08/05/2021
Jacarezinho,2021
26 Mortos
A maior chacina da história do Rio de Janeiro
Tenho dito que, diante da morte, sempre há um recuo para dentro de nós mesmos, encontrando um signif**ado para a interrupção de uma vida que poderia ser a nossa...Sobretudo quando atravessada por um ato de extrema violência .É nesse momento que se instala um silêncio profundo, coletivo. Que nos paralisa e sufoca . E foi com esse silêncio dentro do peito que entrei no Jacarezinho...De dentro do carro ouço o ruído seco dos pneus de ônibus voltando na contramão, enquanto motoristas de carro contornam, parando por instantes para avisar aos demais que é bom voltar porque está tendo protesto...Câmera na mão, decidi sair do carro em frente à cidade da polícia, deparando com muitas viaturas de polícia na porta da GRES Jacarezinho, onde ocorreria o ato em protesto contra o assassinato de 26 pessoas, segundo o relato “oficial”. Por todo lado, homens fardados, sirenes, pickups circulando. Fuzis cruzados no peito. Máscaras, celulares em punho. Revólveres fora do coldre. População nas ruas, bandeiras e cartazes tomando a rua no exato espaço entre carros, motos e ônibus e a chuva fina que caia. Tensão que se media no ar, onde tudo se misturava, dor raiva, esgotamento, entre os dois lados, o de quem chorava seus mortos, os nomes repetidos aqui e ali e os rostos impassíveis dos homens do Estado. Política de Morte. Barbárie e Caos. Coturno e fardas que pouco antes pisaram ruas de sangue... Uma memória impossível de ser esquecida. É com essa imagem na cabeça que penetrei com dificuldade a massa de pessoas, contidas pelas mãos dadas, pelos próprios corpos, seguindo a manifestação até uma das principais ruas da favela. Aos gritos de “Assassinos” e “Fora, Bolsonaro”, a multidão se aglomera no corredor. Em meio às lojas cheias de flores e corações vermelhos - presentes para mães que acabaram de perder seus filhos. Ali e aqui os rostos e corpos se aglomeram, para deixar a multidão passar. Pendurados nos postes, os nomes dos que se foram e os pedidos de justiça. Há um coletivo esforço de marcar aquele dia com as falas dos que ali estão. E há uma só palavra em todos nós: barbárie. Reforçada pela presença ostensiva da polícia diante do Ato. E nos rostos dos familiares e amigos. Porque todos ontem tentamos inutilmente resgatar um tanto de humanidade que restou perdida, quando 26 pessoas - e há relatos de mais mortes - foram barbaramente executadas, diante de nossos olhos, tombando em frente aos seus filhos, maridos, esposas, pais e mães. De que tipo de espécie somos para permitirmos esse massacre, sem razão nem medida? Que matéria nos constitui para observarmos a distância dezenas dos nossos serem dizimados sem uma palavra, um gesto em defesa de quem não podia se defender? E onde aplaudimos os homens vestidos de negro, chamando-os de Ordem. Só há uma palavra que define o ocorrido no jacarezinho, três dias antes do dia das mães: Chacina. Em definição: assassínio em massa, geralmente com crueldade; matança, mortandade, morticínio. Diante da multidão que entoava os nomes dos seus, em meio à chuva, já não nos cabe mais perguntar: por que? Não temos mais esse direito. Devemos a todos os mortos e aos que estão diariamente sob ameaça do Estado genocida que encontrou em Jair Bolsonaro seu apogeu, a revolta, a ação. Porque já é tarde demais.