05/05/2018
O CORONEL JACINTHO FERREIRA E SÁ E A FAZENDA DAS FURNAS
Dona Escolástica deixou por algumas horas seus afazeres familiares e sociais e foi ao cartório. Nessa cena prosaica, com jeito de começo de novela e ambientada em São Paulo, definiu-se, em grande parte, o destino de Ourinhos. Era o dia 11 de fevereiro de 1910 e dona Escolástica saiu de casa para passar a escritura de sua Fazenda das Furnas, ou Salto do Turvo, ao coronel Jacintho Ferreira e Sá. Não precisou andar muito. Ela vivia no palacete da rua Major Quedinho, 1, esquina com a rua da Consolação; e o tabelião Claro Liberato de Macedo funcionava na rua Álvares Penteado, 32. Realmente muito perto. Já para Jacintho, a viagem desde Santa Cruz do Rio Pardo representava o desconforto de dez ou doze horas de trem.
Escolástica Melchert da Fonseca, nascida em Itu, em 1860, iria completar 50 anos. Uma viúva com muitos bens, dona de uma elegância austera que lhe valera o apelido de Baronesa entre os íntimos. Fotos da época mostram, uma mulher de vestido preto, cabelos grisalhos e um olhar um tanto melancólico. Usava sempre um broche de prata que se abria num porta retratos com duas fotografias: a do marido, João Manoel da Fonseca Júnior, e a da filha, Maria Thereza, ambos falecidos em 1908.
A caminho do cartório, dona Escolástica carregava essas duas perdas recentes. José Manoel, empresário e proprietário de terras em Itu e em São Paulo, morrera com 50 anos. O jornal O Estado de S. Paulo definiu-o como “conhecido capitalista dessa praça”. A filha Thereza morreu aos 5 anos. Restava agora a dona Escolástica a segunda filha, Matilde, com 17 anos. Sobravam-lhe também, como herança, terras nos arredores de São Paulo, que seriam loteadas, e outras jamais visitadas, longínquas e difíceis de administrar. Como a Fazenda das Furnas, uma paisagem vaga que lhe coube após partilha judicial. Pesquisa futura poderá esclarecer a razão de a partilha ter sido judicial.
O coronel Jacintho Ferreira e Sá, na mesma ocasião, estava de bem com a vida e com os negócios. Mineiro arrojado, fizera um longo percurso até se tornar comerciante em Santa Cruz e, finalmente, fazendeiro.
E só tinha 32 anos. Dois anos antes, em 1908, já havia comprado 1065 alqueires da Furnas e agora adquiria mais 1230 alqueires, o que o tornava um proprietário com 2295 alqueires de boa terra roxa. Desenlace de uma aventura iniciada ainda menino, quando o pai, Manuel Ferreira de Aguiar e Sá, concluiu que não havia mais vantagem na lavra de diamantes num lugar chamado Lagoa Seca, hoje um bairro de Diamantina, onde Jacintho nasceu a 8 de janeiro de 1876.
Para o velho Manuel, mais conhecido como Neco das Pindaíbas, o futuro estava nas regiões novas do café em São Paulo. Juntou a mudança e com a mulher, Josephina de Magalhães e Sá, e os filhos atirou-se na estrada. Viagem a lombo de b***o entre Diamantina e São Simão, no interior paulista. Cenas dessa jornada pelo sertão permaneceram na memória familiar e hoje são relatadas por Jacintho Ferreira de Sá, o Jacintinho, filho de Jacintho Sá e neto de Neco das Pindaíbas: “Conta-se que, a certa altura, os caixotes das crianças, não resistindo à corrosão causada pela urina, tiveram seus fundos desprendidos, deixando cair ao solo, junto às patas dos muares, a preciosa carga de crianças”.
A família era numerosa. Jacintho teve oito irmãos: Saul, Salathiel, Cristovam, Lindolfa, Marina, Otília, Celeste e Stela. Jacintho logo se revelaria o mais ambicioso e com maior poder de liderança. Percebendo que as novas oportunidades não estavam mais na Paulista ou na Mogiana, regiões pioneiras do café, mas na novíssima Sorocabana, convenceu Saul e Salathiel a acompanhá-lo a Santa Cruz do Rio Pardo, onde em 1896 fundaram a Casa Três Irmãos, de secos e molhados. Jacintho estava com 18 anos. Saul e Salathiel cuidavam do estabelecimento e Jacintho, do transporte das mercadorias, que chegavam por trem só até Cerqueira César. O trecho restante, mais de cem quilômetros através de picadas e estradinhas precárias, Jacintho passou a cobrir com uma comitiva de carregadores, um cozinheiro e uma tropa de b***os. A equipe foi crescendo, a ponto de aceitar transportes pagos para outras pessoas.
