Letras de Braga

Letras de Braga Preservação e divulgação do Património Gráfico e da Memória Urbana. De letreiros resgatados a um museu da cidade.

Braga não é só bonitas esplanadas e magníficas Igrejas. Desde a icónica fachada d’A Brasileira, das letras imponentes na fachada do Theatro Circo e das letras degradadas do S. Geraldo, a letreiros desaparecidos que ainda coabitam nas nossas memórias, estas estruturas fazem parte do Património Gráfico e Visual da cidade de Braga. Contam a história da cidade, identificam e diferenciam quem nela vive

. Porém, o Património Gráfico está seriamente ameaçado pela gentrificação e a renovação sem critério das nossas cidades. Cada vez mais, com o aparecimento de franchisados, de shoppings, de lojas online e das mais diversas políticas de pretensa depuração do edificado antigo, estes letreiros e estruturas que definiram a imagem – e até o skyline – das nossas cidades e, consecutivamente, as nossas vivências urbanas, estão a ser dizimados. É imperativo documentar a paisagem visual de Braga, preservar o máximo de reclames históricos e lutar contra a tendência de homogeneização da imagem comercial e urbana que desvaloriza e faz desaparecer o comércio local histórico e com ele a memória e a identidade de cada rua. A personalidade e a paisagem urbana das cidades ficam empobrecidas e as ruas são, em muitos casos, esventradas, sem nada que lembre as formas e usos que outrora lhes deram vida. Estes elementos gráficos e tipográficos que, depois de deixarem a fachada dos edifícios e das lojas, perdem a sua função original publicitária, mas passam a objeto de arte e ganham estatuto de Património Gráfico das cidades. Devem, por isso, ser acarinhados, preservados, salvaguardados e em alguns casos restaurados.

A função principal de um letreiro é publicitar. E este, na sua simplicidade, colocado estrategicamente sobre o túnel, cu...
04/06/2026

A função principal de um letreiro é publicitar. E este, na sua simplicidade, colocado estrategicamente sobre o túnel, cumpre esse propósito na perfeição. Sempre que passo pela Rua do Diu, o meu olhar desvia-se inevitavelmente para esta tabuleta suspensa.

Mas é precisamente quando um letreiro deixa de cumprir essa missão e é retirado da fachada que lhe dava contexto que ganha uma nova dimensão. Uma das premissas destes projetos, e aquilo que defendemos, é que, nesse momento, o letreiro deixa de ser apenas suporte publicitário e passa a ser um objeto de arte e memória.

São testemunhos de uma época em que estes elementos eram produzidos manualmente, carregando consigo valores estéticos, técnicos e históricos. Por isso, acreditamos que devem ser preservados e documentados.

Tem sido extraordinária a generosidade de várias pessoas que têm acreditado neste projeto.Entre mapas, autocolantes, bil...
31/05/2026

Tem sido extraordinária a generosidade de várias pessoas que têm acreditado neste projeto.

Entre mapas, autocolantes, bilhetes e outros pequenos testemunhos do quotidiano bracarense, o Sr. António Lobato Costa ofereceu-nos esta curiosa peça: um sabonete da Pic-Pic, fabricado na Confiança.

Fundada em 1944, a Pic-Pic ocupava os números 49 e 51 da Rua do Souto e afirmou-se ao longo de décadas como uma das casas mais emblemáticas do comércio tradicional de Braga. Foi uma referência no pronto-a-vestir masculino de qualidade, associada a marcas prestigiadas e a um serviço personalizado que marcou gerações de clientes. A loja encerrou em 2021, após cerca de 77 anos de atividade.

Mas, para além da sua importância comercial, a Pic-Pic deixou também uma marca gráfica muito própria. As suas letras são das que mais ficaram gravadas na minha memória. Irreverentes e cheias de personalidade, representam uma forma de comunicar que dificilmente passaria despercebida. Nos últimos anos, a marca adotou uma imagem mais simples e discreta, mas é este logótipo que continua a fazer parte do imaginário visual de muitos bracarenses.

Este sabonete era oferecido aos clientes da loja e, muitas vezes, destinava-se a ser colocado em armários e gavetas para perfumar a roupa. O mais curioso? Décadas depois, ainda conserva parte do seu aroma.

O nosso agradecimento ao Sr. António Lobato Costa por esta generosa doação. É graças à confiança e à generosidade de pessoas como ele que o Letras de Braga continua a crescer. Se também guarda objetos, embalagens, documentos ou outras memórias gráficas da cidade, entre em contacto conosco. Cada peça conta uma história e ajuda a preservar a identidade visual de Braga para as gerações futuras.

