22/05/2026
Há sítios que não consigo habitar como turista. Este é um deles.
Estamos na Serra da Estrela, num hotel que durante décadas foi um sanatório para tuberculosos, construído nos anos 20 para receber ferroviários doentes, operários exaustos, gente que vinha para aqui tentar adiar a morte com silêncio, mantas e ar da montanha. E quanto mais caminho por estes corredores absurdamente largos, mais me parece que a arquitectura foi pensada para distrair as pessoas da ideia de que estavam ali porque os pulmões falhavam. Um optimismo alpino elegante. Como se o Thomas Mann pudesse aparecer a qualquer momento à janela, enrolado num cobertor, a discutir o sentido da vida, a decadência e a febre.
E depois há a estranha ironia da beleza. Porque isto é bonito. Mesmo muito bonito. A luz entra de forma quase cinematográfica. As varandas abrem-se para uma montanha esmagadora. O ar continua limpo, frio, seco. E percebo perfeitamente porque é que durante anos se acreditou que respirar a Serra podia reorganizar um corpo inteiro. Estamos cá há dois dias e sinto esse efeito em mim.
Hoje subimos aqui para desligar, fazer massagens e dormir melhor. Na altura, vinha-se para sobreviver. O “wellness” de hoje ainda nasce muito mais perto do desespero do que gostamos de admitir.
Entretanto apareceu a medicina moderna e estes lugares começaram a perder função. O sanatório fechou. E durante anos ficou abandonado, quase fantasmagórico, entregue ao excesso humano. Houve raves dentro do edifício. Corridas de mota nos corredores. Graffiti. Ecos. Vidros partidos. Acho que consigo imaginar peões no mesmo sítio onde pessoas tossiam sangue para lenços brancos. É uma das imagens que me passou hoje pela cabeça.
Neste hotel a história atravessa o granito da fachada. Continuamos a subir a montanha por razões relativamente parecidas. Já não fugimos da tuberculose, mas da ansiedade e da exaustão. Da sensação de estar ligado a tudo e profundamente desligado de nós. No fundo, talvez nunca tenhamos deixado verdadeiramente os sanatórios.
Só lhes mudámos a decoração, acrescentámos spas, massagens e pequenos-almoços continentais e passámos a chamar-lhes hoté