos organizar novo evento, a imagem que ficaria para 90% das pessoas era que o evento tinha sido um fiasco.
𝗨𝗺 𝗲𝗿𝗿𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗼𝗱𝗲𝗿𝗶𝗮 𝗿𝗲𝘃𝗲𝗹𝗮𝗿-𝘀𝗲 𝗳𝗮𝘁𝗮𝗹…
Claro, porque o evento até estava esgotado! Inclusive, contratámos figurantes trajados de monstros e demónios para que o público, quando chegasse, não sentisse o impacto da sala vazia. Tínhamos tudo muito bem pensado. No entanto, a TVI abriu o jornal da noite com uma peça a mostrar uma enorme festa!
Tudo isto para dizer que foi sempre uma preocupação do Contratempo saber o que captar e o que deixar ou não passar. Melhor dizendo, antes de deixar passar é não deixar acontecer, o que nem sempre é fácil. Actualmente, é quase proibido tirar fotografias ao público na grande maioria dos festivais locais. As organizações só querem imagens dos artistas.
𝗣𝗼𝗿 𝗲𝘀𝘁𝗿𝗮𝘁𝗲́𝗴𝗶𝗮 𝗼𝘂 𝗶𝗺𝗽𝗼𝘀𝗶𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗹𝗲𝗴𝗮𝗹?
Não são todos os organizadores, mas o objectivo é basicamente não conotar este ou aquele festival com este ou aquele público. Além disso, também é cada vez mais complicado garantir credenciais. Hoje em dia, qualquer pessoa pode criar uma página no Facebook, mas a questão é: qual a mais-valia que certas páginas trazem aos eventos? Os festivais já têm as suas próprias redes sociais. Por exemplo, a Festa do Chicharro tem 39 mil seguidores; o Monte Verde tem 44 mil seguidores. As páginas específicas de fotografia já não atingem esses valores, que eu saiba. O normal é atingirem 10 mil seguidores, o que já é uma grande página. O Contratempo tem 32 mil. Se tiverem uma página com 2 mil ou 3 mil seguidores e quiserem escrever uma peça, ainda é possível, mas no campo da fotografia a análise é diferente.
𝗛𝗮́ 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝘁𝗲𝗻𝘁𝗮𝘁𝗶𝘃𝗮𝘀 𝗱𝗲 𝗮𝗰𝗲𝘀𝘀𝗼𝘀 𝗴𝗿𝗮𝘁𝘂𝗶𝘁𝗼𝘀 𝗽𝗼𝗿 𝗽𝗮𝗿𝘁𝗲 𝗱𝗲 𝗶𝗻𝗶𝗰𝗶𝗮𝗻𝘁𝗲𝘀?
Sim. Aliás, são concedidas menos acreditações precisamente por haver demasiados pedidos. Lembro-me de numa das primeiras edições do Monte Verde, sem querer exagerar, terem sido feitos 50 pedidos de credenciação.
𝗦𝗼́ 𝗽𝗼𝗿 𝗳𝗼𝘁𝗼́𝗴𝗿𝗮𝗳𝗼𝘀 𝗹𝗼𝗰𝗮𝗶𝘀?
Sim. Não existe cá esse número de órgãos de comunicação ou projectos de fotografia. O pensamento é: tenho uma máquina, gosto de tirar fotografias e quero cobrir um evento. Cabe aos organizadores fazerem uma selecção criteriosa das mais-valias que estes projectos lhes trazem. Não têm de ficar desconfortáveis por negarem acessos, muito menos por causa de amizades.
𝗢 𝗖𝗼𝗺𝗽𝗹𝗲𝘅𝗼 𝗡 𝗲𝘀𝘁𝗮𝗿𝗶𝗮 𝘀𝗶𝗺𝗽𝗹𝗲𝘀𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗰𝗼𝗻𝗱𝗲𝗻𝗮𝗱𝗼 𝗻𝗲𝘀𝘀𝗲 𝗮𝘀𝗽𝗲𝗰𝘁𝗼, 𝗲𝗺𝗯𝗼𝗿𝗮 𝗮 𝗻𝗼𝘀𝘀𝗮 𝗹𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗲𝗱𝗶𝘁𝗼𝗿𝗶𝗮𝗹 𝘀𝗲𝗷𝗮 𝗼𝘂𝘁𝗿𝗮…
Não necessariamente, porque os seguidores do Complexo N podem ser “seguidores” na verdadeira acepção da palavra. Os vossos seguidores podem interagir mais com a página do que os 32 mil do Contratempo. No Facebook temos de estar constantemente a criar conteúdos.
𝗘 𝗰𝗼𝗻𝘃𝗲𝗻𝗶𝗲𝗻𝘁𝗲, 𝗱𝗶𝘇𝗲𝗺 𝗲𝗹𝗲𝘀…
Não é meramente questão de ser conveniente, a plataforma só funciona assim! O Facebook não dá nada de graça. Os “gostos” são importantes, mas, por exemplo, os comentários são ainda mais, porque notificam outros utilizadores.
𝗩𝗼𝗹𝘁𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗮𝗼 𝗽𝗮𝘀𝘀𝗮𝗱𝗼: 𝗿𝗲𝗴𝗿𝗲𝘀𝘀𝗼𝘂 𝗱𝗮 𝘂𝗻𝗶𝘃𝗲𝗿𝘀𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗲 𝗰𝗼𝗺𝗲𝗰̧𝗼𝘂 𝗮 𝘁𝗿𝗮𝗯𝗮𝗹𝗵𝗮𝗿 𝗻𝗮 𝗦𝗔𝗧𝗔, 𝗼𝗻𝗱𝗲 𝘀𝗲 𝗺𝗮𝗻𝘁𝗲́𝗺 𝗮𝘁𝗲́ 𝗵𝗼𝗷𝗲…
Sim, entrei para a companhia aérea em 1 de Fevereiro de 2000. Tinha regressado da universidade em Agosto de 1999. Entrei como fiel de armazém na secção das aeronaves. Seguiu-se o convite para a vaga de fiel de armazém e gestor de stocks e compras do serviço de equipamento da SATA Handling.
