03/02/2026
Onde o tempo ancora e a alma mareia.
Percorrer as ruelas do Rio Vermelho é, antes de tudo, um exercício de arqueologia afetiva. É impossível transitar por este solo sem que o peito seja acometido por uma saudade ancestral, um saudosismo que evoca os tempos em que o misticismo e a boemia selaram seu pacto eterno sob o luar da Mariquita.
Recordo-me da sinfonia rústica dos ambulantes, cujos pregões ecoavam como cânticos litúrgicos entre o aroma inebriante do dendê e a brisa salina. Havia — e ainda há — uma nobreza intrínseca em cada gesto, uma resistência poética que transforma o cotidiano em obra de arte.
E o que dizer daquela luz? Uma claridade que não emana apenas dos postes, mas dos seres de luz que habitam o invisível, zelando pela morada da Rainha das Águas. É uma atmosfera saturada de axé, onde o profano se ajoelha diante do sagrado e a memória se dissolve no azul profundo do horizonte.
Que o Rio Vermelho permaneça assim: um refúgio para os românticos incuráveis, um palco para os devotos da vida e o porto seguro de nossas lembranças mais viscerais.