14/05/2026
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Há qualquer coisa na fotografia que me atravessa desde antes de eu saber dar-lhe nome.
Não sei quando me apaixonei por ela, nem quando comecei a sentir esta emoção quase física de observar uma imagem. Não me lembro da primeira vez que uma fotografia me remexeu por dentro, mas lembro-me da sensação: a de encontrar beleza onde antes havia ruído, confusão, vazio.
Quando me apaixonei pela fotografia, procurava inevitavelmente o belo. Precisava dele. Sem isso, tudo em mim parecia oco, pouco claro, difícil de compreender. Como todos os apaixonados, via tudo com encantamento. O mundo parecia mais limpo, mais inteiro, mais suportável. E aquilo que não era belo, passava a ser no instante em que eu o conseguia sentir através de uma imagem.
Era como se a fotografia dissesse aquilo que eu nunca consegui verbalizar.
“Vês? Isto é belo.”
“Vês? Isto merece ser visto.”
Depois da paixão veio a intimidade. E com ela, as dúvidas. Comecei a olhar mais de perto, para o mundo e para mim. Comecei a perceber que o belo não é absoluto. Que tantas vezes o feio também é belo. Que a beleza vive muito mais na forma como sentimos do que naquilo que estamos efetivamente a olhar.
Hoje percebo que viver da fotografia não é ganhar uns trocos a carregar num botão. Não é ter o melhor equipamento nem disparar centenas de vezes até acertar.
É uma relação profunda, exigente e vulnerável. Como qualquer relação verdadeira, mexe-nos nas entranhas. E obriga-nos constantemente a olhar para dentro enquanto tentamos através de nós ver os outros.