As viagens proporcionavam a Jacintho contatos com homens influentes na política estadual, principalmente Ataliba Leonel, chefe absoluto da região da Sorocabana, e João Baptista de Mello Peixoto. Ataliba, com base e residência em Piraju, dividia o poder no estado com Washington Luís e Júlio Prestes. Mello Peixoto, aliado de Ataliba, senador e por duas vezes secretário estadual (Fazenda e Agricultura), liderava em Chavantes e imediações, o que incluía Ourinhos. Por fim, Jacintho fez amizade com o jovem diplomata José Carlos de Macedo Soares, que seria deputado estadual, interventor em São Paulo e duas vezes ministro (Justiça e Relações Exteriores), um homem em evidência até a metade dos anos 50. Macedo Soares foi casado com Matilde, filha de dona Escolástica, a dona da Fazenda das Furnas.
A segunda parcela da fazenda foi vendida por vinte contos de réis, pagos em três anos com juros de 6 % ao ano. Jacintho ofereceu garantias e aceitou as condições da vendedora. Dona Escolástica foi cuidar da vida e de outros empreendimentos. Um deles, com nome em homenagem a sua filha, tornou-se a Vila Matilde, na margem direita do rio Tietê. Os passistas da Escola de Samba Nenê da Vila Matilde não têm ideia de quem se trata quando, a caminho dos ensaios, passam por uma rua chamada Escolástica Fonseca. A Baronesa acabou vendendo o palacete, da Major Quedinho, que foi demolido, e indo morar com a filha logo adiante, na avenida São Luís, 234, no casarão de Macedo Soares, com sua varanda dando para a rua (no local onde atualmente f**a o Hotel Eldorado). Viveu e viajou bastante, até 1949, quando faleceu no Rio de Janeiro, aos 88 anos. O jornal O Estado de S. Paulo referiu-se a ela como pertencente “à tradicional família paulistana”. A filha Matilde viveu até 1963,
e o embaixador Macedo Soares, até 1968. Não tiveram filhos.
A Fazenda das Furnas não era toda a Ourinhos. A descrição de suas divisas faz menção a duas outras fazendas de famílias pioneiras: a Lageadinho, de Antônio de A. Leite, o conhecido coronel Tonico Leite que, junto com Jacintho, seria influente na política ourinhense; e a Fazenda do Jacu, também conhecida como Ourinhos, da família Costa Júnior. Se Ourinhos nasceu em data incerta do começo do século, como pouso de viajantes que se dirigiam ao Paraná ou de lá retornavam, é fundamental o papel de Jacintho Sá como definidor de sua expansão, progresso e modernidade em vários sentidos.
Valendo-se de boas ligações políticas, Jacintho Sá conseguiu que a
Sorocabana criasse uma estação dentro de suas terras. O que aconteceu
em 1908, exatamente o ano em que começou a comprar a Fazenda das
Furnas. Em seguida, iniciou o loteamento do local, em condições urbanísticas inovadoras: traçado retilíneo, avenidas e ruas largas, diferenciando Ourinhos das cidades mais antigas do estado, com suas melancólicas ruas estreitas. O envolvimento completo com a cidade, da qual foi prefeito de 1923 a 1925, distingue Jacintho de outros senhores rurais.
Ele estava tão mergulhado no empreendimento que chegou a contrair tifo, um dos males da região. Faleceu em São Paulo, a 13 de maio de 1928, no Hospital Matarazzo. Foi a primeira pessoa a ser enterrada no novo cemitério de Ourinhos, localizado em terreno por ele cedido à municipalidade. O local era distante do centro e foi preciso abrir uma picada. O sepultamento se deu ao entardecer, à luz dos faróis dos automóveis. Jacintho, que iniciara uma empresa rural com 400 mil pés de café, invernada, criação de bois e cavalos, serraria, olaria e uma fábrica de ladrilhos, morreu aos 50 anos. A mesma idade de dona Escolástica quando lhe vendeu a fazenda.
Fonte: Livro, Ourinhos - Memórias de uma Cidade Paulista
Jefferson Del Rios