𝗔𝗹𝗴𝘂𝗿𝗲𝘀 𝗾𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗲𝗻𝘁𝗿𝗮 𝗻𝗮 𝗦𝗔𝗧𝗔 𝗳𝗿𝗲𝗾𝘂𝗲𝗻𝘁𝗮 𝘁𝗮𝗺𝗯𝗲́𝗺 𝗮 𝗨𝗻𝗶𝘃𝗲𝗿𝘀𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗱𝗼𝘀 𝗔𝗰̧𝗼𝗿𝗲𝘀…
Comecei a trabalhar na SATA por turnos, o que traz desvantagens, mas também vantagens. Uma das vantagens é o tempo disponível. A cada quatro dias de trabalho, descansávamos dois. A desvantagem é que os amigos têm as folgas aos fins-de-semana e deixamos de ter vida social. Posto isto, e já fazendo alguns trabalhos de fotografia, ocorreu-me voltar a estudar. Fiz a transferência de curso e a ideia era fazê-lo aos poucos.
𝗣𝗿𝗼𝘀𝘀𝗲𝗴𝘂𝗶𝘂 𝗼𝘀 𝗲𝘀𝘁𝘂𝗱𝗼𝘀 𝗻𝗮 𝗺𝗲𝘀𝗺𝗮 𝗮́𝗿𝗲𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝗼 𝗜𝘀𝗰𝘁𝗲?
Em Ponta Delgada chamava-se Gestão Informática, não Informática e Gestão de Empresas. Era basicamente a mesma coisa, mas a qualidade do ensino era diferente. Desisti rápido.
𝗦𝗶𝗴𝗻𝗶𝗳𝗶𝗰𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝗮 𝗮́𝗿𝗲𝗮 𝗱𝗮 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗶𝗮 𝗲́ 𝗰𝗼𝗺𝗽𝗹𝗲𝘁𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗮𝘂𝘁𝗼𝗱𝗶𝗱𝗮𝗰𝘁𝗮, 𝘂𝗺𝗮 𝘃𝗲𝘇 𝗾𝘂𝗲 𝗮 𝘀𝘂𝗮 𝗳𝗼𝗿𝗺𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗲𝘀𝘁𝗲𝘃𝗲 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗼𝗿𝗶𝗲𝗻𝘁𝗮𝗱𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗼 𝘃𝗶́𝗱𝗲𝗼 𝗲 𝗮 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗻𝗲𝘁…
Sim, mas em 2007 fiquei a conhecer a Associação de Fotógrafos Amadores dos Açores, onde tive algumas formações, numa altura em que o Contratempo já estava em alta. Mais ou menos em simultâneo, fiz um acordo publicitário como nunca fiz na vida, e que me ajudou a pagar um conjunto topo de gama da Canon.
𝗤𝘂𝗲𝗺 𝗳𝗼𝗿𝗮𝗺 𝗼𝘀 𝗶𝗻𝘃𝗲𝘀𝘁𝗶𝗱𝗼𝗿𝗲𝘀?
O Grupo Mobilar. O site tinha uma média de mil visitas por dia, o que para o contexto regional era muito. Nessa altura, o site estava alojado nos servidores do meu tal amigo Rui. Ele alojava outros sites de grande dimensão, como os dos Hospitais Lusíadas ou sistemas de reservas da Lufthansa. No entanto, o Contratempo consumia mais recursos do que todos os outros juntos. Os sites eram basicamente um cartão-de-visita, as pessoas faziam as suas vidas por telefone, mas o Contratempo tinha, efectivamente, movimento. Vendo isto, o Grupo Mobilar decidiu comprar-nos cerca de 20 espaços de publicidade. Inicialmente, estavam com muita vontade de fazer coisas, e eu agradeci imenso, mas com o tempo não dinamizaram a sua imagem. Eu sugeri que tivessem uma equipa própria a produzir publicidade. Colocar apenas o logótipo da empresa num site, não paga o investimento.
𝗔𝘁𝗲́ 𝗳𝗼𝗶 𝗮𝘁𝗲𝗻𝗰𝗶𝗼𝘀𝗼 𝗰𝗼𝗺 𝗲𝗹𝗲𝘀….
A determinada altura deixei de me preocupar com isso. O acordo foi por três anos, representando uns quantos milhares de euros, daí ter conseguido comprar tanto material. De facto, éramos o site com mais visibilidade, sem dúvida, e eles ficaram satisfeitos. O que me fazia confusão era que, se eu tivesse investido tanto em publicidade, aspirava vender frigoríficos e televisores todos os dias. Mas o conceito que existia era o da publicidade na comunicação social escrita, ou seja, a ideia era apenas as pessoas verem o nome da empresa. Isso não acontece com a McDonald’s; eles publicitam modelos de hambúrgueres ou promoções especiais. Por exemplo, no Mundial de Futebol a decorrer, a FIFA proibiu namings de estádios, cujas marcas não constam na lista de patrocinadores da competição. Em jeito irónico, a Levi’s cobriu o seu logótipo com um tecido, mas manteve a silhueta da marca visível no estádio.
Resumindo, na altura do acordo com a Mobilar, as coisas estavam a correr bem com o site. O bar Fairplay também pagava bem. No entanto, começou a haver alguns equívocos por parte de certos clientes. Alguns entendiam que ao comprar um espaço de publicidade também tinham direito a reportagem fotográfica. São coisas completamente distintas. Não havia a definição de comprar as reportagens. A partir daí, começou a haver um certo menosprezamento do portal, com comentários do género: “Ah, é só um site.” No entanto, era um site que já chegava a 4 mil ou 5 mil pessoas por dia.