Avenida Central, 116. A emblemática loja da Gandias Armazém de Papelaria entra num período de obras e restauração. Compe...
24/05/2026

Avenida Central, 116. A emblemática loja da Gandias Armazém de Papelaria entra num período de obras e restauração. Compelidos pela curiosidade, espreitamos pela janela e encontramos um resquício pintado à mão: "Sociedade de Representações, Lda.", já bastante desgastado pelo tempo.

A expressão "Sociedade de Representações" era muito comum em empresas portuguesas criadas nas décadas de 50 a 90 e identificava negócios ligados à representação e distribuição de marcas e fabricantes.

Constituída em 1963, a "Gandias - Sociedade de Representações, Lda." terá começado precisamente nesse modelo, atuando como intermediária comercial, antes de evoluir para papelaria e para comércio ao público. Hoje continua a ser uma das papelarias mais antigas em atividade na cidade.

Numa cidade em constante mutação, esperamos que esta loja com história volte, novamente, ao seu local original.

17/05/2026

Há momentos que acontecem por acaso e acabam por dizer muito sobre aquilo que queremos construir.

Há cerca de 15 dias, numa segunda-feira, por volta das 17h, recebi uma chamada da Catarina, responsável pelo Braga Fora - Coro Comunitário de Mulheres. Não tinham espaço para ensaiar nessa noite. Entre juntas e salas emprestadas, procuravam um lugar onde pudessem reunir-se entre as 21h e as 22h30. Tal como nos aconteceu, elas também procuram um espaço permanente para continuarem a crescer.

Conheci a Catarina e o projeto de forma completamente fortuita. E fiquei maravilhado. O Braga Fora é daqueles projetos que nos enchem a alma.

Dedicado à experimentação do canto de vozes e à valorização do papel da mulher na cultura e nas artes, o coro reúne já cerca de 100 mulheres de diferentes pontos da cidade. Qualquer mulher que goste de cantar pode juntar-se. E, numa altura em que o individualismo parece imperar, o sentido de camaradagem destas mulheres foi inspirador.

Prontamente, cedemos o nosso espaço para o ensaio. E o que aconteceu aqui nessa noite foi único.

Não perdi a oportunidade de registar aquele momento num vídeo improvisado. Cru. Genuíno. Sem pretensão nem floreados. Envolvidas pelas peças do nosso acervo, cerca de 70 vozes ecoaram pelo espaço ainda em construção. Ao fundo, vislumbram-se fragmentos da nossa memória coletiva: a Haiti, a Rosi, o Zanzibar, a Livraria Central, a Gráfica Minho e a oficina Lourenço Ferreira.

Este espaço ainda está em progresso. É aqui que estamos a montar a exposição do acervo do Letras de Braga. Alguns de vocês já o visitaram, mas esta foi a primeira vez que tivemos tanta gente aqui ao mesmo tempo. E ver este lugar servir uma causa maior enche-nos de orgulho e esperança.

Porque é isto que pretendemos: não apenas um espaço expositivo, mas um espaço vivo. Um lugar aberto a diferentes iniciativas, encontros e dinâmicas da cidade.

E talvez não pudesse haver uma melhor primeira iniciativa.
Espaço cedido pela APPACDM de Braga, no âmbito de um protocolo com o projeto Letras de Braga e o Estaleiro Cultural Velha-a-Branca.

Este é, até ao momento, o único registo fotográfico que encontrámos da antiga filial de Braga d'O Comércio do Porto, loc...
10/05/2026

Este é, até ao momento, o único registo fotográfico que encontrámos da antiga filial de Braga d'O Comércio do Porto, localizada na Avenida da Liberdade. O ano da fotografia é desconhecido, mas nela vemos ainda o icónico letreiro em estilo gótico que marcou a identidade visual do jornal durante grande parte da sua existência.

Fundado no Porto a 2 de junho de 1854, O Comércio do Porto foi um dos jornais mais importantes e duradouros da imprensa portuguesa. Surgiu inicialmente com o nome "O Commercio", como publicação trissemanal dedicada ao comércio, à agricultura e à indústria. Em 1855 tornou-se diário e, no ano seguinte, adotou a designação que manteria até ao fim.

