Isabel Saldanha Fotografia

03/06/2026

Hoje passámos uma tarde inteira a falar sobre prazer.

Juntámos um médico, um psicólogo, um especialista em relações e uma mulher que faz demasiadas perguntas.

A resposta continua em aberto.

02/06/2026

Prometo que não é preciso ter lido Platão.

Nem Nietzsche.

Nem ninguém que tenha morrido há mais de cem anos.

Basta seres humano.

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31/05/2026

Ao domingo não são só os copos que deixam ressaca. Há também a ressaca do tempo.

Aparece sem aviso. Quando o algoritmo decide mostrar-nos um vídeo antigo. Quando encontramos uma fotografia esquecida ou quando ouvimos uma gargalhada que já não mora cá em casa.

A Caetana tinha cinco anos.
Hoje tem vinte e vive na Holanda.

E há domingos em que dou por mim a rever estes vídeos para confirmar que não passámos a vida a filmar momentos.

Passámos mesmo por eles.

Vocês vão ter de levar novamente com este filme🙏🏽. Porque cada vez que o encontro, encontro-me a mim também.

Porque há versões dos nossos filhos que desaparecem sem fazer barulho.

Os dentes caem. As palavras crescem. Eles fazem as malas.

Se Deus estiver a ouvir, saiba que a fiel desdentada cresceu. Continua longe. E continua a ganhar discussões que começou aos cinco anos.

E eu ainda tenho os dentes todos, um léxico fermentado, uma ligeira dor de cabeça e um coração a rebentar de saudade.

27/05/2026

A todos os que chegaram aqui nas últimas semanas: OLÁ👋

Sim, esta página fala muitas vezes de amor, solidão, desejo, literatura russa, angústia existencial e outras pequenas alegrias contemporâneas.

Mas também é o sítio onde uma mulher acorda cedo demais, dança na sala, fuma ci****os a mais, cozinha com prazer, bebe vinho branco ao som da sirene do meio-dia, escreve, dá aulas, fala sobre filosofia, fotografa às vezes e, inesperadamente, acabou convidada para apresentar um programa de televisão.

E continua sem perceber muito bem como é que foi aqui parar.

Durante muito tempo achei que tinha de escolher uma versão mais coerente de mim própria para as redes sociais.

Entretanto percebi que talvez a coerência esteja precisamente em não amputar partes inteiras daquilo que somos só para parecermos mais facilmente explicáveis.

Portanto sim: às vezes haverá Dostoiévski.
Outras vezes haverá só uma mulher a tentar vencer a vergonha, enquanto dança na sala como se ninguém estivesse a ver.

Obrigada por estarem aqui.
Mais do que imaginam.❤️🙏🏽

22/05/2026

Há sítios que não consigo habitar como turista. Este é um deles.

Estamos na Serra da Estrela, num hotel que durante décadas foi um sanatório para tuberculosos, construído nos anos 20 para receber ferroviários doentes, operários exaustos, gente que vinha para aqui tentar adiar a morte com silêncio, mantas e ar da montanha. E quanto mais caminho por estes corredores absurdamente largos, mais me parece que a arquitectura foi pensada para distrair as pessoas da ideia de que estavam ali porque os pulmões falhavam. Um optimismo alpino elegante. Como se o Thomas Mann pudesse aparecer a qualquer momento à janela, enrolado num cobertor, a discutir o sentido da vida, a decadência e a febre.

E depois há a estranha ironia da beleza. Porque isto é bonito. Mesmo muito bonito. A luz entra de forma quase cinematográfica. As varandas abrem-se para uma montanha esmagadora. O ar continua limpo, frio, seco. E percebo perfeitamente porque é que durante anos se acreditou que respirar a Serra podia reorganizar um corpo inteiro. Estamos cá há dois dias e sinto esse efeito em mim.

Hoje subimos aqui para desligar, fazer massagens e dormir melhor. Na altura, vinha-se para sobreviver. O “wellness” de hoje ainda nasce muito mais perto do desespero do que gostamos de admitir.