𝗡𝗲𝗺 𝗾𝘂𝗲 𝗳𝗼𝘀𝘀𝗲 𝗽𝗼𝗿 𝗶𝘀𝘀𝗼, 𝘀𝘂𝗿𝗴𝗶𝘂 𝗮 𝗿𝗲𝘃𝗶𝘀𝘁𝗮 𝗖𝗼𝗻𝘁𝗿𝗮𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼, 𝗲𝗺 𝟮𝟬𝟬𝟴, 𝗰𝗼𝗺 𝘂𝗺𝗮 𝗾𝘂𝗮𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗻𝗼𝘁𝗮́𝘃𝗲𝗹…
Foi um projecto que surgiu pela razão de nos fecharem muitas portas, alegadamente por a internet não alcançar certos públicos-alvo. Parece absurdo, mas a justificação que nos davam era que o site não era mainstream e que as empresas só apostavam em projectos já firmados. Além disso, diziam que a internet ainda não tinha a mesma credibilidade e projecção que os órgãos de comunicação social tradicionais. Em conjunto com o João Pedro Vaz Medeiros, que era um excelente designer, resolvemos então passar o Contratempo para o papel. A revista tinha um conceito completamente diferente daquilo que existia na região, e penso que mesmo a nível nacional. Não havia maquetes ou templates fixos. Cada página, cada evento e cada assunto tinham um design exclusivo. Além disso, sabíamos que quem consumia este tipo de produto não queria texto. Assim, a aposta muito forte foi na concepção gráfica e conseguimos granjear algum estatuto junto das entidades oficiais.
𝗗𝗶𝗴𝗮-𝘀𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝗿𝗮 𝘂𝗺 “𝗿𝗲𝘃𝗶𝘀𝘁𝗮̃𝗼”…
Sim. Inclusive, a Nova Gráfica, que produzia a revista, levou-a para um concurso internacional. Foi um projecto muito bonito, mas que me deixou um grande buraco financeiro.
𝗢 𝗶𝗻𝘃𝗲𝘀𝘁𝗶𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗳𝗼𝗶 𝘁𝗼𝘁𝗮𝗹𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗶𝗻𝗱𝗲𝗽𝗲𝗻𝗱𝗲𝗻𝘁𝗲?
Sim, não tivemos nenhum apoio.
𝗤𝘂𝗮𝗻𝘁𝗮𝘀 𝗽𝗲𝘀𝘀𝗼𝗮𝘀 𝗲𝘀𝘁𝗮𝘃𝗮𝗺 𝗮𝗼 𝗹𝗲𝗺𝗲?
A revista era minha. O João Pedro tratava da paginação e da parte criativa; eu captava e selecionava as fotos e coordenava a equipa de textos – composta, essencialmente, pela Cristina Silva. Conciliava tudo isto com a minha profissão na SATA e com a actividade de fotógrafo. Dormia muito pouco. Todo o dinheiro que fazia era “enterrado” na revista, porque para o primeiro e segundo números não havia praticamente orçamento. Batíamos às portas, mas, por mais amigos que fossem, diziam que tínhamos de apresentar números. Infelizmente, algumas das entidades que acabaram por dar apoios simbólicos, fizeram a ordem de pagamento já com a revista encerrada. Seis meses depois, as contas já são muito grandes para estar à espera de certos apoios. Fora as dívidas que nos deixaram por alegadamente não ter entrado o número suficiente de pessoas que os publicitantes esperavam que entrasse nas suas lojas. Fizemos um contrato de publicidade, não damos a garantia de venda de produto. Foram várias pessoas nessas circunstâncias. Além disso, não recebemos o dinheiro da venda das revistas. A determinada altura, deixei andar, enquanto me diziam que não devia desistir e ir atrás do dinheiro. Eu entendi que não, que ia gastar ainda mais dinheiro nesse processo. Fui desde o início contra a ideia de a revista ser paga. Custava 2 euros, não era fortuna nenhuma para a qualidade oferecida em 60 páginas. E nunca tive ninguém a queixar-se do preço da revista; simplesmente, a revista estava nos sítios, as pessoas folheavam-na, achavam piada, mas não compravam. Estavam habituadas a ter tudo de graça. Por isso tinha defendido que a revista devia ser gratuita. A partir do momento em que é obrigatório pagar, deixam de nos ver como “amigos”. Isso foi algo que já me tinha acontecido com o site. Como falávamos no início, a balbúrdia que se criava na caixa de comentários das fotos obrigou-me a impor registos de utilizador, mas com isso os comentários decaíram em mais de 80%. Já não dava para “ofender” ninguém…
𝗤𝘂𝗮𝗻𝘁𝗼𝘀 𝗻𝘂́𝗺𝗲𝗿𝗼𝘀 𝗱𝗮 𝗿𝗲𝘃𝗶𝘀𝘁𝗮 𝗳𝗼𝗿𝗮𝗺 𝗹𝗮𝗻𝗰̧𝗮𝗱𝗼𝘀?
Seis. Projectávamos a revista para sair mensalmente, mas se, por exemplo, houvesse um SATA Rallye Açores, ela estava nas bancas uma semana depois do evento. Tínhamos em consideração o calendário dos maiores eventos. Resultava daí que a revista estava presente nas iniciativas, as pessoas viam-na e gostavam. O Contratempo ganhou muita notoriedade dessa forma - foi um investimento bom, nesse sentido. Contudo, em termos financeiros foi uma aventura péssima. Foram três anos a pagar a revista. O maior problema foi termos perdido um dos nossos fundadores logo no início, o Rui Ferreira. Ele era o “homem dos motores”, apresentava o programa «Máquinas e Lazer» na RTP Açores. Na produção do primeiro número, ele sofreu um AVC e não pudemos contar mais com ele. O Rui era o trunfo maior daquela revista na parte comercial. Ele tinha acesso a tudo e mais alguma coisa. Com ele, quase de certeza que a revista tinha tido outro desfecho. Ficámos sem um jornalista e sem um comercial.