Ao longo de mais de um século e meio, afirmou-se como uma das principais vozes do Norte do país. Após o 25 de Abril, chegou a atingir tiragens de cerca de 120 mil exemplares e manteve uma forte rede de delegações regionais, incluindo esta filial bracarense. Quando encerrou, em 2005, era o segundo jornal português mais antigo ainda em publicação.

A tipografia visível na imagem tornou-se inseparável da identidade do jornal por décadas, resistindo quase intacta até aos últimos anos da publicação. Mais do que um simples letreiro, é um raro fragmento da história gráfica e urbana da cidade, testemunho de uma Braga d'outros tempos.
Fotografia do Arquivo da Casa Pelicano.
Partilhada por Armando Florêncio no grupo MEMÓRIAS DE BRAGA - Roteiro Histórico e Monumental.

Nas últimas semanas, eu e o Luís, pela Velha-a-Branca, temos andado de "chapéu de arqueólogos" à descoberta pelo centro ...
03/05/2026

Nas últimas semanas, eu e o Luís, pela Velha-a-Branca, temos andado de "chapéu de arqueólogos" à descoberta pelo centro de Braga. Visitamos edifícios históricos que se desmontam a uma velocidade alucinante. Muitas vezes chegamos tarde e percebemos que este trabalho é uma corrida contra o tempo, para chegar antes das "equipas de limpeza", que tantas vezes tratam o património como lixo.

Felizmente, há excepções como esta.

O que temos nas mãos não é apenas uma peça gráfica local, mas um fragmento de mais de 150 anos da história da imprensa portuguesa. Fundado em 1854, no Porto, O Comércio do Porto foi uma das grandes vozes do Norte. Com tiragens que chegaram a 120 mil exemplares. Encerrou em 2005.

Na foto vemos o espaço onde funcionou a filial de Braga, na Avenida da Liberdade. Conta-se que, aos domingos à noite, adeptos de futebol juntavam-se aqui para conhecer os resultados da jornada, numa altura em que a televisão não existia e os rádios eram escassos e acessíveis a poucos. A filial encerrou e, em 1996, deu lugar à Sapataria Benamor. Trinta anos depois, esse espaço encerra a sua atividade, repetindo o ciclo de transformação da cidade e, com ele, a perda gradual da identidade.

A peça resgatada pertence ao icónico cabeçalho em estilo gótico. Durante mais de um século, esta tipografia definiu a imagem do jornal, densa, sólida e carregada de tradição. Enquanto outros títulos se modernizaram, o "Velho Comércio" manteve-se fiel à sua estética. Só em 2004 seria substituída, pouco antes do fim.

Mais do que letras, estas peças são memória material. São marcas que fizeram cidade e hoje desaparecem sem registo. É nesse vazio que o Letras de Braga procura intervir: resgatar, documentar e devolver estas histórias ao espaço público. Porque preservar estas letras é preservar a história e a identidade da cidade.
Esta peça foi gentilmente cedida pelo Sr. António Ferreira, atual proprietário da Sapataria Benamor. Na fotografia, a sua esposa. Menção também ao Hugo, genro do casal, que ajudou a retirar a peça encontrada num pequeno compartimento sobre o teto falso da sapataria. F**a também um agradecimento especial à Cláudia, que registou este resgate.

Ao olhar para esta placa do nosso acervo, dei por mim a recuar no tempo. Talvez por causa do sol, ou da própria natureza...
26/04/2026

Ao olhar para esta placa do nosso acervo, dei por mim a recuar no tempo. Talvez por causa do sol, ou da própria natureza do objeto, vieram-me à memória os jogos improvisados num campo de terra batida no bairro onde cresci. As camisolas sujas de pó, as bolas que insistiam em subir demasiado e acertar nas janelas alheias, as equipas escolhidas com a ansiedade de não ser o último. O “gordo” que ficava sempre na baliza. E, claro, o dono da bola, que decidia o desfecho do jogo quando estava a perder. O futebol no seu estado mais puro.

A peça em si é um belo exemplar das tabuletas usadas para anunciar o dia e a hora dos jogos, tão características do futebol distrital. Esta anunciava os encontros do Lomarense Ginásio Clube, fundado em 1958. Em conjunto com outras duas tabuletas, gentilmente doadas pelo Zé (aka ) ao projeto, esteve, durante anos, exposta junto à Casa Taco, na Rua da Mouta, em Lomar, informando a comunidade sobre os jogos em casa.

