11/08/2026
Ninguém sabe, ninguém soube
O calibre 9 milímetros falou primeiro.
Depois veio o silêncio.
A presença das autoridades nos levou a perguntar aos moradores da região, mas ninguém quis colocar em palavras o que havia acontecido. A única versão ficou espalhada pelo asfalto: os estojos deflagrados.
A via foi interditada.
Não havia passagem para veículos.
Não havia passagem para pedestres.
Os moradores fecharam portas, janelas e bocas. O medo também sabe isolar uma rua.
Minutos depois chegaram agentes da polícia, peritos, ambulâncias e viaturas. As fitas de isolamento cercaram a cena, e a cidade aprendeu, por algumas horas, a contornar a morte.
Alguns omitiram a verdade.
Outros a soltaram a conta-gotas.
Ninguém sabe.
Ninguém soube.
Durante algumas horas, o caos reinou nos limites da cidade. O som das sirenes se misturou aos murmúrios e àquele silêncio estranho de quem viu demais e prefere dizer que não viu nada.
Depois, já quase no fim da tarde, quando até a esperança parecia ter se afogado, a cidade retomou seu curso.
Os carros voltaram a passar.
As pessoas voltaram a caminhar.
Os comércios reabriram suas portas.
A vida seguiu, como sempre segue.
E no lugar onde, horas antes, um homem havia caído, alguém acendeu uma vela.
Uma pequena chama, tremendo sobre o asfalto.
Como se fosse preciso deixar registrado que ali, embora ninguém soubesse e ninguém tivesse visto nada, por alguns minutos o mundo havia parado.