Volto a sublinhar que a revista era de topo. Inclusive, em alguns números, a capa tinha as letras em relevo. Alguns desses pormenores foram apostas da Nova Gráfica. Houve ideias que funcionaram, outras nem tanto. Hoje em dia, quando vejo os p**os a dizerem que naquele tempo as coisas eram mais fáceis… Bom, quando penso que numa das capas das revistas estava um cavaleiro na Feira de Santana, e o João Pedro esteve cerca de duas ou três horas a recortá-lo para que ele sobressaísse das letras… Hoje em dia, fazemos um quadrado à volta do cavalo e o Photoshop selecciona tudo automaticamente. Há poucas semanas, melhoraram ainda mais essas ferramentas e já é possível seleccionar cabelo a cabelo.
𝗔 𝗿𝗲𝘃𝗶𝘀𝘁𝗮 𝘁𝗲𝗿𝗺𝗶𝗻𝗮, 𝗺𝗮𝘀 𝗼 𝘀𝗶𝘁𝗲 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗮…
Sim, mas com o surgimento das redes sociais, o site passou a ser uma plataforma algo obsoleta. De qualquer forma, é uma estrutura mais organizada. Possibilita consultar reportagens mais extensas. Por mais que tentemos evitar, fazemos 300 ou 400 fotos de um evento. Carregar essas quantidades para um álbum do Facebook é um pesadelo. O Facebook só permite carregar lotes de 75 fotos.
𝗘 𝗮 𝗽𝗿𝗼́𝗽𝗿𝗶𝗮 𝗰𝗼𝗺𝗽𝗿𝗲𝘀𝘀𝗮̃𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗼 𝗙𝗮𝗰𝗲𝗯𝗼𝗼𝗸 𝗮𝗽𝗹𝗶𝗰𝗮 𝗮̀𝘀 𝗳𝗼𝘁𝗼𝘀 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́ 𝗱𝗲𝘀𝗲𝗷𝗮́𝘃𝗲𝗹…
Há alguns truques que permitem carregar fotos para o Facebook com pouca ou nenhuma compressão. No site, as fotos têm mais qualidade, garantidamente, e existem links para os utilizadores descarregarem facilmente as fotos. No Facebook, o mais normal é carregarmos as fotos numa versão web, para não demorar muito tempo.
𝗢 𝗙𝗮𝗰𝗲𝗯𝗼𝗼𝗸 𝗲́ 𝗵𝗼𝗷𝗲 𝗼 𝗲𝘀𝘁𝗲𝗶𝗼 𝗱𝗼 𝗽𝗿𝗼𝗷𝗲𝗰𝘁𝗼?
Não necessariamente. Nos últimos anos, não disponibilizamos as galerias completas no Facebook. Criamos galerias para promover apenas as melhores fotos de alguns eventos. Como disse, depois da selecção das fotografias, por mais resumidos que sejamos, estamos a falar sempre de cerca de 500 fotografias. No dia seguinte são mais 400. Esse cenário numa plataforma como o Facebook faz com que as pessoas se percam. Através do site é muito mais fácil encontrar o que queremos. O problema é que o site tem custos e o Facebook não tem.
𝗦𝗲 𝗱𝗲𝘀𝗲𝗻𝗵𝗮́𝘀𝘀𝗲𝗺𝗼𝘀 𝘂𝗺𝗮 𝗰𝘂𝗿𝘃𝗮 𝗱𝗲 𝗱𝗲𝘀𝗲𝗺𝗽𝗲𝗻𝗵𝗼 𝗱𝗼 𝗖𝗼𝗻𝘁𝗿𝗮𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼, 𝗰𝗼𝗺𝗼 𝘀𝗲𝗿𝗶𝗮 𝗲𝗹𝗮 𝗵𝗼𝗷𝗲?
Neste momento, o site está em “águas de bacalhau”. Dedico muito menos tempo ao projecto.
𝗦𝗲𝗿𝗮́ 𝗽𝗼𝗿𝗾𝘂𝗲 𝗳𝗼𝗶 𝗽𝗮𝗶 𝗿𝗲𝗰𝗲𝗻𝘁𝗲𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲?
Não. De qualquer forma, nos últimos anos, quem fazia os trabalhos fotográficos comigo era a minha esposa. Nos rallies tinha alguns colaboradores. Desde o início do processo de gravidez colocámos o projecto um pouco de lado. Mais importante do que isso foi termos reflectido e concluído que, 20 anos depois da criação do Contratempo, não fazia sentido continuar a cobrir certos eventos apenas para obter “gostos” no Facebook. Ou somos remunerados ou então não vale a pena. Por outro lado, também não faz sentido uns pagarem e outros não. Todo o conceito do Contratempo foi sempre de forma gratuita – só fazemos aquilo de que gostamos e quando queremos. Quando eu era solteiro, tinha muita disponibilidade. Fazia de tudo e mais alguma coisa, porque me dava gozo, o movimento do site motivava-me. Continuo a ter o mesmo prazer de fotografar, mas quando faço um evento bem feito - sem me querer gabar -, com material caro, e depois um p**o faz um post com um iPhone e consegue milhares de “gostos”, dá que pensar se algo não está errado. Digo isto em tom de brincadeira, porque entre sair de casa para cobrir um evento e ficar em casa a ver a Netflix, que me desculpem, mas ganho o mesmo.
𝗔𝗽𝗲𝘀𝗮𝗿 𝗱𝗲 𝘂𝗺 𝗰𝗲𝗿𝘁𝗼 𝗱𝗲𝗰𝗹𝗶́𝗻𝗶𝗼 𝗱𝗼 𝗽𝗿𝗼𝗷𝗲𝗰𝘁𝗼, 𝗻𝗶𝗻𝗴𝘂𝗲́𝗺 𝗲𝘀𝗾𝘂𝗲𝗰𝗲 𝗼 𝗖𝗼𝗻𝘁𝗿𝗮𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼…
Sim, mas os p**os não me conhecem.
