25/06/2025
Num canto pouco iluminado, uns velhos matraquilhos repousam ao lado de uma parede de madeira escura. Três jovens de rostos cobertos pela maquilhagem sombria, vestes negras e expressões cerradas, compõem a fotografia que mais parece cena de um ritual do submundo musical. São os elementos da banda de black metal ‘Falsus Deum’, um nome que, por si só, evoca as convulsões internas de um universo que me é estranho, mesmo desconfortável. O black metal, com os seus ritmos lancinantes, harmonias atonais e uma estética que namora abertamente com o grotesco e o apocalíptico, está longe — muitíssimo longe — de ser um género que me agrade. Confesso, há algo nele que me provoca quase repulsa: uma turbulência que desestabiliza, um caos sonoro que me escapa à lógica emocional da música como sempre a conheci e apreciei.
Contudo, há neste cenário algo de intrigantemente humano. Este universo de trevas encenadas, de rebeldia amplificada por distorções e guturais, carrega também uma teatralidade que me obriga a olhar com outra lente. A anarquia aqui não é destruição cega, mas antes manifestação estética — um grito de identidade, ainda que envolto em tinta preta e branca, em riffs infernais e na iconografia da transgressão. É um mundo que se organiza no caos, que dramatiza a revolta e a transforma em linguagem, em performance, em pertença.
E é nesse ponto que surge o paradoxo mais comovente. Estes três jovens — ainda adolescentes, recém-iniciados na viagem criativa da música — são, na sua essência, apenas isso: jovens à procura de voz, de afirmação, de uma forma de se fazerem ouvir num mundo que tantas vezes cala ou ignora. Um deles, em particular, acompanho de perto. Não por afinidade musical, mas por uma razão maior: a responsabilidade — e o privilégio — de exercer o papel parental.
Vejo-os de mãos dadas, olhos atentos, semblantes sérios. Não é apenas encenação. Há ali cumplicidade, há propósito, há uma força que, mesmo que brote de um palco sonoro que me soa alienígena, não posso deixar de respeitar. Eles trilham o seu caminho com convicção, com coragem até, enfrentando um território artístico que exige entrega, postura e, paradoxalmente, disciplina.
E se, enquanto ouvinte, me mantenho à distância — pelos timbres, pelas letras, pelas atmosferas —, como figura adulta e próxima, abeiro-me com orgulho. Porque testemunhar o nascimento de um projeto, ver crescer a paixão, a ousadia, a construção de uma identidade artística, é sempre motivo de admiração. Mesmo que o pano de fundo seja o som estridente da revolta e a maquilhagem densa da escuridão.