03/05/2026
Nas últimas semanas, eu e o Luís, pela Velha-a-Branca, temos andado de "chapéu de arqueólogos" à descoberta pelo centro de Braga. Visitamos edifícios históricos que se desmontam a uma velocidade alucinante. Muitas vezes chegamos tarde e percebemos que este trabalho é uma corrida contra o tempo, para chegar antes das "equipas de limpeza", que tantas vezes tratam o património como lixo.
Felizmente, há excepções como esta.
O que temos nas mãos não é apenas uma peça gráfica local, mas um fragmento de mais de 150 anos da história da imprensa portuguesa. Fundado em 1854, no Porto, O Comércio do Porto foi uma das grandes vozes do Norte. Com tiragens que chegaram a 120 mil exemplares. Encerrou em 2005.
Na foto vemos o espaço onde funcionou a filial de Braga, na Avenida da Liberdade. Conta-se que, aos domingos à noite, adeptos de futebol juntavam-se aqui para conhecer os resultados da jornada, numa altura em que a televisão não existia e os rádios eram escassos e acessíveis a poucos. A filial encerrou e, em 1996, deu lugar à Sapataria Benamor. Trinta anos depois, esse espaço encerra a sua atividade, repetindo o ciclo de transformação da cidade e, com ele, a perda gradual da identidade.
A peça resgatada pertence ao icónico cabeçalho em estilo gótico. Durante mais de um século, esta tipografia definiu a imagem do jornal, densa, sólida e carregada de tradição. Enquanto outros títulos se modernizaram, o "Velho Comércio" manteve-se fiel à sua estética. Só em 2004 seria substituída, pouco antes do fim.
Mais do que letras, estas peças são memória material. São marcas que fizeram cidade e hoje desaparecem sem registo. É nesse vazio que o Letras de Braga procura intervir: resgatar, documentar e devolver estas histórias ao espaço público. Porque preservar estas letras é preservar a história e a identidade da cidade.
Esta peça foi gentilmente cedida pelo Sr. António Ferreira, atual proprietário da Sapataria Benamor. Na fotografia, a sua esposa. Menção também ao Hugo, genro do casal, que ajudou a retirar a peça encontrada num pequeno compartimento sobre o teto falso da sapataria. F**a também um agradecimento especial à Cláudia, que registou este resgate.