𝗠𝗮𝘀 𝗻𝗮̃𝗼 𝘀𝗲𝗿𝗮̃𝗼 𝗼𝘀 𝗽𝘂𝘁𝗼𝘀 𝗮 𝗰𝗼𝗺𝗽𝗿𝗮𝗿 𝗼𝘀 𝘃𝗼𝘀𝘀𝗼𝘀 𝘀𝗲𝗿𝘃𝗶𝗰̧𝗼𝘀…
Sim, temos clientes de muitos anos, mas já faço poucos trabalhos.
𝗘́ 𝗻𝗲𝗰𝗲𝘀𝘀𝗮𝗿𝗶𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝘀𝗲𝗹𝗲𝗰𝘁𝗶𝘃𝗼…
Não é tanto essa a questão. Faço mais eventos privados.
𝗧𝗲𝗺 𝗺𝗲𝗻𝗼𝘀 𝗳𝗹𝘂𝘅𝗼 𝗱𝗲 𝘁𝗿𝗮𝗯𝗮𝗹𝗵𝗼, 𝗽𝗼𝗿𝘁𝗮𝗻𝘁𝗼…
Mas ganho mais!
𝗘𝘀𝘁𝗮 𝗲́ 𝗮 𝗳𝗲𝗹𝗶𝘇 𝗰𝗼𝗻𝗰𝗹𝘂𝘀𝗮̃𝗼: 𝗺𝗲𝗹𝗵𝗼𝗿 𝗲𝗾𝘂𝗶𝗹𝗶́𝗯𝗿𝗶𝗼 𝗲𝗻𝘁𝗿𝗲 𝘃𝗶𝗱𝗮 𝗽𝗲𝘀𝘀𝗼𝗮 𝗲 𝗽𝗿𝗼𝗳𝗶𝘀𝘀𝗶𝗼𝗻𝗮𝗹…
Sim, tenho mais tempo e ganho mais, mas não me refiro a rios de dinheiro. Fiz eventos de borla durante anos. Cheguei ao cúmulo de pagar bilhetes para fotografar, embora fossem baratos.
𝗘𝗺 𝗠𝗮𝗿𝗰̧𝗼, 𝗳𝗼𝗶 𝗽𝗿𝗲𝗺𝗶𝗮𝗱𝗼 𝗽𝗲𝗹𝗮 𝗺𝗲𝗹𝗵𝗼𝗿 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗶𝗮 𝗱𝗲 𝗳𝗲𝘀𝘁𝗶𝘃𝗮𝗹 𝗻𝗼𝘀 𝗜𝗯𝗲𝗿𝗶𝗮𝗻 𝗙𝗲𝘀𝘁𝗶𝘃𝗮𝗹 𝗔𝘄𝗮𝗿𝗱𝘀. 𝗙𝗶𝗰𝗼𝘂 𝘀𝗮𝘁𝗶𝘀𝗳𝗲𝗶𝘁𝗼?
Antes de mais, não fui eu que concorri, mas sim o Azores Burning Summer. Eles já o fazem há vários anos, tendo arrecadado vários prémios. Eu só soube que tinha a minha fotografia a concurso depois do resultado da pré-selecção.
𝗢 𝗾𝘂𝗲 𝗳𝗼𝗶 𝘂𝗺𝗮 “𝗰𝗵𝗮𝘁𝗶𝗰𝗲”…
Estas coisas, para mim… Não que não dê valor ou que não tenha gostado de receber o prémio, mas há três anos fiz uma fotografia do The Legendary Tigerman dez vez mais “potente” do que esta que ganhou. Foi feita com uma grande angular, que nos permite ver o público a vibrar, o vocalista a enrolar-se num cabo de microfone com uns 25 metros e a gritar “I love rock’n’roll”. Eu estava “deitado” com a minha “cana de pesca” (monopé), máquina fotográfica e disparador. A fotografia, com todos esses detalhes e a envolvência das árvores, para mim, ficou muito mais impressionante. Aliás, alguém perguntou-me onde eu estava quando captei essa imagem, porque vê-se uma roda, mas eu não estava no meio da roda nem deitado, ainda que se visse toda a gente. Este ano, quando vi as fotografias a concurso, achei, efectivamente, que havia duas ou três muito boas de festivais com orçamentos dez vezes superiores ao do Azores Burning Festival, o que favorece em termos cénicos. Quem anda nisto há muitos anos já adivinha o que vai acontecer. Olhamos para a estrutura do palco e percebemos que há fogo-de-artifício; falamos então com os responsáveis para saber quando vai ser lançado. Por vezes, é o artista quem lança, o que normalmente acontece nos seus grandes sucessos musicais. É aí que temos de estar preparados.
𝗔𝗽𝗲𝘀𝗮𝗿 𝗱𝗮 𝘀𝘂𝗮 𝗲𝘅𝗽𝗲𝗿𝗶𝗲̂𝗻𝗰𝗶𝗮, 𝗻𝗮̃𝗼 𝘀𝗲 𝗰𝗼𝗶́𝗯𝗲 𝗱𝗲 𝗽𝗮𝗿𝘁𝗶𝗹𝗵𝗮𝗿 𝗰𝗼𝗻𝗵𝗲𝗰𝗶𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗰𝗼𝗺 𝗼𝘀 𝘀𝗲𝘂𝘀 𝗰𝗼𝗹𝗲𝗴𝗮𝘀 𝗱𝗲 𝗮́𝗿𝗲𝗮…
Faço-o por impulso. Por vezes, dou algumas orientações aos meus colegas durante os próprios eventos, mas é o meu instinto altruísta. Há quem diga que eu tenho sido um professor para muita gente, mas sinceramente não penso muito nisso.
𝗢 𝗾𝘂𝗲 𝗴𝗼𝘀𝘁𝗮 𝗺𝗲𝗻𝗼𝘀 𝗱𝗲 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗮𝗿?