Pintada à mão sobre contraplacado, apresenta letras em caixa alta, sem serifa, com “CAMPEONATO” aplicado em stencil. E há um detalhe que não escapa aos mais atentos: o acento em “ÁS”. Um pequeno “erro” que, longe de desvalorizar, reforça o caráter humano, autêntico e despretensioso da peça.
Espaço cedido pela APPACDM de Braga, no âmbito de um protocolo com o projeto Letras de Braga e com o Estaleiro Cultural Velha-a-Branca.

Detalhes que identificam ruas e preservam a memória de uma cidade: esta placa toponímica do Largo Carlos Amarante é um e...
19/04/2026

Detalhes que identificam ruas e preservam a memória de uma cidade: esta placa toponímica do Largo Carlos Amarante é um excelente exemplar das placas tradicionais. A pura manualidade de esculpir as letras na pedra confere a cada uma um toque distinto e único. Infelizmente, já não abundam exemplos deste género nas ruas de Braga, tendo muitos sido substituídos por versões mais recentes, de menor valor histórico e patrimonial.

O largo foi inicialmente conhecido como Largo dos Remédios, por lá se situar o convento feminino de Nossa Senhora dos Remédios, da Piedade e Madre de Deus (1547-1912). A designação atual presta homenagem a Carlos Amarante (1748-1815), engenheiro e arquiteto natural de Braga.

Neste largo encontramos um conjunto de monumentos relevantes à cidade: a Igreja de São Marcos e o antigo Hospital de São Marcos, a Fonte do Largo Carlos Amarante e a Igreja de Santa Cruz.

Para quem não conhece esta verdadeira relíquia urbana, estas caixas eram conhecidas como postos telefónicos de táxi. Ins...
12/04/2026

Para quem não conhece esta verdadeira relíquia urbana, estas caixas eram conhecidas como postos telefónicos de táxi. Instaladas junto a praças ou pontos fixos, no interior, guardavam um telefone ligado diretamente à central.

Quando alguém pedia um táxi, a central ligava para a caixa mais próxima, e o primeiro da fila atendia, recebendo o serviço. Simples e eficaz.

Com o surgimento dos rádios e, posteriormente, dos telemóveis, estes dispositivos foram, aos poucos, perdendo a sua função.

É o único exemplar semelhante que encontramos nas ruas de Braga. Apesar do seu aspeto devoluto, ainda se destacam os diferentes estilos tipográficos da palavra "TAXI" e do número de telefone, um detalhe que transforma esta peça utilitária num pequeno testemunho de design e de memória coletiva.
Obrigado pela dica, Luís Tarroso Gomes! 👌

📣 Chegou a Parte III: "Letras de Braga – Uma Viagem Gráfica"🏘️ Este projeto nasceu de um gesto simples: olhar para as ru...
05/04/2026

📣 Chegou a Parte III: "Letras de Braga – Uma Viagem Gráfica"

🏘️ Este projeto nasceu de um gesto simples: olhar para as ruas de Braga com atenção. Reparar nas letras que vemos todos os dias e que, sem darmos conta, contam a história da cidade. Esta terceira e última edição fecha o tríptico tipográfico como uma homenagem à memória visual que nos rodeia. São fragmentos de Braga, guardados no tempo.

🎨 Tal como nas edições anteriores, ilustrei 40 elementos gráficos e tipográficos distintos, com precisão e atenção ao detalhe: 100% VECTOR, 0% TRACE. No total, este tríptico reúne 120 elementos, entre ilustrações, ícones, letras e dísticos. Alguns foram mantidos com grande fidelidade ao original, enquanto outros exigiram interpretação, mas cada um foi redesenhado ao detalhe, de forma a preservar não só a forma, mas também a identidade que carrega.

🖼️ A qualidade mantém-se: impressão em Giclée, com elevada fidelidade de cor e longevidade, em papel PC Velvet de 270 g (25% de algodão, branco, textura suave). Com dimensões de 534 x 297 mm, este poster foi pensado para dialogar com as edições anteriores e completar o tríptico, ou para existir sozinho. Porque cada fragmento da cidade tem a sua própria voz.

🎁 Para quem sente Braga como casa, para quem a guarda na memória ou para quem simplesmente quer apoiar o projeto. Mais do que um poster, é um pedaço da cidade que pode viver na tua parede e continuar a contar histórias todos os dias.

💬 Se quiseres um exemplar, envia mensagem privada ou deixa um comentário. E se não for o momento, partilhar já ajuda a manter vivas estas memórias.

❤️ Esta é uma viagem feita de letras, de ruas e de tempo. Uma carta de amor tipográfico a Braga, agora completa.

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