Entretanto apareceu a medicina moderna e estes lugares começaram a perder função. O sanatório fechou. E durante anos ficou abandonado, quase fantasmagórico, entregue ao excesso humano. Houve raves dentro do edifício. Corridas de mota nos corredores. Graffiti. Ecos. Vidros partidos. Acho que consigo imaginar peões no mesmo sítio onde pessoas tossiam sangue para lenços brancos. É uma das imagens que me passou hoje pela cabeça.

Neste hotel a história atravessa o granito da fachada. Continuamos a subir a montanha por razões relativamente parecidas. Já não fugimos da tuberculose, mas da ansiedade e da exaustão. Da sensação de estar ligado a tudo e profundamente desligado de nós. No fundo, talvez nunca tenhamos deixado verdadeiramente os sanatórios.

Só lhes mudámos a decoração, acrescentámos spas, massagens e pequenos-almoços continentais e passámos a chamar-lhes hoté

19/05/2026

Voltámos à estrada.

Embora entretanto tenhamos tido duas baixas. As miúdas cresceram, tornaram-se maiores e autónomas, e passaram a olhar para caminhadas longas como quem recebe um convite para transportar móveis numa mudança de casa.
Faz parte.
Farão sempre parte do gang do pé preto.

Pelo meio houve doenças, amores, desamores, mudanças de casa, projectos, viagens e vidas inteiras a acontecer à velocidade da idade adulta.

E depois, acontece, a Marta manda uma mensagem e diz:
“vamos?”

E eu vamos. E “nós” vamos.

Mas não vamos sozinhas, porque a Marta regressa grávida. 🙏🏽🥰

E há pessoas a quem a vida acontece assim, em excesso. Como se o universo lhes despejasse tudo ao mesmo tempo: o caos, os sustos, os corredores de hospital, os catéteres, as cirurgias, os recomeços. E mesmo no meio do furacão, sem qualquer respeito pela lógica ou pelo timing, aparece um bebé.

Como se o corpo dela tivesse decidido desafiar as leis da física e responder ao desastre com o pináculo da criação.

Porque há pessoas que não sobrevivem à vida. Expandem-na.

E nós?
Nós acabámos exactamente onde começámos. No local que sempre nos acolhe.

O colo uma da outra e a estrada. 🖤

👣

16/05/2026

Estou feliz mãe.

Obrigada VALLADO.

Agora não vou
a mais nenhum
LLADO😅😎😂 (fim do poema)

13/05/2026

Quando eu for parar à RTP2 vou ter de vencer o medo do ridículo, da voz, da imagem e do reconhecimento. 🫣

Gosto de mim. Mas também sei que o Instagram não precisa de mais uma pessoa a fingir profundidade em vídeos inspiracionais.

Só que eu preciso de converter o meu léxico em vídeo. E perceber se as palavras sobrevivem fora do papel. Fora do caderno. Fora do livro. Fora do Substack.

Talvez as palavras também precisem de habitat.

Não estou aqui para mudar o mundo. Já me passou essa megalomania simpática. Quero tocar o meu mundo. As pessoas que ainda sentem qualquer coisa quando alguém fala em apneia.

Continuo a ser eu. A recibos verdes sobre o algoritmo. Sem equipa. Sem personagem. Sem vontade de parecer outra pessoa.

E se isto correr mal, ao menos falhei exactamente como queria viver: acordada🍷

11/05/2026

Sempre gostei daquela expressão portuguesa do “não brincar em serviço”, como se brincar fosse automaticamente sinónimo de superficialidade e não houvesse gente profundamente séria a estragar a vida a toda a gente há séculos.

Eu brinco bastante. Com ideias. Com formatos. Com perguntas. Com caminhos improváveis. Às vezes até comigo própria.

Leio muito, observo muito, tento perceber o mundo com alguma honestidade, mas continuo sem conseguir encaixar-me completamente numa definição estável. E talvez isso não me atire para os perdidos e achados.

Talvez eu possa ser, se me derem a vossa licença, uma daquelas pessoas cuja identidade não nasce da permanência, mas da curiosidade. Da inquietação. Dessa vontade meio absurda de continuar a mexer nas coisas, mesmo quando já funcionam.

E atenção, eu também preciso de raízes fundas. Muito. Só que há árvores que, além de raízes, precisam de vento.

“Sim, mas e se fizéssemos isto de outra maneira?”

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Cascais, Portugal
Cascais

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