Casamentos. Já fiz alguns, mas não gosto devido ao formalismo. Refiro-me ao desconforto de trabalhar de manhã à noite de fato e gravata. Cada vez menos obrigam a esse dress code, mas durante muitos anos foi assim. Além do mais, às vezes estamos com dez quilos de equipamento às costas.
𝗘 𝗾𝘂𝗮𝗹 𝗲́ 𝗼 𝗲𝗻𝗰𝗮𝗻𝘁𝗼 𝗱𝗲 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗮𝗿 𝗰𝗼𝗺𝗶𝗱𝗮?
São trabalhos que vão aparecendo. Se calhar os melhores trabalhos em muitas das áreas em que actuo, nem estão disponíveis ao público. Onde ainda vão aparecendo algumas dessas imagens, feitas fora do âmbito do Contratempo, é no meu site pessoal – andrefrias.com.
𝗡𝗲𝘀𝘁𝗲 𝗺𝗼𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼, 𝗲́ 𝗼 𝘁𝗶𝗽𝗼 𝗱𝗲 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗶𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗴𝗼𝘀𝘁𝗮 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗱𝗲 𝘁𝗶𝗿𝗮𝗿?
Não, mas gosto muito de fotografar comida. No entanto, não gosto de editar fotografias de comida, porque... abre o apetite! Outra questão é que nem sempre aquilo que vemos é aquilo que é. De qualquer forma, as minhas fotografias preferidas são, sem dúvida, as dos concertos.
𝗖𝗼𝗺𝗼 𝗺𝗮𝗻𝘁𝗲́𝗺 𝘂𝗺𝗮 𝗹𝗶𝗴𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗮𝗻𝘁𝗶𝗴𝗮 𝗮𝗼𝘀 𝗿𝗮𝗹𝗹𝗶𝗲𝘀, 𝘀𝗲𝗿𝗶𝗮 𝗱𝗲 𝗽𝗲𝗻𝘀𝗮𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘀𝘀𝗮 𝗮́𝗿𝗲𝗮 𝗳𝗼𝘀𝘀𝗲 𝗮 𝘀𝘂𝗮 𝗽𝗿𝗲𝗳𝗲𝗿𝗶𝗱𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗮𝗿…
Adoro rally, mas a cada ano que passa começo a ser mais adepto de ver rally na televisão. As restrições são tantas. O mesmo acontece com os festivais. Ao fim de uns anos, começamos a perder a fé. Juntando a isso conversas muito tristes de alguns organizadores, o desinteresse instala-se.
𝗖𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗮 𝗮 𝘁𝗲𝗿 𝗼 𝘀𝗼𝗻𝗵𝗼 𝗱𝗲 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗮𝗿 𝗼 𝗳𝗲𝘀𝘁𝗶𝘃𝗮𝗹 𝗕𝘂𝗿𝗻𝗶𝗻𝗴 𝗠𝗮𝗻 𝗲 𝗼 𝗖𝗮𝗿𝗻𝗮𝘃𝗮𝗹 𝗱𝗼 𝗥𝗶𝗼 𝗱𝗲 𝗝𝗮𝗻𝗲𝗶𝗿𝗼?
Continuo a sonhar com o Burning Man. É um festival que existe há muitos anos e que venho acompanhando. Nalgumas edições é mais mediático, já não está tão “florido” como nos primeiros anos. Contudo, continua a ser, em termos visuais e de instalações artísticas, algo de profundamente incrível. O Burning Man é precisamente a antítese dos grandes festivais da moda, como o Tomorrowland. O Burning Man tem a sua própria equipa de marketing a desenhar o festival. Os artistas é que levam as suas obras de arte para lá.
Quanto ao Carnaval do Rio de Janeiro, não é um evento fácil de fotografar. O problema não é técnico, nem de credenciamento – como estrangeiros, devemos ter algumas hipóteses-, mas sim de segurança na entrada e saída do recinto. De qualquer modo, há a questão de estarmos cerca de sete horas a trabalhar debaixo de temperaturas de 40º C à noite e uma humidade altíssima. As próprias lentes ficam constantemente embaciadas e nós transpiramos por todos os poros. Em todo o caso, visualmente é fantástico.
𝗝𝗮́ 𝗼𝗿𝗴𝗮𝗻𝗶𝘇𝗼𝘂 𝗮𝗹𝗴𝘂𝗺𝗮 𝗲𝘅𝗽𝗼𝘀𝗶𝗰̧𝗮̃𝗼?
Não, mas a razão não está relacionada com a minha qualidade ou falta dela. Simplesmente, é algo que não me alicia, até porque fazer uma exposição de fotografia com qualidade é dispendioso. São precisos patrocinadores. Como não sou pessoa de andar a pedir apoios… Nem tenho jeito para isso. Sobre apoios, a primeira coisa que me ocorre é que para os conseguir, tenho de gastar dinheiro. Normalmente, é preciso abrir uma empresa para poder concorrer. Depois penso: “Vou fazer uma exposição onde e para quem?” Nem em casa tenho fotos expostas.
𝗧𝗲𝗺 𝗮𝗹𝗴𝘂𝗺 𝗳𝗮𝘀𝗰𝗶́𝗻𝗶𝗼 𝗽𝗼𝗿 𝗺𝗮𝘁𝗲𝗿𝗶𝗮𝗹 𝗮𝗻𝘁𝗶𝗴𝗼 𝗱𝗲 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗶𝗮, 𝗰𝗼𝗺𝗼 𝗱𝗮𝗴𝘂𝗲𝗿𝗿𝗲𝗼́𝘁𝗶𝗽𝗼𝘀 𝗼𝘂 𝗺𝗮́𝗾𝘂𝗶𝗻𝗮𝘀 𝗱𝗲 𝗳𝗼𝗹𝗲?
Não, nem por isso.
𝗔 𝗜𝗔 𝗲́ 𝘂𝗺𝗮 𝘃𝗮𝗻𝘁𝗮𝗴𝗲𝗺 𝗼𝘂 𝗱𝗲𝘀𝘃𝗮𝗻𝘁𝗮𝗴𝗲𝗺 𝗻𝗮 𝘀𝘂𝗮 𝗮́𝗿𝗲𝗮?
No que diz respeito ao Contratempo, na parte dos eventos sociais e no Verão, utilizo uma ferramenta de IA quando tenho largos milhares de fotografias para seleccionar. Como devem calcular, seleccionar 200 fotos de um universo tão grande, não é uma tarefa fácil. Certas ferramentas de IA fazem uma pré-selecção das fotos que estão desfocadas, com pouca luz ou completamente estragadas. Actualmente, o próprio Adobe Lightroom, o software que utilizo para edição, tem uma ferramenta para esse efeito, mas muito vocacionada para fotografias de grupo, como quando queremos garantir que todos estão com os olhos abertos. Por outro lado, fiz um trabalho recentemente em que 80% da edição final foi feita pela IA. A fotografia era de um prato de comida. A comida era verdadeira, mas montámos um cenário branco para ser mais fácil remover o fundo e trabalhá-lo com a IA. Findo o produto, parece que estamos num restaurante italiano. Noutro exemplo, se tivermos uma fotografia na vertical e precisarmos dela na horizontal, a IA cria-nos o resto da imagem.
𝗔𝘀𝘁𝗿𝗼𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗶𝗮, 𝗴𝗼𝘀𝘁𝗮𝘃𝗮 𝗱𝗲 𝗳𝗮𝘇𝗲𝗿?
São fotografias de uma categoria para a qual não tenho paciência. Adoro, são lindíssimas, só que temos de ter várias competências e equipamentos, e, acima de tudo, muita paciência. Além disso, essas fotografias não são feitas em qualquer lado – não pode haver muita iluminação, etc. Sujeitamo-nos muitas vezes a viajar para um sítio alto, porque em determinado dia vamos ver a Via Láctea, mas chegamos lá e o nevoeiro está completamente cerrado.
Recordo que uma das formações que tirei na Associação de Fotógrafos Amadores dos Açores, com o António Campos, foi sobre fotografia de natureza. Uma das fotografias mais bonitas que vi foi a de um sapo que parecia estar a acordar. O formador confirmou-me que o sapo estava mesmo a acordar, mas foram precisas quatro horas para apanhar aquele momento. E as fotos lindas de borboletas que víamos eram feitas com borboletas “congeladas”. Ninguém as matava. O formador explicou que apanhava as borboletas, dava-lhes algum frio para ficarem meio adormecidas e, quando pensámos que ela está na natureza, na verdade ela está dentro de um tupperware verde, com uma pedra de xisto por baixo e alguma água. A borboleta é colocada como se estivesse à beira de água, e quando começa a “descongelar” e a abrir as asas, o momento é captado. Ou então aquela fotografia do leão, ao pôr-do-sol, junto a uma árvore. Pensamos: “Incrível, o fotógrafo estava no lugar certo.” Não, o bife estava no lugar certo, amarrado ao chão. A partir daí, percebi que a fotografia de natureza não é sempre tão “natural”. Há fotografias de natureza “reais”, mas são uma num milhão. Exigem mesmo muito trabalho e muitas horas.
𝗛𝗲𝗻𝗿𝗶 𝗖𝗮𝗿𝘁𝗲𝗿-𝗕𝗿𝗲𝘀𝘀𝗼𝗻, 𝗰𝗼𝗻𝘀𝗶𝗱𝗲𝗿𝗮𝗱𝗼 𝗼 𝗽𝗮𝗶 𝗱𝗮 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗶𝗮 𝗺𝗼𝗱𝗲𝗿𝗻𝗮, 𝘁𝗶𝗻𝗵𝗮 𝘂𝗺𝗮 𝗳𝗿𝗮𝘀𝗲 𝗰𝗲́𝗹𝗲𝗯𝗿𝗲: “𝗙𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗮𝗿 𝗲́ 𝗰𝗼𝗹𝗼𝗰𝗮𝗿 𝗻𝗮 𝗺𝗲𝘀𝗺𝗮 𝗹𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗮 𝗰𝗮𝗯𝗲𝗰̧𝗮, 𝗼 𝗼𝗹𝗵𝗼 𝗲 𝗼 𝗰𝗼𝗿𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼.” 𝗘́ 𝗮𝘀𝘀𝗶𝗺?
Temos de ter coração para fazer boas fotos.
𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗱𝗲𝘀𝗺𝗶𝘀𝘁𝗶𝗳𝗶𝗰𝗮𝗿 𝗮 𝗶𝗱𝗲𝗶𝗮 𝗱𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗼 𝗲𝗾𝘂𝗶𝗽𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗲́ 𝗰𝗿𝘂𝗰𝗶𝗮𝗹…
O equipamento ajuda muito e faz muita diferença. Vou dar o exemplo do Atlantis Concert For Earth, realizado nas Sete Cidades. Queria mais fotografar os Bush e os Stone Temple Pilots. Informaram-me que o vocalista dos Bush era complicado. No entanto, não recebi nenhuma restrição. Isso para explicar a questão do olho e da leitura: comecei a ver o vocalista de um lado para o outro – estavam apenas quatro fotógrafos no fosso. Comecei a aperceber-me de que o que ele queria era um sítio para descer e ir ter com um fã que segurava a mensagem: “Dá-me o teu anel, estou aqui só pelo teu anel.” Dei sinal ao vocalista de que tinha espaço em cima dos graves para descer. Quando ele veio trazer o anel, posicionei-me com a grande angular e apanhei-o na perfeição. Portanto, foi tudo uma questão de estar atento ao que se estava a passar.
𝗙𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗶𝗮 𝗮 𝗽𝗿𝗲𝘁𝗼 𝗲 𝗯𝗿𝗮𝗻𝗰𝗼 𝗼𝘂 𝗮 𝗰𝗼𝗿𝗲𝘀?
A cores.
𝗙𝗼𝘁𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗹𝗵𝗲 𝗳𝗶𝗰𝗼𝘂 𝗻𝗼 𝗰𝗼𝗿𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼?
Além daquela dos pára-quedistas no 50.º aniversário da Força Aérea Portuguesa, creio que é difícil dizer. Já são meio milhão de fotos em arquivo. De qualquer forma, em termos de rallies, recordo uma foto de um acidente na Batalha, em que se vê as peças a cair – tenho a sequência completa do impacto do carro. Acidentes nunca são desejáveis, mas a imagem é impactante. O mais importante é que ninguém se magoou.
𝗦𝗲𝗻𝘁𝗲-𝘀𝗲 𝗱𝗲𝘃𝗶𝗱𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝘃𝗮𝗹𝗼𝗿𝗶𝘇𝗮𝗱𝗼 𝗽𝗲𝗹𝗼 𝘀𝗲𝘂 𝘁𝗿𝗮𝗯𝗮𝗹𝗵𝗼 𝗻𝗼𝘀 𝗔𝗰̧𝗼𝗿𝗲𝘀?
Mais ou menos.
𝗔𝗽𝗲𝘀𝗮𝗿 𝗱𝗲 𝗼 𝗖𝗼𝗻𝘁𝗿𝗮𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼 𝗷𝗮́ 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲𝘀𝘁𝗮𝗿 𝗻𝗮 𝘀𝘂𝗮 𝗳𝗮𝘀𝗲 𝗮́𝘂𝗿𝗲𝗮, 𝘀𝗲𝗻𝘁𝗲-𝘀𝗲 𝗰𝗼𝗺 𝘃𝗼𝗻𝘁𝗮𝗱𝗲 𝗱𝗲 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗮𝗿?
Sim, mas esta fase menos áurea também é fruto de ter desaparecido muito do que havia. Quando foi o auge do Contratempo, no mesmo fim-de-semana fiz os Reamonn no Campo da Grotinha e fui à Noite Romana no Coliseu, até às cinco da manhã.
𝗔𝗰𝗵𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗵𝗮́ 𝗺𝗲𝗻𝗼𝘀 𝗲𝘃𝗲𝗻𝘁𝗼𝘀?
Muito menos! Chegávamos a ter quatro e cinco eventos de música em simultâneo.
𝗡𝗮̃𝗼 𝗲́ 𝗲𝘀𝘀𝗮 𝗮 𝗽𝗲𝗿𝗰𝗲𝗽𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗾𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗼𝗹𝗵𝗮𝗺𝗼𝘀 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗮𝘀 𝗮𝗿𝘁𝗲𝘀 𝗲𝗺 𝗴𝗲𝗿𝗮𝗹…
A dinâmica melhorou noutras áreas culturais, mas em termos de festivais de música, sobretudo no Verão, a quantidade diminuiu substancialmente.
𝗔𝗶𝗻𝗱𝗮 𝗲𝘀𝘁𝗮𝗯𝗲𝗹𝗲𝗰𝗲 𝗺𝗲𝘁𝗮𝘀 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗼 𝘀𝗶𝘁𝗲?
Eu não queria “matar” o projecto, mas nesta fase…
𝗔𝗰𝗵𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗼 𝗖𝗼𝗻𝘁𝗿𝗮𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼 𝗲𝘀𝘁𝗮́ 𝗺𝗼𝗿𝘁𝗼?
Está, mas no outro dia fui consultar as estatísticas do site e estava com 4 milhões de visualizações por mês. E nem tenho feito “nada”. Se consultar um evento de há um ou dois anos, cuja fotografia mais vista tinha 50 visualizações, hoje está com 180 ou 200 visualizações. As visualizações ali são contabilizadas por clique na foto, não por scroll. Por isso, às vezes o site “estoura” e eu penso que é mais um ataque de hackers. Entretanto, fiz um downgrade nos servidores, porque o Contratempo quando estava no seu auge custava-me quase 300 euros por mês. A dada altura, já não me pagavam isso em publicidade.
Na verdade, o projecto não está totalmente morto, mas para continuar temos de começar a investir nas novas gerações, no Instagram, por exemplo. São linguagens e conceitos um pouco diferentes daqueles que as pessoas procuravam no Contratempo antes da transição para o Facebook. O mundo está completamente diferente e não é fácil para ninguém ganhar dinheiro com este tipo de actividade. Pensar que vou sobreviver pelas redes sociais? Tenho algumas ideias para o YouTube. Acredito que seja possível angariar patrocínios se reactivarmos o Contratempo com a pujança e assiduidade de antes. Se chegarmos hoje a uma empresa e pedirmos 150 ou 250 euros por um banner, é capaz de resultar, dado o nome e a dimensão do Contratempo. Na altura, conseguir apoios desse género era muito complicado. Dava para cobrir as despesas, mas trabalhávamos essencialmente para pagar a nossa existência. Simplesmente, deixei de trabalhar nesses moldes. Faço apenas trabalhos pagos. Já agora, os trabalhos com comida têm a vantagem de ser remunerados e dar direito a refeição.
𝗦𝗔𝗜𝗕𝗔 𝗠𝗔𝗜𝗦 𝗦𝗢𝗕𝗥𝗘 𝗢 𝗖𝗢𝗡𝗧𝗥𝗔𝗧𝗘𝗠𝗣𝗢 𝗘 𝗔𝗡𝗗𝗥𝗘́ 𝗙𝗥𝗜𝗔𝗦 𝗣𝗘𝗟𝗢𝗦 𝗟𝗜𝗡𝗞𝗦 𝗡𝗢𝗦 𝗖𝗢𝗠𝗘𝗡𝗧𝗔́𝗥𝗜𝗢𝗦.
Partilhe este artigo.
Apoie os artistas regionais!
Foto: direitos reservados